A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça tem a honra de convidar Vossa Senhoria para participar do ATO COMEMORATIVO AOS 30 ANOS DE LUTA PELA ANISTIA NO BRASIL a realizar-se no dia 22 de agosto de 2009 (sábado), às 10h, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, Praça da República n˚173 - Rio de Janeiro/RJ, conforme programação anexa.
O evento, que se constituirá em justa homenagem e reconhecimento ao protagonismo e resistência dos brasileiros que lutaram pela liberdade e pela redemocratização, compreenderá Ato em Homenagem aos ex-presos políticos da Greve de Fome Nacional pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita; Apresentação Pública do Memorial da Anistia Política do Brasil; Apresentação do Selo Comemorativo e da Revista da Anistia e Justiça de Transição no Brasil; Lançamento de Exposição Fotográfica e Sessão de Autógrafos.
A atividade promoverá um encontro histórico dos ex-presos, bem como a entrega de Portarias de Anistia Política àqueles que fizeram a greve de fome em 1979. Na ocasião, estarão presentes autoridades, artistas, entidades de direitos humanos e representantes da sociedade civil organizada.
A data de 22 de agosto é muito emblemática pois, há exatos 30 anos, o Congresso Nacional aprovava a Lei de Anistia n˚6.683/79 fruto da ampla mobilização de diversos setores da sociedade brasileira.
Solicitamos a confirmação de presença até o dia 10/08, com Kelen Meregali no tel. (61) 2025.9400 ou pelo e-mail evelin.ferreira@mj.gov.br
Aproveito a oportunidade para renovar votos de estima e consideração.
Paulo Abrão Pires Junior
Presidente da Comissão de Anistia/MJ
===================================================================================vg Programação========================================================
PROGRAMAÇÃO
10h – Solenidade Oficial de Abertura
10h15– Vídeo de Sessão de Memória sobre os 30 anos da Luta pela Anistia no Brasil
10h30 – Apresentação do Selo Comemorativo aos 30 anos da Anistia e da Revista da
Anistia Política e Justiça de Transição
10h45 – Apresentação Pública do Memorial da Anistia do Brasil
11h – Ato de Homenagem aos ex-presos políticos da Campanha da Greve de Fome
Nacional pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita com Exibição do vídeo “Sal, água e
açúcar” e Entrega das Portarias de Anistia Política
11h30 – Pronunciamentos
12h –ALMOÇO DE CONFRATERNIZAÇÃO
14h – Apresentação da Exposição Fotográfica sobre o Movimento dos Presos Políticos
14h30 – Sessão de Autógrafos com diversos autores de livros sobre a história do
período ditatorial, da anistia política e da resistência popular
16h – Encerramento com apresentação cultural
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quinta-feira, 6 de agosto de 2009
MARCHA ESTADUAL MST/SP PARTIDA DIA 5 DE AGOSTO -saida de CAMPINAS - Vanderley Caixe

Estimados companheiros e companheiras,
Estamos nos aproximando de um momento importante de luta da classe trabalhadora, que ocorrerá no mês de agosto – a Mobilização Nacional contra a Crise. Em São Paulo, iniciaremos no dia 5 de agosto com a Marcha Estadual de Campinas a São Paulo, chegando à capital no dia 10 – onde permaneceremos mobilizados até o dia 14.
O êxito da mobilização depende de nossa capacidade de construir unidade entre os organismos da classe trabalhadora, porém, também necessitamos da solidariedade de classe para garantir as condições materiais de realização da Marcha e demais atividades.
No intuito de compartilhar os objetivos de nossa Marcha e também apresentar nossas principais demandas, elaboramos o documento que segue abaixo:
POR QUE MARCHAMOS?
Somos trabalhadores e trabalhadoras rurais organizados no Movimento Sem Terra / Via Campesina, que lutamos pelo direito a um pedaço de terra onde possamos plantar, colher e garantir uma vida digna às nossas famílias.
Oriundos de várias partes do Estado de São Paulo, de diferentes comunidades, assentamentos e acampamentos para dialogar com a sociedade e os poderes constituídos com o objetivo de denunciar a condução das políticas em nosso país, as quais favorecem apenas os ricos que, por meio da apropriação capitalista, aumentam a cada dia mais a exploração e a miséria da classe trabalhadora. É por isso que marchamos:
Marchamos para reafirmar a necessidade da realização da Reforma Agrária como uma política de distribuição de terra, renda e riqueza para milhões de brasileiros que de forma direta ou indireta serão beneficiados. Dizem que São Paulo não tem terra para os SEM TERRA, entretanto, é um dos estados com uma das agroindústrias mais concentradoras a qual convive com os maiores índices de êxodo rural e miséria em suas pequenas e médias cidades do interior, além do terrível cenário atual nas periferias das grandes metrópoles, onde se concentram milhões de pessoas sem alternativa de vida digna. O povo brasileiro precisa recolocar a Reforma Agrária na pauta do país e dizer que somente através dela é que vamos conseguir produzir alimentos de boa qualidade, a baixo custo e empregar milhares de pessoas que foram expulsas do campo pelo Agronegócio.
Marchamos porque somos contra a concentração da propriedade da terra, das florestas, da água e dos minérios, pois, além de causar a destruição da natureza, expulsa os camponeses, os pequenos produtores, os povos indígenas, os ribeirinhos, os quilombolas. Condenamos a política agrícola e ambiental dos sucessivos Governos Tucanos em São Paulo e do Governo Lula, pois só têm beneficiado o agronegócio, seus interesses econômicos e incentivado a destruição ambiental.
Marchamos para reafirmar a necessidade de unificar toda a classe trabalhadora, do campo e da cidade, para juntos consolidar um processo de emancipação pelo qual possamos ter de fato emprego decente, moradia digna, saúde e educação gratuita e de qualidade, alimentos saudáveis para todo povo brasileiro.
Marchamos para denunciar a exploração da classe trabalhadora por seus patrões e fazer com que o nosso apelo seja ouvido e que soluções sejam tomadas: a cada dia aumenta o número de pessoas desempregadas, e agora com a crise dos ricos, sobra para nós, os empobrecidos, pagarmos a conta. Precisamos nos fortalecer enquanto classe trabalhadora para garantir que se cumpram os direitos trabalhistas e previdenciários; a maioria dos empregadores sequer assina a carteira de seus funcionários. É inadmissível e indignante vivermos ainda hoje com a existência de trabalho escravo em nosso país, e assistirmos passivos os aumentos sucessivos de incentivos para aquelas agroindústrias que o promovem.
Marchamos também para repudiar a crescente criminalização da luta social e da pobreza em todo o país. Não é possível admitir que num país dito democrático, cada vez mais seja considerado crime o exercício legítimo de organização política e reivindicação de nossos direitos assegurados formalmente até pela Constituição Federal. Muito menos admitir que pessoas, sobretudo jovens e negros das periferias urbanas, sejam a cada dia mais consideradas “suspeitas” simplesmente por viver na pobreza ou na miséria material, tornando-se vítimas prioritárias das políticas de criminalização, encarceramento e execuções sumárias em massa que se tornaram uma prática comum do Estado brasileiro nos últimos anos.
Marchamos, finalmente, para refletir e debater também sobre a forma com que o meio ambiente está sendo tratado. O nosso país ainda tem o privilégio de possuir riquíssimos biomas: como a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, o Cerrado, o Pantanal etc, porém, infelizmente a cada dia que passa, mais ameaçados estão nossas matas, florestas, rios, animais, clima e seres humanos… devido à busca desenfreada dos capitalistas pelo lucro. É preciso frear a ganância dos poderosos que, para seguir aumentando seus lucros, passam por cima de tudo e de todos. Nos dias de hoje já vivenciamos vários problemas de ordem climática que é resultado desta ganância dos ricos.
O povo não pode pagar a conta. Que os ricos paguem a conta da crise!
CRESCEMOS SOMENTE NA OUSADIA!
Mário Benedetti
A NATUREZA DA CRISE E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS PARA O BRASIL por João Pedro Stédile - PARTE II - FINAL - Vanderley Caixe
3 . Como a direita trata o tema da crise na imprensa:
Qual é o discurso da direita brasileira hoje nos meios de comunicação? Primeiro, de que a crise é de todos. Segundo, que não se sabe por que, de repente, caiu de pára-quedas. A crise não tem culpado. Ela apareceu no jornal nacional: “Estamos em crise”. Poderia ter sido anunciada pela menina do meteriológico lá: “pessoal, vai ter chuva no nordeste, seca no sul e para todos, crise!” Uma obra assim...
Bem se a crise é todos e não tem culpados, o governo tem que fazer alguma coisa, né, pra eles. Pra salvar as empresas brasileiras. Então, tudo se justifica. Alguém fez alguma crítica aos 4 bilhões que o Banco do Brasil pegou do nosso dinheiro pra salvar o banco Votorantim? Quatro bilhões num cheque só do presidente do Banco do Brasil! Pra salvar o banco Votorantim. Coitado do Antonio Ermírio né! O sujeito é trabalhador, ele levanta mais cedo, e as 5 horas já está trabalhando.
Quarta falácia da imprensa burguesa sobre a crise. “Pessoal, é grave, mais vai passar rápido”. Parece aquelas vacinas em criança: “dói, mas vai passar rápido, viu!”. É isso que eles ficam dizendo pra população. No entanto, se alguém resolver criticar, ou se levantar, que a burguesia está exigindo? Criminalização! O MST está apanhando por antecipação. Nós estamos sendo reprimidos toda semana. Ontem mesmo, tô aqui puto da cara, porque despejaram uma área em Minas Gerais, com cento e poucas famílias, que estavam há doze anos, já com casa de material, chiqueiro, aí vem a polícia militar com a tropa de choque, com aqueles tratores... destruíram tudo! Porque um juizinho de primeira instância deu uma liminar, sendo que o proprietário da terra deve ao Banco do Brasil 70 milhões! Mas ninguém analisa. Mas por que tanta repressão? Nós estamos analisando que estamos apanhando por antecipação. Ou seja, “vamos bater nos que reclamam pros outros ficarem quietos”. Então, faz parte dessa ideologia dos meios de comunicação. Todo dia falam mal do MST. Mas não vai ser só do MST. Deixa os petroleiros continuarem a fazer mais uma grevinha que eles pegam os petroleiros também. Se alguém lutar, eles reagem, repressão!.
4.Perspectivas para a classe trabalhadora brasileira
Bem, agora, nos últimos 10 minutinhos, as perspectivas para a classe trabalhadora.
Primeiro, vocês já sabe, nós estamos ferrados. Grande novidade!
Então, o primeiro aspecto que eu queria comentar, é que o contexto histórico da luta de classes no Brasil é adverso para a classe trabalhadora. Ou seja, a crise, embora gere contradições que depois nós vamos ver, mas ela veio num momento muito ruim, porque justamente desde a derrota política que nós tivemos de 1989 até agora, na nossa opinião nós vivemos num descenso do movimento de massas. Uma derrota política da classe trabalhadora. Qual foi a última greve geral que nós fizemos? Qual foi a grande última manifestação? Até pros comícios políticos! Se os políticos não levarem Chitãozinho e Chororó, “Frique-frique e Frique-Fró” e as saias cada vez mais levantadas, o povo não vai nem pra 1º. De maio. Isso reflete o descenso do movimento de massas, a situação adversa que a classe trabalhadora está vivendo. Então nós estamos vivendo um momento muito difícil pelo descenso do movimento de massas, pela derrota ideológica que nós sofremos. A vitória hegemônica do neoliberalismo que agora nós estamos vendo. Sei que muitos aqui são estudantes universitários: o que a universidade está produzindo nos últimos 10 anos? Um monte de cabeça vazia que dá dó. Agora que nós estamos percebendo o desastre que foi o neoliberalismo dentro da Universidade. No período anterior, a PUC foi um dos pólos da resistência contra a ditadura, e agora é pólo de resistência a quê? Não vou botar a culpa nos estudantes. Dizer que o mundo acadêmico, o mundo estudantil é reflexo dessa correlação de forças adversa que a classe trabalhadora tá vivendo. E reflexo da derrota ideológica que a classe trabalhadora sofreu com o neoliberalismo que afetou todos os setores. Quem fala em socialismo hoje? Deus me livre! Já tem que acrescentar outros adjetivos: democrático, plural, num sei o quê... Socialismo é socialismo! Socialização da propriedade dos meios de produção, ponto! Democracia é o que se refere ao regime político, como é que você vai organizar o poder político da sociedade. Socialismo como modo de produção, não tem subterfúgio! Mas é difícil, viu!
Então, desse contexto que vem desses últimos anos, é infelizmente o baixo nível político e cultural de nosso povo. Claro que o povo é a única força capaz de fazer mudança. E precisamente, por ser o único que pode mudar, olhando pra ele, você percebe. Porque é um povo que tá sendo muito ludibriado pela televisão, pelos políticos, e por tudo quanto é porcaria. Quer dizer, falta uma tradição ideológica e cultural. Olha os níveis de leitura! Não é brincadeira, nossa sociedade ainda é herdeira de 400 anos de escravidão. Não é brincadeira que Buenos Aires tenha mais livraria que todo o Brasil junto. É isso que é o reflexo. Não é brincadeira que a Folha de São Paulo, desde 89 venha diminuindo o número de seus leitores! (isso é uma notícia boa)! É uma pena que seja só na classe média, mas é reflexo. Aqui não tem tradição de leitura. Nós somos uma classe trabalhadora empobrecida culturalmente, politicamente. E isso afeta a reação.
Bem, sigo. Diante desse cenário tão complexo, as forças que procuram se organizar e lutar contra a crise, hoje, no meu modo de entender, se aglutinam em torno de 3 alternativas, que, ao longo do seminário, devem ter estado presente aqui.
a) A primeira alternativa, é um grupo de forças populares que dizem, bom: “frente à crise, socialismo já!”. “Não há mais saída para o capitalismo, ‘bá-bá-bá’, socialismo!”. É fácil de identificar, não é nenhuma avaliação, só estou procurando compartilhar. Mas, os setores populares mais identificados com o PSTU, e com algumas correntes do PSOL, a Causa Operária, algumas correntes trotskistas defendem essa alternativa: socialismo já!
b) Num segundo grupo, defendem propostas que nós podemos classificar como neo-keynesianas. Baixa a taxa de juros, aumenta as políticas públicas para os pobres, aumenta os programas de compensação social, uma espécie de New Deal do Roosevelt rebaixado. Vou usar um professor, o Chico de Oliveira, como meu advogado. Ele diz: “vocês são maldosos, o Stedile, dizer que esse grupo defende o neo-keynesiano, isso é uma ofensa ao Keynes, o Keynes era mais radical !”. E fecho parênteses, mas evidentemente há forças populares, há correntes sindicais, movimentos sociais que defendem plataformas inseridas nesse contexto.
c) E há um terceiro grupo, na qual nós da Via Campesina nos inserimos, que defendemos uma espécie de Projeto Popular. Ou seja, não temos a ilusão de que o socialismo virá na esquina. Não temos força nem pra tirar o Meirelles, que todo mundo sabe que ele representa os interesses dos bancos. Foi presidente mundial do Banco de Boston! Está lá no seu currículum, não precisa ninguém falar mal. Pô, não temos força pra trocar o Meirelles! Imaginar que temos correlação de forças pra fazer mudanças socialistas?? E também o neo-keynesianismo não é uma alternativa popular. Ele pode até recompor a taxa de lucro, ele pode amenizar o sofrimento da classe trabalhadora, evidentemente. Mas ele não é uma alternativa pra nós aproveitarmos as contradições da crise e, pelo menos, entrar pra próxima etapa com um acúmulo de forças maior.
5. Elementos de um Projeto Popular para sair da crise
Quais seriam os parâmetros, os indicativos do que seria um Projeto Popular, que nós estamos, inclusive, tentando convencer outras forças a aderirem ao que poderia ser uma plataforma mais unitária. E, por isso também, colocamos nessa plataforma alguns elementos mais keynesianos, mas na essência seria uma tentativa de resistência ao capitalismo para acumular força para uma próxima etapa. De maneira muito rápida, quais seriam os pontos de uma plataforma do Projeto Popular pra enfrentar a crise:
a) Garantia de emprego pra todos. Então não se trata só do Estado fazer políticas de compensação social, o Estado tem que pegar o dinheiro e tentar investir em áreas da produção que gerem empregos pra todo mundo. E estabelecer uma espécie de moratória. Todo brasileiro que quiser trabalhar, o Estado garante emprego pra todos. Aonde? Se cria, na construção civil, no serviço público, em mil e uma formas.
b) Redução da jornada sem redução do salário. E, colado a esse, valorização do salário mínimo, que, ta comprovado por um monte de análises, é o principal mecanismo de distribuição de renda no Brasil. O salário mínimo, porque pega justamente os mais pobres. Não só os que ganham de empresa o salário mínimo, mas, sobretudo lembrem-se, que entre os mais pobres dos brasileiros, estão os 14 milhões que recebem o benefício do INSS, e o grau de referência do benefício do INSS é o salário mínimo. Então, automaticamente, você aumenta o salário mínimo, você faz uma transferência daquele dinheiro público, e dos trabalhadores pra essa camada mais pobre que ta lá dependente dos benefícios da Previdência.
c) É estabelecer um pacto de resistência: não aceitar nenhum direito social a menos.
d) Zerar o superávit primário. Esse é o principal mecanismo econômico de espoliar a sociedade brasileira. Como eu disse antes, superávit primário hoje representa que o governo transfere todos os anos, 200 bilhões de nosso dinheiro, da Receita Federal pros bancos. Tem que acabar com isso. E com esses 200 bilhões, nós conseguiríamos então aplicar nessas políticas por parte do Estado, que poderiam gerar emprego pra todos e ter outra política de distribuição de renda. Chamo a atenção de vocês: os países da América Latina são os únicos países que aplicam o superávit primário. Com exceção, inclusive, de Cuba e Venezuela. São os únicos. Na Ásia ninguém tem superávit primário. Na Europa e Estados Unidos é déficit cada vez maior. Então, por que só o Brasil vai seguir nessa política de superávit primário? Pra ser justo, nos últimos meses com a crise, o superávit primário vem diminuindo, mas não por vontade do governo, por política. É que como baixou a taxa SELIC, automaticamente baixa a transferência pros bancos.
e) Evidentemente, puxando a brasa pra nossa sardinha, é aplicar esses recursos num amplo programa de reforma agrária, também pra garantir emprego, trabalho e condições pra população que tá no meio rural, pra eles não virem pra cidade.
f) Reduzir as taxas de juros ao padrões internacionais. Poderia estar inserido nesse contexto de políticas neo-keynesianas, mas é muito importante. Não só a taxa SELIC, que hoje eles estão fantasiando: a taxa SELIC está em 11, tem 6 de inflação, então a taxa real é 5. Tudo bem, do governo pros bancos, mas os bancos continuam cobrando dos consumidores da indústria e do comércio taxas médias de 48%. Então a sociedade inteira está transferindo aos bancos praticamente todo o seu esforço de acumulação. Então, reduzir a taxa de juros não é só a taxa SELIC, tem que ter uma intervenção do Estado pra impedir que os bancos continuem cobrando esse verdadeiro assalto que os bancos estão fazendo pra sociedade em geral, pro comércio (quando tu for comprar uma geladeira, um carro...) e pra indústria, etc.
g) Estatizar o sistema financeiro. Porque, nessa etapa do capital financeiro, o pólo central de acumulação, ou seja, aonde fica a riqueza apropriada pelos capitalistas, não é mais na indústria e no comércio: é nos bancos, é no capital financeiro. Portanto, se o Estado, em nome da sociedade, não controlar isso, não tem como tu sair. Não tem como tu sair da crise em benefício da sociedade. E por isso o Sarkozy defende, e imagino que ele esteja mais ligado aos setores da indústria francesa. Mas é evidente, que mesmo numa lógica capitalista, se não houver uma intervenção estatal, ou seja, uma força maior que controle o sistema financeiro dos países, não tem volta.
h) Um amplo programa de defesa do meio ambiente e da vida das pessoas. O que é isso? Isso é genérico, pode ser apenas doutrinário... Não! Nós temos que impedir a mudança no Código Florestal, porque é isso que vai fazer com que os ruralistas acabem com o que ainda tem de recursos naturais. Vocês sabem que eles querem baixar a reserva legal: de 80 e 50 pra 20. Está lá no Congresso, já passou pela Câmara, está no Senado agora, ou seja, um negócio concreto, pra amanhã. Impedir as mudanças de regularização fundiária na Amazônia, eles querem privatizar a Amazônia até 1.500 hectares, por pessoa e não precisa mais comprovar posse. Tô aqui em São Paulo e posso pedir pra algum preposto registrar 1.500 hectares em meu nome. E depois eu me lembrei: “Ah, tem minha filha também, mais 1.500 pra minha filha”, “Ah, pra Olívia, que é boa menina, mais 1.500”. Isso é mais atrasado que a Lei 601 de 1850. Não precisa nem comprovar posse. Nem comprovar residência. Bom, isso é a volúpia do capital total, nós temos que impedir isso, pra garantir o mínimo de reserva dos recursos naturais pro povo brasileiro. Nós temos que controlar a qualidade dos alimentos. O agronegócio está produzindo veneno, não comida. E todos os cientistas que tão cuidando da área estão nos alertando, está proliferando os câncer, 80% deles são originários dos venenos que a população está comendo. E esse veneno vai pra onde? É veneno químico, originário do petróleo que é usado sobretudo. Destrói as bactérias do solo, ou vai pra água, ou vai pro seu estômago. Então continue comprando da Bünge, da Cargill, e feliz enterro! Que certamente vai morrer 10 anos antes daqueles que se alimentam com alimentos saudáveis.
Então, o Estado tem que botar um jeito nisso, francamente, isso aqui já virou casa da mãe Joana, né. A Anvisa, (saiu na manchete da Folha e num caderno do Brasil de Fato). A Anvisa fez as pesquisas aqui na Ceagesp, e disse: “tem 20 produtos que não se recomendam para os seres humanos”. Manchete! E continuam vendendo! Como? Se a conclusão fosse: “esses 20 produtos não servem para a alimentação animal”, é capaz que eles teriam tirado do mercado. Porque pode dar febre suína, pode dar não sei o quê. Então continue comendo maça, moranguinho, tomate, tudo isso só veneno! Por isso que num tem mais nem gosto. Batata, só veneno! Soja, só veneno! Para um Programa Popular pra enfrentar a crise é preciso fazermos essas mudanças reais pra preservar a vida das pessoas e pra preservar a natureza, porque se não esses loucos do capitalismo... Não pensem que eles têm alguma responsabilidade.
i) Recuperação da soberania brasileira sobre as empresas estratégicas de energia, minério. Não sei se vocês sabem, a Eletrobrás que pinta aí como estatal, já tem suas ações vendidas na Bolsa de NY. Esse é o maior problema que nós temos com lá Itaipu se acertar com os paraguaios. Porque a Eletrobrás é gestora de Itaipu, e ela não é só uma empresa pública, tem interesses das privadas que alegam os direitos. Bem, o caso da Petrobrás, patético né, vocês sabem: 58% das ações são privadas. E o caso da Vale, que é uma luta histórica.
j) E, por último, na nossa plataforma, nós precisamos fazer um movimento aqui no Brasil, pra pressionar o nosso governo para ter uma outra postura em relação aos organismos internacionais.
Em vez de valorizar FMI, Banco Mundial, G-20, isso aí tem que fechar. Evidentemente que nós temos que criar um outro marco internacional, uma outra governança internacional. E vemos com bons olhos essa iniciativa que os países da Alba estão fazendo, já criaram uma moeda alternativa que é o Sucre. Que é uma sigla, embora homônimo do General Sucre, que foi um lutador anticolonialista. Mas na verdade ela é uma sigla né, o Sistema Unitário de Câmbio, não sei o quê... E nós temos defendido isso nos movimentos sociais, os governos tem que caminhar rapidamente para fugir da área do dólar, porque o dólar é o principal mecanismo de espoliação dos outros países. Desde 1971 quando o Nixon tirou a paridade com o tesouro e com o ouro. Então, todas as guerras deles eles botam a maquininha pra funcionar. E distribui os dólares para o mundo. Então, se é pra ter uma saída razoável diante dessa crise, é aproveitar a crise pra nós construir uma moeda que seja internacional e sem o controle dos EUA. Segundo o professor Chico de Oliveira, isso ainda não aconteceu na história da humanidade, todas as moedas internacionais foram sempre fruto de vitórias militares. Bom, mas ele pode estar errado também e nós conseguirmos implantar, pela primeira vez na história, uma moeda que não seja só fruto de vitória militar.
6. O que fazer com a plataforma popular?
A proposta dos 10 pontos que eu mencionei aqui como sendo o Projeto Popular, não é uma proposta do MST, é uma proposta que nós estamos construindo nessas plenárias onde a última delas lá em março tinha 88 movimentos. Isso expressa um conjunto dessas forças. Claro que um gostaria de dar mais ênfase num ou outro ponto, mas esses 10 pontos procuram recolher o que poderia ser uma plataforma unitária, porque todos de certa forma se sentem representados aqui. Eu acho também que seria exagero pensar que essa plataforma seria a proposta de socialismo XXI. Não é uma plataforma socialista, evidentemente. Mas nós achamos que, com essa plataforma, nós podemos acumular forças. E de novo, alguém perguntou no intervalo, veio-me dizer: “Evidentemente, essa plataforma é inviável por ir lá e apresentar”, né, ela não cai do céu assim, então “ah, vamos sair da crise, basta aplicar essa plataforma”. Então, qual é o sentido dessa plataforma? O sentido dessa plataforma é debater com a sociedade, ou seja, é conscientizar. É fazer um verdadeiro mutirão entre as pessoas e organizações, de dizer: “a crise é grave, se nós não segurar, os capitalistas vão tomar as saídas clássicas deles, que já relatei, mas nós da classe trabalhadora podemos ter outras saídas”. Agora, essas saídas só são viáveis se nós fizermos luta política. Que significa fazer luta política? Significa fazer mobilização de massas, grandes manifestações, grandes lutas de massas que possam, então, acumular força social. Isso que é luta política, é ter força. Quando você não tem força acumulada de gente organizada, não é política, é apenas doutrina. “Eu acredito nisso...” Então, evidentemente que os companheiros que comentaram isso têm toda razão. Isso aqui é apenas uma plataforma de fazer trabalho de conscientização. Agora, sua viabilidade não é se o argumento está bem escrito, sua viabilidade só vai ser dada se houver um processo de mobilização e organização de massas. Bom, é impossível no Brasil? Na atual situação, agora, final de maio de 2009, claro que nós estamos no descenso, mas as massas aprendem muito rápido. E nós podemos chegar a uma situação de que em curto prazo haja um reascenso do movimento de massas. Ninguém pode dizer que vai continuar 5 anos em descenso e que vai ter mais 5 meses. Isso faz parte da psicologia social, da capacidade que nós tivermos de indignar nosso povo.
O lado bom dessa conjuntura é que a burguesia brasileira não tem projeto para o país. Ao contrário da crise de 29, vocês devem ter comentado nas outras sessões. Na crise de 29, a burguesia brasileira se unificou em torno do Getúlio Vargas, e ele teve que construir uma unidade a “manu-militar”: deu um pau nos paulistas, deu um pau nos comunistas, e deu um pau nos fascistas. Aí unificou a burguesia, inclusive subjugou a força parcelas da burguesia industrial paulista ignorante, centralizou eles e a partir de 37 implementou o modelo que durou até 1980. A rigor, esse é o modelo do Getúlio Vargas. Bem, é um projeto da burguesia brasileira, de desenvolvimento do capitalismo nacional subordinado, dependente.
Agora, a vantagem. Que diante da nova crise, que esperamos que seja prolongada mesmo, qual é o projeto da burguesia brasileira? Não tem! E isso é bom pra nós, nos livramos deles, pelo menos. E isso abre espaço pra que a classe trabalhadora construa um projeto, uma plataforma que seja nosso, pra enfrentar a crise. Para a burguesia brasileira, o único projeto dela é ter ainda maior dependência do capital internacional. Não só de dependência, ou seja, de aprofundar nossa subordinação. Exemplo: na nova re-divisão internacional do trabalho e do capital, no projeto do capital, ao Brasil cabe apenas o papel de ser exportador de matéria prima. Eu fico horrorizado com essas viagens aí pra China, em que o governo e empresários se orgulham de vender mais soja, mais minério e agora petróleo cru. Como se fosse uma vantagem, mas isso é um desastre! É o Brasil voltar à colônia, e é isso que os capitalistas internacionais querem. Que o Brasil cumpra apenas o papel de exportador de matéria prima. Esse seria o nosso papel. E a burguesia brasileira aceita. “Tá bom, desde que você dê um pedaço do teu lucro, então tô satisfeito” Mas isso não é projeto de desenvolvimento nacional! Porque nenhum país do mundo se desenvolveu exportando matéria prima.
Quero compartilhar, como ilustração, uma informação que circulou essa semana de um estudioso ligado à Via Campesina sobre a economia dos Estados Unidos e freqüente aqui no Brasil, o agronegócio usar como argumento de justificação que os EUA é o maior exportador mundial. “Tá vendo, os EUA é a maior potência e maior exportador de matéria prima, esse é o nosso caminho!” Santa ignorância, estatisticamente está comprovado: o agronegócio deles, dos EUA, de todo PIB agrícola, 88% é pro mercado interno, eles exportam apenas 12% do que produzem na agricultura. Ou seja, o centro da riqueza produzida na agricultura nos EUA é pro mercado interno, pro povo americano comer mais, eles só exportam 12%. E aqui, no Brasil, é o contrário, só querem exportar, exportar, exportar... como se fosse a solução. E mais do que isso. Há setores da burguesia brasileira que além de aceitar esse papel subalterno, ainda mais aprofundado com a crise, aceitam a reconversão das empresas brasileiras como subimperialistas. Então, vão lá ler de novo a teoria da dependência do Ruy Mauro Marini, ele foi um profeta nisso. Agora está cada vez mais claro, que também nesse marco de aprofundar nossa subordinação, eles vão entregar às empresas brasileiras o papel de subexplorar os mercados e as riquezas dos outros países da América Latina. Esse é o papel que a Eletrobrás está fazendo com Itaipu, papel que a Petrobrás está fazendo na Bolívia, no Equador, que a Odebrecht, a Andrade Gutiérrez fazem com outros países.
O tema do pré-sal. Claro, me passei aqui correndo, porque de certa forma ele está subentendido. Primeiro naquela política dos EUA de se apoderar dos recursos naturais. Então, o pré-sal é nossa principal riqueza agora que ta lá debaixo do oceano. E é por isso a CPI da Petrobrás. É por isso todos esses movimentos que o PMDB está fazendo. Porque eles estão se mexendo? É pra se apoderarem do pré-sal. E é o que as empresas já estão fazendo. Vocês sabem que nós temos já várias empresas transnacionais, como a Shell, até uma portuguesa, e outras empresas que já ganharam os leilões da parte de cima. É só eles furarem mais 7 mil metros que eles chegam no pré-sal. E algumas delas já estão furando. Então as multinacionais já têm até o direito, se nós não alterarmos a legislação, eles vão acessar o pré-sal. E o que os geólogos estão dizendo pra nós é de que no caso do pré-sal é ainda mais grave porque tudo leva a crer que ele é uma imensa lagoa lá embaixo, que vai do Espírito Santo até Santa Catarina. Então quem acessar a lagoa, vai ter acesso a todo petróleo.
Bem, evidentemente que nós temos que incluir em nossa luta a defesa do petróleo como parte dessa luta pra sair da crise, porque justamente os capitalistas internacionais, e seus aliados aqui no Brasil, eles vão fazer de tudo para que eles tenham o direito de se apropriar dessa, que está sendo classificada, como a principal reserva de riqueza natural do planeta. Então você imagina com que ganância eles vão vir pra cá disputar conosco. Vai ser uma verdadeira guerra. Não pensa que vai ser com abaixo-assinado que nós vamos salvar o pré-sal, claro que não. Nós vamos fazer o abaixo-assinado pra provocar o debate. Mas nós só vamos salvar o pré-sal de novo se vier o reacenso de massas, se nós fizermos grandes mobilizações, porque o inimigo vai ser daquele tamanhão.
Então, me desculpem por passar do tempo, essas são as idéias gerais que nós estamos debatendo sobre a crise nos movimentos sociais.
Muito obrigado pela atenção.
[1] Palestra no Curso de Especialização sobre a Crise. Promovido pelo curso jornalismo da PUC-SP/CEPIS/ENFF. João Pedro Stedile –
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Qual é o discurso da direita brasileira hoje nos meios de comunicação? Primeiro, de que a crise é de todos. Segundo, que não se sabe por que, de repente, caiu de pára-quedas. A crise não tem culpado. Ela apareceu no jornal nacional: “Estamos em crise”. Poderia ter sido anunciada pela menina do meteriológico lá: “pessoal, vai ter chuva no nordeste, seca no sul e para todos, crise!” Uma obra assim...
Bem se a crise é todos e não tem culpados, o governo tem que fazer alguma coisa, né, pra eles. Pra salvar as empresas brasileiras. Então, tudo se justifica. Alguém fez alguma crítica aos 4 bilhões que o Banco do Brasil pegou do nosso dinheiro pra salvar o banco Votorantim? Quatro bilhões num cheque só do presidente do Banco do Brasil! Pra salvar o banco Votorantim. Coitado do Antonio Ermírio né! O sujeito é trabalhador, ele levanta mais cedo, e as 5 horas já está trabalhando.
Quarta falácia da imprensa burguesa sobre a crise. “Pessoal, é grave, mais vai passar rápido”. Parece aquelas vacinas em criança: “dói, mas vai passar rápido, viu!”. É isso que eles ficam dizendo pra população. No entanto, se alguém resolver criticar, ou se levantar, que a burguesia está exigindo? Criminalização! O MST está apanhando por antecipação. Nós estamos sendo reprimidos toda semana. Ontem mesmo, tô aqui puto da cara, porque despejaram uma área em Minas Gerais, com cento e poucas famílias, que estavam há doze anos, já com casa de material, chiqueiro, aí vem a polícia militar com a tropa de choque, com aqueles tratores... destruíram tudo! Porque um juizinho de primeira instância deu uma liminar, sendo que o proprietário da terra deve ao Banco do Brasil 70 milhões! Mas ninguém analisa. Mas por que tanta repressão? Nós estamos analisando que estamos apanhando por antecipação. Ou seja, “vamos bater nos que reclamam pros outros ficarem quietos”. Então, faz parte dessa ideologia dos meios de comunicação. Todo dia falam mal do MST. Mas não vai ser só do MST. Deixa os petroleiros continuarem a fazer mais uma grevinha que eles pegam os petroleiros também. Se alguém lutar, eles reagem, repressão!.
4.Perspectivas para a classe trabalhadora brasileira
Bem, agora, nos últimos 10 minutinhos, as perspectivas para a classe trabalhadora.
Primeiro, vocês já sabe, nós estamos ferrados. Grande novidade!
Então, o primeiro aspecto que eu queria comentar, é que o contexto histórico da luta de classes no Brasil é adverso para a classe trabalhadora. Ou seja, a crise, embora gere contradições que depois nós vamos ver, mas ela veio num momento muito ruim, porque justamente desde a derrota política que nós tivemos de 1989 até agora, na nossa opinião nós vivemos num descenso do movimento de massas. Uma derrota política da classe trabalhadora. Qual foi a última greve geral que nós fizemos? Qual foi a grande última manifestação? Até pros comícios políticos! Se os políticos não levarem Chitãozinho e Chororó, “Frique-frique e Frique-Fró” e as saias cada vez mais levantadas, o povo não vai nem pra 1º. De maio. Isso reflete o descenso do movimento de massas, a situação adversa que a classe trabalhadora está vivendo. Então nós estamos vivendo um momento muito difícil pelo descenso do movimento de massas, pela derrota ideológica que nós sofremos. A vitória hegemônica do neoliberalismo que agora nós estamos vendo. Sei que muitos aqui são estudantes universitários: o que a universidade está produzindo nos últimos 10 anos? Um monte de cabeça vazia que dá dó. Agora que nós estamos percebendo o desastre que foi o neoliberalismo dentro da Universidade. No período anterior, a PUC foi um dos pólos da resistência contra a ditadura, e agora é pólo de resistência a quê? Não vou botar a culpa nos estudantes. Dizer que o mundo acadêmico, o mundo estudantil é reflexo dessa correlação de forças adversa que a classe trabalhadora tá vivendo. E reflexo da derrota ideológica que a classe trabalhadora sofreu com o neoliberalismo que afetou todos os setores. Quem fala em socialismo hoje? Deus me livre! Já tem que acrescentar outros adjetivos: democrático, plural, num sei o quê... Socialismo é socialismo! Socialização da propriedade dos meios de produção, ponto! Democracia é o que se refere ao regime político, como é que você vai organizar o poder político da sociedade. Socialismo como modo de produção, não tem subterfúgio! Mas é difícil, viu!
Então, desse contexto que vem desses últimos anos, é infelizmente o baixo nível político e cultural de nosso povo. Claro que o povo é a única força capaz de fazer mudança. E precisamente, por ser o único que pode mudar, olhando pra ele, você percebe. Porque é um povo que tá sendo muito ludibriado pela televisão, pelos políticos, e por tudo quanto é porcaria. Quer dizer, falta uma tradição ideológica e cultural. Olha os níveis de leitura! Não é brincadeira, nossa sociedade ainda é herdeira de 400 anos de escravidão. Não é brincadeira que Buenos Aires tenha mais livraria que todo o Brasil junto. É isso que é o reflexo. Não é brincadeira que a Folha de São Paulo, desde 89 venha diminuindo o número de seus leitores! (isso é uma notícia boa)! É uma pena que seja só na classe média, mas é reflexo. Aqui não tem tradição de leitura. Nós somos uma classe trabalhadora empobrecida culturalmente, politicamente. E isso afeta a reação.
Bem, sigo. Diante desse cenário tão complexo, as forças que procuram se organizar e lutar contra a crise, hoje, no meu modo de entender, se aglutinam em torno de 3 alternativas, que, ao longo do seminário, devem ter estado presente aqui.
a) A primeira alternativa, é um grupo de forças populares que dizem, bom: “frente à crise, socialismo já!”. “Não há mais saída para o capitalismo, ‘bá-bá-bá’, socialismo!”. É fácil de identificar, não é nenhuma avaliação, só estou procurando compartilhar. Mas, os setores populares mais identificados com o PSTU, e com algumas correntes do PSOL, a Causa Operária, algumas correntes trotskistas defendem essa alternativa: socialismo já!
b) Num segundo grupo, defendem propostas que nós podemos classificar como neo-keynesianas. Baixa a taxa de juros, aumenta as políticas públicas para os pobres, aumenta os programas de compensação social, uma espécie de New Deal do Roosevelt rebaixado. Vou usar um professor, o Chico de Oliveira, como meu advogado. Ele diz: “vocês são maldosos, o Stedile, dizer que esse grupo defende o neo-keynesiano, isso é uma ofensa ao Keynes, o Keynes era mais radical !”. E fecho parênteses, mas evidentemente há forças populares, há correntes sindicais, movimentos sociais que defendem plataformas inseridas nesse contexto.
c) E há um terceiro grupo, na qual nós da Via Campesina nos inserimos, que defendemos uma espécie de Projeto Popular. Ou seja, não temos a ilusão de que o socialismo virá na esquina. Não temos força nem pra tirar o Meirelles, que todo mundo sabe que ele representa os interesses dos bancos. Foi presidente mundial do Banco de Boston! Está lá no seu currículum, não precisa ninguém falar mal. Pô, não temos força pra trocar o Meirelles! Imaginar que temos correlação de forças pra fazer mudanças socialistas?? E também o neo-keynesianismo não é uma alternativa popular. Ele pode até recompor a taxa de lucro, ele pode amenizar o sofrimento da classe trabalhadora, evidentemente. Mas ele não é uma alternativa pra nós aproveitarmos as contradições da crise e, pelo menos, entrar pra próxima etapa com um acúmulo de forças maior.
5. Elementos de um Projeto Popular para sair da crise
Quais seriam os parâmetros, os indicativos do que seria um Projeto Popular, que nós estamos, inclusive, tentando convencer outras forças a aderirem ao que poderia ser uma plataforma mais unitária. E, por isso também, colocamos nessa plataforma alguns elementos mais keynesianos, mas na essência seria uma tentativa de resistência ao capitalismo para acumular força para uma próxima etapa. De maneira muito rápida, quais seriam os pontos de uma plataforma do Projeto Popular pra enfrentar a crise:
a) Garantia de emprego pra todos. Então não se trata só do Estado fazer políticas de compensação social, o Estado tem que pegar o dinheiro e tentar investir em áreas da produção que gerem empregos pra todo mundo. E estabelecer uma espécie de moratória. Todo brasileiro que quiser trabalhar, o Estado garante emprego pra todos. Aonde? Se cria, na construção civil, no serviço público, em mil e uma formas.
b) Redução da jornada sem redução do salário. E, colado a esse, valorização do salário mínimo, que, ta comprovado por um monte de análises, é o principal mecanismo de distribuição de renda no Brasil. O salário mínimo, porque pega justamente os mais pobres. Não só os que ganham de empresa o salário mínimo, mas, sobretudo lembrem-se, que entre os mais pobres dos brasileiros, estão os 14 milhões que recebem o benefício do INSS, e o grau de referência do benefício do INSS é o salário mínimo. Então, automaticamente, você aumenta o salário mínimo, você faz uma transferência daquele dinheiro público, e dos trabalhadores pra essa camada mais pobre que ta lá dependente dos benefícios da Previdência.
c) É estabelecer um pacto de resistência: não aceitar nenhum direito social a menos.
d) Zerar o superávit primário. Esse é o principal mecanismo econômico de espoliar a sociedade brasileira. Como eu disse antes, superávit primário hoje representa que o governo transfere todos os anos, 200 bilhões de nosso dinheiro, da Receita Federal pros bancos. Tem que acabar com isso. E com esses 200 bilhões, nós conseguiríamos então aplicar nessas políticas por parte do Estado, que poderiam gerar emprego pra todos e ter outra política de distribuição de renda. Chamo a atenção de vocês: os países da América Latina são os únicos países que aplicam o superávit primário. Com exceção, inclusive, de Cuba e Venezuela. São os únicos. Na Ásia ninguém tem superávit primário. Na Europa e Estados Unidos é déficit cada vez maior. Então, por que só o Brasil vai seguir nessa política de superávit primário? Pra ser justo, nos últimos meses com a crise, o superávit primário vem diminuindo, mas não por vontade do governo, por política. É que como baixou a taxa SELIC, automaticamente baixa a transferência pros bancos.
e) Evidentemente, puxando a brasa pra nossa sardinha, é aplicar esses recursos num amplo programa de reforma agrária, também pra garantir emprego, trabalho e condições pra população que tá no meio rural, pra eles não virem pra cidade.
f) Reduzir as taxas de juros ao padrões internacionais. Poderia estar inserido nesse contexto de políticas neo-keynesianas, mas é muito importante. Não só a taxa SELIC, que hoje eles estão fantasiando: a taxa SELIC está em 11, tem 6 de inflação, então a taxa real é 5. Tudo bem, do governo pros bancos, mas os bancos continuam cobrando dos consumidores da indústria e do comércio taxas médias de 48%. Então a sociedade inteira está transferindo aos bancos praticamente todo o seu esforço de acumulação. Então, reduzir a taxa de juros não é só a taxa SELIC, tem que ter uma intervenção do Estado pra impedir que os bancos continuem cobrando esse verdadeiro assalto que os bancos estão fazendo pra sociedade em geral, pro comércio (quando tu for comprar uma geladeira, um carro...) e pra indústria, etc.
g) Estatizar o sistema financeiro. Porque, nessa etapa do capital financeiro, o pólo central de acumulação, ou seja, aonde fica a riqueza apropriada pelos capitalistas, não é mais na indústria e no comércio: é nos bancos, é no capital financeiro. Portanto, se o Estado, em nome da sociedade, não controlar isso, não tem como tu sair. Não tem como tu sair da crise em benefício da sociedade. E por isso o Sarkozy defende, e imagino que ele esteja mais ligado aos setores da indústria francesa. Mas é evidente, que mesmo numa lógica capitalista, se não houver uma intervenção estatal, ou seja, uma força maior que controle o sistema financeiro dos países, não tem volta.
h) Um amplo programa de defesa do meio ambiente e da vida das pessoas. O que é isso? Isso é genérico, pode ser apenas doutrinário... Não! Nós temos que impedir a mudança no Código Florestal, porque é isso que vai fazer com que os ruralistas acabem com o que ainda tem de recursos naturais. Vocês sabem que eles querem baixar a reserva legal: de 80 e 50 pra 20. Está lá no Congresso, já passou pela Câmara, está no Senado agora, ou seja, um negócio concreto, pra amanhã. Impedir as mudanças de regularização fundiária na Amazônia, eles querem privatizar a Amazônia até 1.500 hectares, por pessoa e não precisa mais comprovar posse. Tô aqui em São Paulo e posso pedir pra algum preposto registrar 1.500 hectares em meu nome. E depois eu me lembrei: “Ah, tem minha filha também, mais 1.500 pra minha filha”, “Ah, pra Olívia, que é boa menina, mais 1.500”. Isso é mais atrasado que a Lei 601 de 1850. Não precisa nem comprovar posse. Nem comprovar residência. Bom, isso é a volúpia do capital total, nós temos que impedir isso, pra garantir o mínimo de reserva dos recursos naturais pro povo brasileiro. Nós temos que controlar a qualidade dos alimentos. O agronegócio está produzindo veneno, não comida. E todos os cientistas que tão cuidando da área estão nos alertando, está proliferando os câncer, 80% deles são originários dos venenos que a população está comendo. E esse veneno vai pra onde? É veneno químico, originário do petróleo que é usado sobretudo. Destrói as bactérias do solo, ou vai pra água, ou vai pro seu estômago. Então continue comprando da Bünge, da Cargill, e feliz enterro! Que certamente vai morrer 10 anos antes daqueles que se alimentam com alimentos saudáveis.
Então, o Estado tem que botar um jeito nisso, francamente, isso aqui já virou casa da mãe Joana, né. A Anvisa, (saiu na manchete da Folha e num caderno do Brasil de Fato). A Anvisa fez as pesquisas aqui na Ceagesp, e disse: “tem 20 produtos que não se recomendam para os seres humanos”. Manchete! E continuam vendendo! Como? Se a conclusão fosse: “esses 20 produtos não servem para a alimentação animal”, é capaz que eles teriam tirado do mercado. Porque pode dar febre suína, pode dar não sei o quê. Então continue comendo maça, moranguinho, tomate, tudo isso só veneno! Por isso que num tem mais nem gosto. Batata, só veneno! Soja, só veneno! Para um Programa Popular pra enfrentar a crise é preciso fazermos essas mudanças reais pra preservar a vida das pessoas e pra preservar a natureza, porque se não esses loucos do capitalismo... Não pensem que eles têm alguma responsabilidade.
i) Recuperação da soberania brasileira sobre as empresas estratégicas de energia, minério. Não sei se vocês sabem, a Eletrobrás que pinta aí como estatal, já tem suas ações vendidas na Bolsa de NY. Esse é o maior problema que nós temos com lá Itaipu se acertar com os paraguaios. Porque a Eletrobrás é gestora de Itaipu, e ela não é só uma empresa pública, tem interesses das privadas que alegam os direitos. Bem, o caso da Petrobrás, patético né, vocês sabem: 58% das ações são privadas. E o caso da Vale, que é uma luta histórica.
j) E, por último, na nossa plataforma, nós precisamos fazer um movimento aqui no Brasil, pra pressionar o nosso governo para ter uma outra postura em relação aos organismos internacionais.
Em vez de valorizar FMI, Banco Mundial, G-20, isso aí tem que fechar. Evidentemente que nós temos que criar um outro marco internacional, uma outra governança internacional. E vemos com bons olhos essa iniciativa que os países da Alba estão fazendo, já criaram uma moeda alternativa que é o Sucre. Que é uma sigla, embora homônimo do General Sucre, que foi um lutador anticolonialista. Mas na verdade ela é uma sigla né, o Sistema Unitário de Câmbio, não sei o quê... E nós temos defendido isso nos movimentos sociais, os governos tem que caminhar rapidamente para fugir da área do dólar, porque o dólar é o principal mecanismo de espoliação dos outros países. Desde 1971 quando o Nixon tirou a paridade com o tesouro e com o ouro. Então, todas as guerras deles eles botam a maquininha pra funcionar. E distribui os dólares para o mundo. Então, se é pra ter uma saída razoável diante dessa crise, é aproveitar a crise pra nós construir uma moeda que seja internacional e sem o controle dos EUA. Segundo o professor Chico de Oliveira, isso ainda não aconteceu na história da humanidade, todas as moedas internacionais foram sempre fruto de vitórias militares. Bom, mas ele pode estar errado também e nós conseguirmos implantar, pela primeira vez na história, uma moeda que não seja só fruto de vitória militar.
6. O que fazer com a plataforma popular?
A proposta dos 10 pontos que eu mencionei aqui como sendo o Projeto Popular, não é uma proposta do MST, é uma proposta que nós estamos construindo nessas plenárias onde a última delas lá em março tinha 88 movimentos. Isso expressa um conjunto dessas forças. Claro que um gostaria de dar mais ênfase num ou outro ponto, mas esses 10 pontos procuram recolher o que poderia ser uma plataforma unitária, porque todos de certa forma se sentem representados aqui. Eu acho também que seria exagero pensar que essa plataforma seria a proposta de socialismo XXI. Não é uma plataforma socialista, evidentemente. Mas nós achamos que, com essa plataforma, nós podemos acumular forças. E de novo, alguém perguntou no intervalo, veio-me dizer: “Evidentemente, essa plataforma é inviável por ir lá e apresentar”, né, ela não cai do céu assim, então “ah, vamos sair da crise, basta aplicar essa plataforma”. Então, qual é o sentido dessa plataforma? O sentido dessa plataforma é debater com a sociedade, ou seja, é conscientizar. É fazer um verdadeiro mutirão entre as pessoas e organizações, de dizer: “a crise é grave, se nós não segurar, os capitalistas vão tomar as saídas clássicas deles, que já relatei, mas nós da classe trabalhadora podemos ter outras saídas”. Agora, essas saídas só são viáveis se nós fizermos luta política. Que significa fazer luta política? Significa fazer mobilização de massas, grandes manifestações, grandes lutas de massas que possam, então, acumular força social. Isso que é luta política, é ter força. Quando você não tem força acumulada de gente organizada, não é política, é apenas doutrina. “Eu acredito nisso...” Então, evidentemente que os companheiros que comentaram isso têm toda razão. Isso aqui é apenas uma plataforma de fazer trabalho de conscientização. Agora, sua viabilidade não é se o argumento está bem escrito, sua viabilidade só vai ser dada se houver um processo de mobilização e organização de massas. Bom, é impossível no Brasil? Na atual situação, agora, final de maio de 2009, claro que nós estamos no descenso, mas as massas aprendem muito rápido. E nós podemos chegar a uma situação de que em curto prazo haja um reascenso do movimento de massas. Ninguém pode dizer que vai continuar 5 anos em descenso e que vai ter mais 5 meses. Isso faz parte da psicologia social, da capacidade que nós tivermos de indignar nosso povo.
O lado bom dessa conjuntura é que a burguesia brasileira não tem projeto para o país. Ao contrário da crise de 29, vocês devem ter comentado nas outras sessões. Na crise de 29, a burguesia brasileira se unificou em torno do Getúlio Vargas, e ele teve que construir uma unidade a “manu-militar”: deu um pau nos paulistas, deu um pau nos comunistas, e deu um pau nos fascistas. Aí unificou a burguesia, inclusive subjugou a força parcelas da burguesia industrial paulista ignorante, centralizou eles e a partir de 37 implementou o modelo que durou até 1980. A rigor, esse é o modelo do Getúlio Vargas. Bem, é um projeto da burguesia brasileira, de desenvolvimento do capitalismo nacional subordinado, dependente.
Agora, a vantagem. Que diante da nova crise, que esperamos que seja prolongada mesmo, qual é o projeto da burguesia brasileira? Não tem! E isso é bom pra nós, nos livramos deles, pelo menos. E isso abre espaço pra que a classe trabalhadora construa um projeto, uma plataforma que seja nosso, pra enfrentar a crise. Para a burguesia brasileira, o único projeto dela é ter ainda maior dependência do capital internacional. Não só de dependência, ou seja, de aprofundar nossa subordinação. Exemplo: na nova re-divisão internacional do trabalho e do capital, no projeto do capital, ao Brasil cabe apenas o papel de ser exportador de matéria prima. Eu fico horrorizado com essas viagens aí pra China, em que o governo e empresários se orgulham de vender mais soja, mais minério e agora petróleo cru. Como se fosse uma vantagem, mas isso é um desastre! É o Brasil voltar à colônia, e é isso que os capitalistas internacionais querem. Que o Brasil cumpra apenas o papel de exportador de matéria prima. Esse seria o nosso papel. E a burguesia brasileira aceita. “Tá bom, desde que você dê um pedaço do teu lucro, então tô satisfeito” Mas isso não é projeto de desenvolvimento nacional! Porque nenhum país do mundo se desenvolveu exportando matéria prima.
Quero compartilhar, como ilustração, uma informação que circulou essa semana de um estudioso ligado à Via Campesina sobre a economia dos Estados Unidos e freqüente aqui no Brasil, o agronegócio usar como argumento de justificação que os EUA é o maior exportador mundial. “Tá vendo, os EUA é a maior potência e maior exportador de matéria prima, esse é o nosso caminho!” Santa ignorância, estatisticamente está comprovado: o agronegócio deles, dos EUA, de todo PIB agrícola, 88% é pro mercado interno, eles exportam apenas 12% do que produzem na agricultura. Ou seja, o centro da riqueza produzida na agricultura nos EUA é pro mercado interno, pro povo americano comer mais, eles só exportam 12%. E aqui, no Brasil, é o contrário, só querem exportar, exportar, exportar... como se fosse a solução. E mais do que isso. Há setores da burguesia brasileira que além de aceitar esse papel subalterno, ainda mais aprofundado com a crise, aceitam a reconversão das empresas brasileiras como subimperialistas. Então, vão lá ler de novo a teoria da dependência do Ruy Mauro Marini, ele foi um profeta nisso. Agora está cada vez mais claro, que também nesse marco de aprofundar nossa subordinação, eles vão entregar às empresas brasileiras o papel de subexplorar os mercados e as riquezas dos outros países da América Latina. Esse é o papel que a Eletrobrás está fazendo com Itaipu, papel que a Petrobrás está fazendo na Bolívia, no Equador, que a Odebrecht, a Andrade Gutiérrez fazem com outros países.
O tema do pré-sal. Claro, me passei aqui correndo, porque de certa forma ele está subentendido. Primeiro naquela política dos EUA de se apoderar dos recursos naturais. Então, o pré-sal é nossa principal riqueza agora que ta lá debaixo do oceano. E é por isso a CPI da Petrobrás. É por isso todos esses movimentos que o PMDB está fazendo. Porque eles estão se mexendo? É pra se apoderarem do pré-sal. E é o que as empresas já estão fazendo. Vocês sabem que nós temos já várias empresas transnacionais, como a Shell, até uma portuguesa, e outras empresas que já ganharam os leilões da parte de cima. É só eles furarem mais 7 mil metros que eles chegam no pré-sal. E algumas delas já estão furando. Então as multinacionais já têm até o direito, se nós não alterarmos a legislação, eles vão acessar o pré-sal. E o que os geólogos estão dizendo pra nós é de que no caso do pré-sal é ainda mais grave porque tudo leva a crer que ele é uma imensa lagoa lá embaixo, que vai do Espírito Santo até Santa Catarina. Então quem acessar a lagoa, vai ter acesso a todo petróleo.
Bem, evidentemente que nós temos que incluir em nossa luta a defesa do petróleo como parte dessa luta pra sair da crise, porque justamente os capitalistas internacionais, e seus aliados aqui no Brasil, eles vão fazer de tudo para que eles tenham o direito de se apropriar dessa, que está sendo classificada, como a principal reserva de riqueza natural do planeta. Então você imagina com que ganância eles vão vir pra cá disputar conosco. Vai ser uma verdadeira guerra. Não pensa que vai ser com abaixo-assinado que nós vamos salvar o pré-sal, claro que não. Nós vamos fazer o abaixo-assinado pra provocar o debate. Mas nós só vamos salvar o pré-sal de novo se vier o reacenso de massas, se nós fizermos grandes mobilizações, porque o inimigo vai ser daquele tamanhão.
Então, me desculpem por passar do tempo, essas são as idéias gerais que nós estamos debatendo sobre a crise nos movimentos sociais.
Muito obrigado pela atenção.
[1] Palestra no Curso de Especialização sobre a Crise. Promovido pelo curso jornalismo da PUC-SP/CEPIS/ENFF. João Pedro Stedile –
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A natureza da crise e suas circunstâncias para o Brasil por João Pedro Stedile - Parte I - Vanderley Caixe
Boa noite companheiros e companheiras.
Agradeço a oportunidade de estar aqui com vocês, porque sei que se formou, um coletivo de muitos militantes e dirigentes que atuam em diversas esferas da sociedade brasileira e dos movimentos da classe trabalhadora que estão deveras preocupados em debater a situação de nosso país, ainda mais agora diante desse contexto histórico que é marcado por uma situação de crise. E, portanto, acho que a minha obrigação é compartilhar com vocês – os que não estão nessas esferas – para que tenham uma compreensão de qual é o nível do debate que está acontecendo nos movimentos sociais.
Vou dividir a minha exposição em vários capítulos.
1. Leitura dos movimentos sociais sobre a natureza da crise.
Os economistas em geral fazem muitas avaliações, levantando hipóteses, tentando interpretar a natureza da crise. E na imprensa todos os dias há comentários desse tipo e na literatura especializada também há muitos artigos e ensaios. Eu acho que a polêmica maior que ainda pode ter entre aqueles economistas que eu acho que estão em maior número (entre os economistas neoclássicos) e que procuram fazer uma leitura do capitalismo a partir das necessidades do capital, portanto, ideologicamente, se somam aos interesses da burguesia. E esses economistas – acho que já está meio a meio – mas um grande número deles ainda defendem a idéia de que nós estamos vivendo uma crise cíclica, apenas.
E há um outro grupo de economistas, que nós achamos já é majoritário, que defendem que a crise não é cíclica, mas é sistêmica. Qual é a diferença entre as duas, na nossa leitura, mais militante, digamos assim? É que as crises cíclicas, que fazem parte da lógica de funcionamento do capitalismo industrial, portanto nos últimos duzentos anos, de maneira geral, têm ocorrido a cada 10, 15 anos e são de curta duração (em geral, de 3 a 4 anos) e todas essas crises cíclicas eclodem num setor da produção ou apenas em algum país. Essas seriam as características básicas do que se pode chamar de “crise cíclica”. E já andaram fazendo um levantamento, talvez tendo por base os livros do Giovanni Arrighi, que já teriam acontecido mais de 300 crises cíclicas do capitalismo desde a Revolução Industrial pra cá, somadas todas essas que vão acontecendo em cada pais. E portanto eles usam essa estatística pra dizer: “não precisamos nos afobar, isso já aconteceu tantas vezes que nós vamos sair dessa também!”. Aqui no Brasil, podemos classificar, no período mais recente, como crises cíclicas, as que aconteceram na década de 60 - 64, em que houve uma crise do modelo de industrialização dependente; depois nós tivemos outra crise cíclica na década de 80 - 84, que resultou na derrota da ditadura militar com conseqüência; depois no segundo governo do Fernando Henrique, 1998 a 2001, nós enfrentamos uma crise cíclica. Então essas seriam as três crises mais recentes que a economia brasileira enfrentou.
Bem, e há os outros economistas que dizem que estamos diante de uma crise sistêmica, que nesse caso seria uma crise que afeta todo o sistema capitalista, e, em geral, tem sido internacional, ou seja, ela não afeta somente um país ou um setor da economia, mas afeta os pólos centrais da economia capitalista no mundo. E como ilustração dessa crise sistêmica, são citados como exemplos: a crise que ocorreu no final do século XIX (de 1870 a mais 1896), que pra lembrar os mais jovens (que não estavam lá, evidentemente), uma das contradições daquela primeira grande crise sistêmica foi a eclosão da primeira revolta popular-operária – a Comuna de Paris. Depois nós tivemos a crise de 1929 a 1945, que também todos já conhecem, que teve conseqüências muito importantes no capitalismo, na correlação de forças mundial e só se resolveu com a guerra mundial.
Então, nós dos movimentos sociais estamos dizendo que essa crise que estamos entrando agora provavelmente se trata de uma crise sistêmica, e não apenas cíclica. E se é certa essa hipótese (que ainda é uma hipótese, pois estamos ainda no começo dela e podemos estar errados), então seguramente será uma crise prolongada, de no mínimo 5 anos, como José Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia argumenta. E, em média, nós não nos escaparemos de no mínimo 10 anos. Mesmo que o capitalismo queira se rejuvenescer e ingressar num novo ciclo de acumulação, se a crise for de fato sistêmica, eles não conseguem fazer o reajuste em menos de 10 anos.
E também, vários de nossos intelectuais orgânicos têm nos advertido que, além de ser uma crise sistêmica, ela ainda tem algumas características ainda mais preocupantes se comparada com as outras duas.
Pela primeira vez estamos diante de uma crise que não é só internacional, que antes pegava o pólo do capitalismo (EUA e Europa), mas agora é uma crise mundial, que afeta todos os países do mundo. Mesmo a solidária Cuba, se defendendo, resistindo, tentando construir o socialismo, evidentemente está sendo afetada por essa crise. Mesmo o modelo econômico alternativo que o Chávez tenta construir na Venezuela está sendo afetado pela crise. Então ela tem essa natureza que as outras não tiveram, que vai ser uma crise mundial, já está sendo mundial.
Uma característica que vários pensadores agregam é de que ninguém sabe das conseqüências sociais que essa crise terá, porque quando eclodiram as outras crises prolongadas, a maioria da população mundial vivia no meio rural, e como todos aqui – acredito – dominam essa terminologia, o modo de produção dos camponeses não é capitalista, ou seja, o camponês trabalha com mão de obra familiar e ele tem uma outra lógica de produção; a lógica dele não é o lucro, mas primeiro produzir para a sobrevivência e depois vender o excedente no mercado. Portanto, o próprio Marx já tinha chamado a forma camponesa como pré-capitalista, que é verdade, porque essa forma camponesa de produzir bens agrícolas já vem gestada no feudalismo. Então, os camponeses conseguem se proteger mais das crises capitalistas, porque o jeito de produzir não é tipicamente capitalista. Nas outras duas crises, a maior parte da população vivia no campo, e, portanto, conseguia amaciar os efeitos sociais da crise. Agora, pela primeira vez na história, 51% da humanidade mora na cidade, e se tirarmos a Índia e a China, vai pra 70% da população que mora na cidade. Então ninguém sabe mensurar a gravidade dos problemas sociais que uma crise dessa magnitude pode trazer pra essa população, que estando nas grandes cidades, está completamente à mercê da sorte.
A outra característica que todos nos advertem, que também é nova, é que o capital se internacionalizou, se globalizou. Hoje as 500 maiores corporações é que dominam a economia mundial. As 50 maiores corporações têm um PIB, como empresa, maior que os 100 países menores. A sucursal da Petrobrás na Bolívia tem um PIB equivalente a 15% de toda economia nacional da Bolívia. A Vale do Rio Doce tem um PIB uma vez e meia ao PIB do Pará: quem manda mais no Pará, a Dona Ana Júlia ou o Seu Roger Agnelli? Se o Marx tem razão, marquemos nossas próximas audiências com o Roger Agnelli, presidente da Vale, porque ele tem muito mais poder econômico e influência no estado do Pará que a governadora.
Então, voltando à lógica da política, qual é a contradição que está formada? O capital está sendo gerido por forças das grandes corporações. E quais são as medidas políticas que podem enfrentar esse capital a nível internacional? Só um sistema de governança internacional, pra poder botar ordem nesse capitalismo, nessa lógica do capitalismo que circular em nível internacional. E quais são os organismos de governança internacional que nós temos hoje? Todos eles, como dizemos lá no Rio Grande, “mais sujos que pau de galinheiro”, porque todos eles são responsáveis por essa crise. Alguém respeita o Fundo Monetário Internacional? Alguém respeita o Banco Mundial? Francamente, alguém respeita as Nações Unidas? Tem 300 resoluções da ONU sobre a Palestina, Iraque, etc e ninguém respeita. Então, vai ser a ONU que vai regular o capital? É ilusão. Aliás, agora o presidente da Assembléia Geral da ONU, é um antigo militante da esquerda, o padre Miguel D’Escoto, da Nicarágua, está convocando um seminário pelas Nações Unidas para debater a crise e os governos não aceitam. Ou seja, as Nações Unidas não têm cacife para chamar um seminário com os governos para debater a crise, imagine para regular a crise. Então, qual é a contradição que está posta aí? É que o capital é internacional, mas falta um poder político que o regule. Nas outras crises, esse poder político vinha da vitória militar, da guerra. Como agora eles não podem mais fazer guerra mundial (adiante trataremos disso), há uma ausência de poder político que possa regular o capital. Portanto, essa contradição entre o poder econômico e a ausência de poder político pode levar inclusive que a crise se prolongue, ou que a saída seja apenas pelo lado do poder econômico e não das sociedades que estão envolvidas.
A outra característica que eu queria chamar a atenção é de que, durante o século XX, o pólo de acumulação capitalista, do capitalismo industrial, esteve baseado na indústria automobilística. Tudo era em função do automóvel, o automóvel foi a locomotiva da acumulação de capital. Ao redor deles ao formarem as siderúrgicas, as metalúrgicas e os consumidores. E as cidades funcionando apenas para o automóvel. Eu, cada vez que tenho que caminhar a pé em São Paulo fico puto da cara, e quem mora nesse bairro aqui mais ainda, pois até as calçadas não são feitas para o pedestre, são feitas pro automóvel entrar na garagem. Então, eu vivo dizendo pra provocar os paulistanos: amanhã ou depois as funerárias vão oferecer mais esse serviço – o paulistano terá direito de ser enterrado no seu automóvel, com o seu automóvel, porque a paixão que a sociedade industrial criou em torno do automóvel é impressionante! Virou objetivo da vida social, o que é uma ilusão!
Bem, então voltemos a raciocinar juntos. Nas crises cíclicas, por exemplo na indústria automobilística, cai a produção, a taxa de lucro, mas eles dão um jeito de sair da crise e na etapa seguinte de acumulação – o que é normal – volta a indústria automobilística a produzir mais veículos. E volta o lucro e a taxa de acumulação.
Muito bem, então eu lhes pergunto: que tal sair da atual crise produzindo ainda mais automóveis? Será a saída? Não tem saída! São Paulo vocês estão vendo: São Paulo tem 6 milhões de veículos; os físicos já calcularam: se todos os automóveis saírem para a rua, não cabem. Tem que vir a cegonha junto pra ir um em cima do outro. Não cabem todos os veículos em São Paulo se todos eles forem pra rua! Ou seja, é inviável esse modelo de capitalismo industrial baseado no transporte individual. Assim como é inviável, nós termos um novo “boom” de crescimento baseado na indústria automobilística: e o combustível vamos pegar da onde? “Ah, mas o petróleo está estabilizado!” “Tá bom, não dá mais o petróleo vamos para o agrocombustível!” E quanta área agricultável nós vamos ter que plantar de cana? Se aqui em São Paulo já está insuportável com 4 milhões de hectares pra botar 30% do álcool na gasolina, imagine se houver a necessidade de botar 100%? Não há terra! Até o Fidel já fez esse cálculo, não há terra suficiente, pra produzir a cana necessária no mundo, no planeta! Portanto, isso nos leva pra uma reflexão positiva pra classe trabalhadora: que mesmo que o capitalismo saía da crise num novo ciclo de crescimento, certamente, não poderá ser pelo automóvel, pela indústria automobilística. Eles vão ter que inventar outra coisa. E, portanto, as mudanças que virão no novo ciclo, podem afetar os parâmetros atuais de consumo da sociedade.
Bem, e há outros companheiros que também nos chamam atenção sobre as conseqüências climáticas. Porque esse modelo de industrialização, esse padrão de consumo a todo custo pra acumular dinheiro chegou a seus limites da disponibilidade de recursos naturais. Limites não só agrícolas, limites de minério de ferro, limites de transporte, disso tudo. E essa forma industrial de produção está na base das alterações climáticas do nosso planeta, basta ligar a televisão, todos os dias nós temos uma notícia nova. Pra dar um depoimento da minha terra, o Rio Grande do Sul, nos últimos 10 anos, nós já enfrentamos 5 secas. Mas qual é a novidade? As secas no Rio Grande vêm acontecendo no inverno. Todo aquele clima chuvoso que vocês estão acostumados a ver no Rio Grande não existe mais, nós estamos em seca agora em pleno inverno. Cento e dez municípios não têm água pra beber no interior, no interior! As populações estão apavoradas. E, lembra os cientistas não conseguem provar cientificamente, é evidente que isso tem relação com o monocultivo industrial da agricultura, com a forma de produzir voltada mais para a indústria, de acumulação de capital, do que do bem-estar das populações.
Bem, ainda sobre a natureza da crise, um pitaco. Tem havido muito a polêmica aqui no Brasil, sobretudo defendido pelo governo, de que o Brasil não estaria sofrendo essa crise, porque vai crescer 1%, 2% e tal. Qual é a leitura que nós fazemos? É que, se é verdade que é uma crise mundial, no entanto, como é da própria natureza do desenvolvimento desigual do capitalismo e das formas de acumular, evidentemente que os efeitos da crise serão diferentes de país a país, de acordo com o seu tamanho, com o tipo de produção que tem, etc. E evidentemente que o Brasil tem características que o protegem mais da crise, em relação a outros países que são mais dependentes. Me atrevo inclusive a dizer: a Venezuela está muito mais vulnerável à crise, em função de sua dependência ao petróleo, que a economia brasileira. Mas isso não significa que a população da Venezuela vai sofrer mais que a população brasileira. Porque em geral os economistas só se referem a estatísticas econômicas: se a taxa de lucro é menor ou maior, se cresceu ou não cresceu, mas se esquecem das taxas sociais, de como essa crise ta afetando a população.
Então, me atento ainda aos termos econômicos, a maioria das avaliações dizem que alguns países vão sofrer recessão. O que é a recessão? É quando a produção vai caindo paulatinamente, é sucessiva. Imagino que o Pochmann, que gosta desse tema, tenha tratado. É como se fosse uma escada: você a cada degrau vai descer mais um. Isso é a recessão na economia, no PIB nacional. Outros países vão sofrer depressão. Depressão é como se a economia descesse de elevador então. De um ano pra outro, “boof”, caiu 5 andares. Isso é depressão, a quebradeira. Quais foram os países que já tão em depressão no mundo? A Islândia quebrou, está em depressão, caiu do 10º andar, não sabe o que fazer; há outros países lá na África que tão em depressão, mas não são todos. Recessão, pelo que tudo está indicando, a economia dos EUA e as várias economias da Europa. E há um terceiro tipo de comportamento da crise nos países, que nós poderíamos chamar estagnação. Quando há crescimento menor e pois queda. Então a economia cresce 1%, cai 2% e assim vai. A ondulação. Eu acho que a economia do Brasil vai sofrer esse movimento, não da recessão e nem da depressão. Mas, mesmo assim, a tendência é que ao longo dos próximos 5 a 10 anos, no geral, a economia não vai crescer, ela pode crescer 2% um ano, depois desce 1%, e o crescimento demográfico da população ao longo dos 10 anos vai ser maior, como aconteceu na crise de 80, que foi chamada a década perdida.
Bem, então esses são alguns elementos sobre a natureza da crise, da leitura que nós fazemos.
2. Quais são as saídas clássicas que o capital costuma tomar pra sair da crise.
E isso é muito importante os movimentos da classe trabalhadora entenderem, porque é preciso entender como é os capitalistas vão agir. E esses jeitos do capitalista enfrentar a crise são clássicos, eles fazem isso nas crises cíclicas, fazem isso nas crises sistêmicas. Então, se nós da classe trabalhadora queremos proteger nossos interesses, como classe, nós devemos estar atentos, porque a tendência é os capitalistas repetirem as mesmas fórmulas que eles já experimentaram em outros períodos da história.
Quais são essas saídas clássicas do capital?
Primeiro, eles precisam, durante a crise, destruir o capital acumulado. Porque a natureza fundamental (espero que isso os outros professores tenham explicado) é que a crise é gerada também por uma super-acumulação, que faz com que a classe trabalhadora não tenha dinheiro (que a renda foi lá concentrada com eles) pra continuar comprando os bens que ela mesma produz. Então o capital pra sair da crise e entrar num novo ciclo de acumulação, ele precisa destruir esse capital sobrante. E ele destrói de mil e umas formas. Nos noticiários atuais, vocês devem ter acompanhado, já foram destruídos nos EUA 4 trilhões de dólares. Alguém perdeu. Muito mais gente perdeu porque foram destruídos 4 trilhões que estão na forma de dinheiro, na forma de papel. Aí alguém de vocês pode dizer: “Mas foi nos Estados Unidos”. Tá bem vamos pro Brasil aqui. O Fundo de Previdência dos Bancários, espero que não tenha nenhum bancário aí o Fundo de Previdência dos Bancários que aplica o seu dinheiro em ações perdeu nessa crise, em 6 meses, 28 bilhões de reais. Perdeu! E daqui a 10-15 anos quando parte da categoria precisar desses fundos pra complementar a aposentadoria, vão se dar conta da crise lá de 2009.
Segunda forma do capital agir é que eles sempre, em época de crise, aumentam a exploração dos trabalhadores. É lógico! Se a taxa de lucro na crise cai, pra eles se recomporem e voltarem para um novo ciclo, eles precisam recompor a taxa de lucro; pra aumentar a taxa de lucro, eles têm que aumentar a exploração sobre os trabalhadores. Como fazem isso? Baixando o salário médio, aumentando as horas extras, aumentando a produtividade do trabalho, enfim, eles têm 300 mecanismos pra arrochar a classe. E com isso eles recompõem a taxa média de lucro e com essa acumulação então vão pra frente.
Terceiro mecanismo deles. Nesses períodos, aumenta a transferência de capital da periferia do sistema para o centro. Esses dias eu li nos jornais por aí de que no período anterior os capitalistas tinham aplicado na periferia 1,5 trilhões de dólares, como capital financeiro aplicado em ações, em especulação geral. E que com a crise, eles tiveram que refluir, esse capital todo voltou, e que hoje nós teríamos aplicado na periferia apenas 180 bilhões.
Quarto mecanismo deles, a guerra. Em todas as crises eles apelam pra guerra, porque a guerra, como Marx já tinha explicado, é o mecanismo mais rápido de você destruir o capital. Destrói o capital quando você joga uma bomba num colégio como esse (que Deus me livre e a Madre Cristina nos proteja). Mas ao destruir um prédio como este, tem que depois reconstruir. Todo esse capital aqui vai pra fumaça. Quando tu solta a bomba aquela bomba custou trabalho, tem dias de trabalho pra construir a bomba; quando ela explode, explodiu os dias de trabalho. E quando ela mata pessoas, ela não mata qualquer pessoa, ela mata seres humanos que iriam produzir riqueza. Então, é também na linguagem deles, a forma de destruir capital-recursos humanos, capital-força de trabalho. Então a guerra sempre foi um mecanismo que eles usam. Agora nós estamos salvos, em parte, porque é impossível ter guerra mundial, por causa das armas atômicas. Mas isso não nos livra da saída: não é por acaso que eles têm aumentado o estímulo desses conflitos bélico-regionais. Seja na África, lá no Sudão. Esses dias li na internet que inclusive essas quadrilhas de piratas da Somália não têm nada a ver de beduínos doidos que resolvem atacar um transatlântico, por trás deles tem toda uma indústria bélica, que fornece a eles, de míssil, e outras coisas. Assim foi o ataque a Gaza, que, claro, se somou aos interesses da direita israelense que queria ganhar as eleições e dar uma lição aos palestinos, mas se somou o componente econômico. Tanto é que imediatamente depois das eleições a Hillary Clinton chamou uma reunião no Cairo, onde se reuniram as empresas capitalistas e disse: “tá bom, desculpa viu palestinos, nós vamos reconstruir as casas de vocês. Tá aqui 4 bilhões de dólares, mas as empresas que vão construir são nossas. Nenhuma empresa palestina vai reconstruir casa...”. Então Gaza pagou o preço pela crise. E todo esse tensionamento que eles tão fazendo agora com o Paquistão, o Irã e com a Coréia do Norte, é claro que eles não vão fazer uma guerra com o Irã, mas isso estimula a corrida armamentista. Isso estimula as compras de armas. Um companheiro nosso, da esquerda israelense, tava lá no Fórum Social Mundial em Belém e deu um depoimento que deixou todos nós emocionados, porque ele falou que lá em Israel, o exército de Israel bombardeava uma comunidade, um prédio palestino, filmava tudo, registrava os mortos e a destruição. E 24 horas depois tava na página da internet do exército como propaganda: “Olha o nosso míssil aqui. “Ele fez essa trajetória de 50 km em tantos segundos”, “não permitiu defesa”, “ele destruiu um prédio de 10 andares, matou 10 pessoas, se tiver interesse em comprá-lo, tá aqui o endereço eletrônico”. Ou seja, eles usaram inclusive a guerra de Gaza – não foi guerra, foi massacre de Gaza – como propaganda das armas, que evidentemente não são empresas israelenses, é tudo conjugado com o capital internacional. Então, o mecanismo da guerra está presente sim, embora de uma maneira mais dissimulada.
Quinto mecanismo que eles usam é o Estado. O Estado é usado agora, mais do que tudo, como o grande agente que pode, de uma maneira compulsória, recolher a mais-valia, ou a poupança individualizada, pequena, de cada um dos habitantes, amontoa num canto só e repassam pro capital. E isso eles têm feito aqui no Brasil, e em vários países do mundo, com a chamada política do superávit primário. O que é o superávit primário, que nem o Willian Bonner sabe explicar lá no jornal nacional? Porque eles não querem explicar para a população. O superávit primário, o governo recolhe, através dos impostos, na Receita Federal, o dinheiro de todo mundo, amontoa lá no Tesouro e na hora de gastar, ele separa 30% de toda receita de impostos no Brasil, que são transferidos pra bancos privados, na forma de pagamento de juros de títulos da dívida pública. Isso é o papel do Estado.
Segundo exemplo. Nisso o governo Lula tem sido didático em nos ajudar a compreender o papel do Estado. Que quando nós estávamos discutindo lá em Belém a saída da crise, o Meirelles tava em Davos acalmando os bancos internacionais dizendo: “ó, já assinei uma portaria autorizando que 40 bilhões das reservas em dólar que o Brasil tem depositadas em Nova Iorque, as empresas que são devedoras com vocês, podem acessar esses recursos públicos e pagar vocês”. Todo mundo bateu palma: “isso que é presidente de Banco Central, nós queria ter um assim aqui no Estados Unidos”. Então isso é um mecanismo concreto, 40 bilhões de dólares, façam a conta aí, 40 bilhões em nossa reserva, uma portaria do Banco Central passa pras empresas.
Depois da reunião do G-20, outro exemplo ilustrativo: quando, emocionado pela frase: “esse é o cara”, o governo autorizou repassar pro FMI, 10 bilhões de dólares. E a imprensa brasileira noticiou como se fosse um empréstimo, “olha como nós tamo ban-ban-ban, estamos emprestando...” Ilusão! Aquilo não foi empréstimo, foi complemento de cotas, portanto nunca mais vai voltar. A única coisa que o Brasil teve de vantagem naquilo é que os seus votos no FMI (que o FMI funciona como um banco privado que os governos são sócios, então os votos é pela quantia de capital) passaram de 05 pra 06% com esse aporte a mais de capital. Grande mudança na correlação de forças!... Mas agora some 10 bilhões de dólares, se fossem aplicados aqui no Brasil, o quanto representaria de casa, de Reforma Agrária, se quiserem. Então esse é o papel do Estado: recolher dinheiro de todo mundo, que a gente nem percebe, porque é via impostos, via outros mecanismos, e canaliza isso pro capital.
Sexto mecanismo do capitalismo sair da crise é mudar o padrão tecnológico de produção. É o momento que eles, mesmo tendo lucro, usam a crise pra botar na rua o operário e reformular o processo produtivo de modo que aumente a produtividade do trabalho. Olhe a reunião do Conselho de Administração da Vale. A Vale, como a maioria das empresas, reúne seu Conselho de Administração uma vez por mês. A reunião do Conselho de Administração da Vale de fevereiro, final de janeiro, que coincidiu também com o Fórum, por isso eu guardei bem. A reunião teve 2 pontos de pauta. 1º ponto de pauta: prezados colegas capitalistas, acionistas da Vale, nós estamos com um problemão aqui, o lucro líquido do último trimestre foi de 2 bilhões e meio de reais. Então, nós temos que decidir, vamos reinvestir, ou vamos dividir entre os acionistas? Diante da crise, é um problemão né! Como nós vamos dividir 2 bilhões e meio de lucro do TRIMESTRE da Vale? Ta bom, decidiram (nem sei qual foi a decisão), que isso eles não dizem... Segundo ponto de pauta: a demissão de 2.500 trabalhadores. Até o número era meio parecido, só mudava o zero, né... Bem, então, que isso revela? As empresas, mesmo não estando em crise contábil aproveitam o período da crise pra fazer seus reajustes na matriz tecnológica. Que isso quer dizer? No jeito de fazer mais rápido os produtos com menos trabalhadores. Todos – e fiquem atentos – todos os dias têm exemplos desse nos cadernos de economia, em especial no Estadão e no jornal Valor Econômico. São os únicos dois jornais que eu leio pra saber o que a direita pensa, porque o resto são fofoqueiros...
Por último, entre os métodos do capital pra sair da crise, é a apropriação privada dos recursos naturais. O que está acontecendo e nós no Brasil estamos sendo vítimas? A Rosa Luxemburgo, num brilhante trabalho sobre a acumulação originária, ou primitiva, dependendo da tradução, ela tinha explicado esse mecanismo. Os bens da natureza quando tão lá, parados, seja o minério de ferro, o petróleo, as árvores, a água, que depois vai virar energia elétrica, lá na natureza, eles não tem valor. Acredito que aqui todo mundo domina essa terminologia. Os bens só tem valor, do ponto de vista econômico, quando é fruto do trabalho, ou seja, o valor é medido pelos dias de trabalho que você bota neles. Então ta lá a árvore, fruto da natureza, quieta. Qual o valor da árvore quieta? Nada. Não tem valor nenhum, ela é fruto da natureza, não do trabalho. Qual é o valor de uma mina de minério, lá embaixo? Nada. Não tem valor nenhum, mas quando você se apropriar dela, botar um pouquinho de trabalho humano e a transforma numa mercadoria, adquirem um alto preço e se transforma as mercadorias que dão a mais alta taxa de lucro. Quanto mais o capitalismo se desenvolve, maior é a diferença entre a taxa de lucro da apropriação daquele bem da natureza (que ainda não tem valor) com poucos dias de trabalho, e preço pago pela sociedade. Porque em geral, aqueles bens da natureza são finitos e limitados. Minério não é pra vida inteira. Então, só pra vocês terem uma idéia, que nó viemos agora de nossa escola sobre o seminário de monocultivo de eucalipto. Os companheiros que atuam por lá, os operários da Aracruz nos explicaram. Sabe qual é o custo de produção pra plantar eucalipto e transformar em pasta de celulose (ainda não é o papel)? O custo de produção é 70 dólares a tonelada. Sabe quanto ela vendia a tonelada da pasta de celulose antes da crise? A 850 dólares. Isso dava uma taxa de lucro de 700%. Segundo nosso amigo, saudoso Celso Furtado, nem na escravidão. Na época da escravidão, a taxa média de lucro da exportação de açúcar era ao redor de 400%. A Aracruz, em pleno século XXI, está tendo um lucro de 700%! Aí veio a crise, eles tão vendendo a 550 dólares. Coitadinhos! E o custo de produção continua 70 dólares. Por quê? Por causa dessa apropriação de recurso da natureza que deveria ser pra todos. As árvores são de todos, o minério de ferro são de todos, o petróleo que está aí no pré-sal é de todos nós. Então deveria ser distribuído socialmente. Então, o que acontece na crise? As empresas procuram no período de crise se apropriar juridicamente desses bens. Elas não tem capital ainda pra explorar, porque tão em crise, não têm capital sobrante pra fazer isso, mas elas procuram juridicamente, digamos assim, tornar aquilo propriedade privada, dos bens parados na natureza. Para se preparar pro próximo ciclo. Aí quando vier um novo ciclo de crescimento econômico, de acumulação, vai ter capital, e aí eles vão explorar, e aí eles vão ter essas altas taxas de lucro que, como dei o exemplo da celulose, vocês podem ter uma idéia. Então, o que nós estamos assistindo no Brasil? É uma verdadeira ofensiva, da qual os deputados são meramente marionetes do capital internacional, porque tão tentando mudar a legislação ambiental, mudar a legislação da Amazônia, faz parte desse movimento do capital de se apropriar.
A semente transgênica é outro mecanismo jurídico de privatizar a propriedade da semente que, ao longo da humanidade, foi um patrimônio da humanidade. Alguém pode dizer: “Eu sou dono da semente de milho”? Ninguém! Milho é de todo mundo. Qualquer um pode pegar o milho e plantar. Pois bem, mas pela lei de patentes, se você fizer uma variedade de milho transgênico, você fizer uma mutação genética, você vai lá, registra, e vai aparecer lá: esse milho é da Bayer, esse milho é propriedade privada da Monsanto, e daí pra diante, todo mundo que se atrever a plantar aquele milho, tem que pagar royalties pra Monsanto, pra Bayer, pra Basf. Então, semente transgênica, não tem nada de aumento de produtividade, num tem nada de ciência, é a maior picaretagem que tem, maior enganação. No fundo, o que tem por trás da semente transgênica é essa apropriação, essa propriedade privada, que a lei de patentes garante . Se não houvesse lei de patentes, ninguém se preocupava, em ficar disseminando semente transgênica. Aliás, foi a primeira mudança que o Fernando Henrique fez no seu governo. Primeira Lei que ele mudou no Brasil foi a lei de patentes, em maio de 1995. E a lei de patentes circulou no Congresso em inglês, distribuída pela embaixada norte-americana. Se alguém tem alguma dúvida a que interesses representava, porque o senador, lá da Paraíba, recebeu da embaixada e não se deu ao trabalho de traduzir qual era a lei que a embaixada americana queria. E evidentemente que o Fernando Henrique aprovou depois com uma canetada.
Vou mais rápido agora que ainda não entrei no tema. Isso tudo é introdução. Pra vocês se lembrarem dos outros professores.
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[1] Palestra no Curso de Especialização sobre a Crise. Promovido pelo curso jornalismo da PUC-SP/CEPIS/ENFF. João Pedro Stedile – 27 de maio de 2009
Agradeço a oportunidade de estar aqui com vocês, porque sei que se formou, um coletivo de muitos militantes e dirigentes que atuam em diversas esferas da sociedade brasileira e dos movimentos da classe trabalhadora que estão deveras preocupados em debater a situação de nosso país, ainda mais agora diante desse contexto histórico que é marcado por uma situação de crise. E, portanto, acho que a minha obrigação é compartilhar com vocês – os que não estão nessas esferas – para que tenham uma compreensão de qual é o nível do debate que está acontecendo nos movimentos sociais.
Vou dividir a minha exposição em vários capítulos.
1. Leitura dos movimentos sociais sobre a natureza da crise.
Os economistas em geral fazem muitas avaliações, levantando hipóteses, tentando interpretar a natureza da crise. E na imprensa todos os dias há comentários desse tipo e na literatura especializada também há muitos artigos e ensaios. Eu acho que a polêmica maior que ainda pode ter entre aqueles economistas que eu acho que estão em maior número (entre os economistas neoclássicos) e que procuram fazer uma leitura do capitalismo a partir das necessidades do capital, portanto, ideologicamente, se somam aos interesses da burguesia. E esses economistas – acho que já está meio a meio – mas um grande número deles ainda defendem a idéia de que nós estamos vivendo uma crise cíclica, apenas.
E há um outro grupo de economistas, que nós achamos já é majoritário, que defendem que a crise não é cíclica, mas é sistêmica. Qual é a diferença entre as duas, na nossa leitura, mais militante, digamos assim? É que as crises cíclicas, que fazem parte da lógica de funcionamento do capitalismo industrial, portanto nos últimos duzentos anos, de maneira geral, têm ocorrido a cada 10, 15 anos e são de curta duração (em geral, de 3 a 4 anos) e todas essas crises cíclicas eclodem num setor da produção ou apenas em algum país. Essas seriam as características básicas do que se pode chamar de “crise cíclica”. E já andaram fazendo um levantamento, talvez tendo por base os livros do Giovanni Arrighi, que já teriam acontecido mais de 300 crises cíclicas do capitalismo desde a Revolução Industrial pra cá, somadas todas essas que vão acontecendo em cada pais. E portanto eles usam essa estatística pra dizer: “não precisamos nos afobar, isso já aconteceu tantas vezes que nós vamos sair dessa também!”. Aqui no Brasil, podemos classificar, no período mais recente, como crises cíclicas, as que aconteceram na década de 60 - 64, em que houve uma crise do modelo de industrialização dependente; depois nós tivemos outra crise cíclica na década de 80 - 84, que resultou na derrota da ditadura militar com conseqüência; depois no segundo governo do Fernando Henrique, 1998 a 2001, nós enfrentamos uma crise cíclica. Então essas seriam as três crises mais recentes que a economia brasileira enfrentou.
Bem, e há os outros economistas que dizem que estamos diante de uma crise sistêmica, que nesse caso seria uma crise que afeta todo o sistema capitalista, e, em geral, tem sido internacional, ou seja, ela não afeta somente um país ou um setor da economia, mas afeta os pólos centrais da economia capitalista no mundo. E como ilustração dessa crise sistêmica, são citados como exemplos: a crise que ocorreu no final do século XIX (de 1870 a mais 1896), que pra lembrar os mais jovens (que não estavam lá, evidentemente), uma das contradições daquela primeira grande crise sistêmica foi a eclosão da primeira revolta popular-operária – a Comuna de Paris. Depois nós tivemos a crise de 1929 a 1945, que também todos já conhecem, que teve conseqüências muito importantes no capitalismo, na correlação de forças mundial e só se resolveu com a guerra mundial.
Então, nós dos movimentos sociais estamos dizendo que essa crise que estamos entrando agora provavelmente se trata de uma crise sistêmica, e não apenas cíclica. E se é certa essa hipótese (que ainda é uma hipótese, pois estamos ainda no começo dela e podemos estar errados), então seguramente será uma crise prolongada, de no mínimo 5 anos, como José Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia argumenta. E, em média, nós não nos escaparemos de no mínimo 10 anos. Mesmo que o capitalismo queira se rejuvenescer e ingressar num novo ciclo de acumulação, se a crise for de fato sistêmica, eles não conseguem fazer o reajuste em menos de 10 anos.
E também, vários de nossos intelectuais orgânicos têm nos advertido que, além de ser uma crise sistêmica, ela ainda tem algumas características ainda mais preocupantes se comparada com as outras duas.
Pela primeira vez estamos diante de uma crise que não é só internacional, que antes pegava o pólo do capitalismo (EUA e Europa), mas agora é uma crise mundial, que afeta todos os países do mundo. Mesmo a solidária Cuba, se defendendo, resistindo, tentando construir o socialismo, evidentemente está sendo afetada por essa crise. Mesmo o modelo econômico alternativo que o Chávez tenta construir na Venezuela está sendo afetado pela crise. Então ela tem essa natureza que as outras não tiveram, que vai ser uma crise mundial, já está sendo mundial.
Uma característica que vários pensadores agregam é de que ninguém sabe das conseqüências sociais que essa crise terá, porque quando eclodiram as outras crises prolongadas, a maioria da população mundial vivia no meio rural, e como todos aqui – acredito – dominam essa terminologia, o modo de produção dos camponeses não é capitalista, ou seja, o camponês trabalha com mão de obra familiar e ele tem uma outra lógica de produção; a lógica dele não é o lucro, mas primeiro produzir para a sobrevivência e depois vender o excedente no mercado. Portanto, o próprio Marx já tinha chamado a forma camponesa como pré-capitalista, que é verdade, porque essa forma camponesa de produzir bens agrícolas já vem gestada no feudalismo. Então, os camponeses conseguem se proteger mais das crises capitalistas, porque o jeito de produzir não é tipicamente capitalista. Nas outras duas crises, a maior parte da população vivia no campo, e, portanto, conseguia amaciar os efeitos sociais da crise. Agora, pela primeira vez na história, 51% da humanidade mora na cidade, e se tirarmos a Índia e a China, vai pra 70% da população que mora na cidade. Então ninguém sabe mensurar a gravidade dos problemas sociais que uma crise dessa magnitude pode trazer pra essa população, que estando nas grandes cidades, está completamente à mercê da sorte.
A outra característica que todos nos advertem, que também é nova, é que o capital se internacionalizou, se globalizou. Hoje as 500 maiores corporações é que dominam a economia mundial. As 50 maiores corporações têm um PIB, como empresa, maior que os 100 países menores. A sucursal da Petrobrás na Bolívia tem um PIB equivalente a 15% de toda economia nacional da Bolívia. A Vale do Rio Doce tem um PIB uma vez e meia ao PIB do Pará: quem manda mais no Pará, a Dona Ana Júlia ou o Seu Roger Agnelli? Se o Marx tem razão, marquemos nossas próximas audiências com o Roger Agnelli, presidente da Vale, porque ele tem muito mais poder econômico e influência no estado do Pará que a governadora.
Então, voltando à lógica da política, qual é a contradição que está formada? O capital está sendo gerido por forças das grandes corporações. E quais são as medidas políticas que podem enfrentar esse capital a nível internacional? Só um sistema de governança internacional, pra poder botar ordem nesse capitalismo, nessa lógica do capitalismo que circular em nível internacional. E quais são os organismos de governança internacional que nós temos hoje? Todos eles, como dizemos lá no Rio Grande, “mais sujos que pau de galinheiro”, porque todos eles são responsáveis por essa crise. Alguém respeita o Fundo Monetário Internacional? Alguém respeita o Banco Mundial? Francamente, alguém respeita as Nações Unidas? Tem 300 resoluções da ONU sobre a Palestina, Iraque, etc e ninguém respeita. Então, vai ser a ONU que vai regular o capital? É ilusão. Aliás, agora o presidente da Assembléia Geral da ONU, é um antigo militante da esquerda, o padre Miguel D’Escoto, da Nicarágua, está convocando um seminário pelas Nações Unidas para debater a crise e os governos não aceitam. Ou seja, as Nações Unidas não têm cacife para chamar um seminário com os governos para debater a crise, imagine para regular a crise. Então, qual é a contradição que está posta aí? É que o capital é internacional, mas falta um poder político que o regule. Nas outras crises, esse poder político vinha da vitória militar, da guerra. Como agora eles não podem mais fazer guerra mundial (adiante trataremos disso), há uma ausência de poder político que possa regular o capital. Portanto, essa contradição entre o poder econômico e a ausência de poder político pode levar inclusive que a crise se prolongue, ou que a saída seja apenas pelo lado do poder econômico e não das sociedades que estão envolvidas.
A outra característica que eu queria chamar a atenção é de que, durante o século XX, o pólo de acumulação capitalista, do capitalismo industrial, esteve baseado na indústria automobilística. Tudo era em função do automóvel, o automóvel foi a locomotiva da acumulação de capital. Ao redor deles ao formarem as siderúrgicas, as metalúrgicas e os consumidores. E as cidades funcionando apenas para o automóvel. Eu, cada vez que tenho que caminhar a pé em São Paulo fico puto da cara, e quem mora nesse bairro aqui mais ainda, pois até as calçadas não são feitas para o pedestre, são feitas pro automóvel entrar na garagem. Então, eu vivo dizendo pra provocar os paulistanos: amanhã ou depois as funerárias vão oferecer mais esse serviço – o paulistano terá direito de ser enterrado no seu automóvel, com o seu automóvel, porque a paixão que a sociedade industrial criou em torno do automóvel é impressionante! Virou objetivo da vida social, o que é uma ilusão!
Bem, então voltemos a raciocinar juntos. Nas crises cíclicas, por exemplo na indústria automobilística, cai a produção, a taxa de lucro, mas eles dão um jeito de sair da crise e na etapa seguinte de acumulação – o que é normal – volta a indústria automobilística a produzir mais veículos. E volta o lucro e a taxa de acumulação.
Muito bem, então eu lhes pergunto: que tal sair da atual crise produzindo ainda mais automóveis? Será a saída? Não tem saída! São Paulo vocês estão vendo: São Paulo tem 6 milhões de veículos; os físicos já calcularam: se todos os automóveis saírem para a rua, não cabem. Tem que vir a cegonha junto pra ir um em cima do outro. Não cabem todos os veículos em São Paulo se todos eles forem pra rua! Ou seja, é inviável esse modelo de capitalismo industrial baseado no transporte individual. Assim como é inviável, nós termos um novo “boom” de crescimento baseado na indústria automobilística: e o combustível vamos pegar da onde? “Ah, mas o petróleo está estabilizado!” “Tá bom, não dá mais o petróleo vamos para o agrocombustível!” E quanta área agricultável nós vamos ter que plantar de cana? Se aqui em São Paulo já está insuportável com 4 milhões de hectares pra botar 30% do álcool na gasolina, imagine se houver a necessidade de botar 100%? Não há terra! Até o Fidel já fez esse cálculo, não há terra suficiente, pra produzir a cana necessária no mundo, no planeta! Portanto, isso nos leva pra uma reflexão positiva pra classe trabalhadora: que mesmo que o capitalismo saía da crise num novo ciclo de crescimento, certamente, não poderá ser pelo automóvel, pela indústria automobilística. Eles vão ter que inventar outra coisa. E, portanto, as mudanças que virão no novo ciclo, podem afetar os parâmetros atuais de consumo da sociedade.
Bem, e há outros companheiros que também nos chamam atenção sobre as conseqüências climáticas. Porque esse modelo de industrialização, esse padrão de consumo a todo custo pra acumular dinheiro chegou a seus limites da disponibilidade de recursos naturais. Limites não só agrícolas, limites de minério de ferro, limites de transporte, disso tudo. E essa forma industrial de produção está na base das alterações climáticas do nosso planeta, basta ligar a televisão, todos os dias nós temos uma notícia nova. Pra dar um depoimento da minha terra, o Rio Grande do Sul, nos últimos 10 anos, nós já enfrentamos 5 secas. Mas qual é a novidade? As secas no Rio Grande vêm acontecendo no inverno. Todo aquele clima chuvoso que vocês estão acostumados a ver no Rio Grande não existe mais, nós estamos em seca agora em pleno inverno. Cento e dez municípios não têm água pra beber no interior, no interior! As populações estão apavoradas. E, lembra os cientistas não conseguem provar cientificamente, é evidente que isso tem relação com o monocultivo industrial da agricultura, com a forma de produzir voltada mais para a indústria, de acumulação de capital, do que do bem-estar das populações.
Bem, ainda sobre a natureza da crise, um pitaco. Tem havido muito a polêmica aqui no Brasil, sobretudo defendido pelo governo, de que o Brasil não estaria sofrendo essa crise, porque vai crescer 1%, 2% e tal. Qual é a leitura que nós fazemos? É que, se é verdade que é uma crise mundial, no entanto, como é da própria natureza do desenvolvimento desigual do capitalismo e das formas de acumular, evidentemente que os efeitos da crise serão diferentes de país a país, de acordo com o seu tamanho, com o tipo de produção que tem, etc. E evidentemente que o Brasil tem características que o protegem mais da crise, em relação a outros países que são mais dependentes. Me atrevo inclusive a dizer: a Venezuela está muito mais vulnerável à crise, em função de sua dependência ao petróleo, que a economia brasileira. Mas isso não significa que a população da Venezuela vai sofrer mais que a população brasileira. Porque em geral os economistas só se referem a estatísticas econômicas: se a taxa de lucro é menor ou maior, se cresceu ou não cresceu, mas se esquecem das taxas sociais, de como essa crise ta afetando a população.
Então, me atento ainda aos termos econômicos, a maioria das avaliações dizem que alguns países vão sofrer recessão. O que é a recessão? É quando a produção vai caindo paulatinamente, é sucessiva. Imagino que o Pochmann, que gosta desse tema, tenha tratado. É como se fosse uma escada: você a cada degrau vai descer mais um. Isso é a recessão na economia, no PIB nacional. Outros países vão sofrer depressão. Depressão é como se a economia descesse de elevador então. De um ano pra outro, “boof”, caiu 5 andares. Isso é depressão, a quebradeira. Quais foram os países que já tão em depressão no mundo? A Islândia quebrou, está em depressão, caiu do 10º andar, não sabe o que fazer; há outros países lá na África que tão em depressão, mas não são todos. Recessão, pelo que tudo está indicando, a economia dos EUA e as várias economias da Europa. E há um terceiro tipo de comportamento da crise nos países, que nós poderíamos chamar estagnação. Quando há crescimento menor e pois queda. Então a economia cresce 1%, cai 2% e assim vai. A ondulação. Eu acho que a economia do Brasil vai sofrer esse movimento, não da recessão e nem da depressão. Mas, mesmo assim, a tendência é que ao longo dos próximos 5 a 10 anos, no geral, a economia não vai crescer, ela pode crescer 2% um ano, depois desce 1%, e o crescimento demográfico da população ao longo dos 10 anos vai ser maior, como aconteceu na crise de 80, que foi chamada a década perdida.
Bem, então esses são alguns elementos sobre a natureza da crise, da leitura que nós fazemos.
2. Quais são as saídas clássicas que o capital costuma tomar pra sair da crise.
E isso é muito importante os movimentos da classe trabalhadora entenderem, porque é preciso entender como é os capitalistas vão agir. E esses jeitos do capitalista enfrentar a crise são clássicos, eles fazem isso nas crises cíclicas, fazem isso nas crises sistêmicas. Então, se nós da classe trabalhadora queremos proteger nossos interesses, como classe, nós devemos estar atentos, porque a tendência é os capitalistas repetirem as mesmas fórmulas que eles já experimentaram em outros períodos da história.
Quais são essas saídas clássicas do capital?
Primeiro, eles precisam, durante a crise, destruir o capital acumulado. Porque a natureza fundamental (espero que isso os outros professores tenham explicado) é que a crise é gerada também por uma super-acumulação, que faz com que a classe trabalhadora não tenha dinheiro (que a renda foi lá concentrada com eles) pra continuar comprando os bens que ela mesma produz. Então o capital pra sair da crise e entrar num novo ciclo de acumulação, ele precisa destruir esse capital sobrante. E ele destrói de mil e umas formas. Nos noticiários atuais, vocês devem ter acompanhado, já foram destruídos nos EUA 4 trilhões de dólares. Alguém perdeu. Muito mais gente perdeu porque foram destruídos 4 trilhões que estão na forma de dinheiro, na forma de papel. Aí alguém de vocês pode dizer: “Mas foi nos Estados Unidos”. Tá bem vamos pro Brasil aqui. O Fundo de Previdência dos Bancários, espero que não tenha nenhum bancário aí o Fundo de Previdência dos Bancários que aplica o seu dinheiro em ações perdeu nessa crise, em 6 meses, 28 bilhões de reais. Perdeu! E daqui a 10-15 anos quando parte da categoria precisar desses fundos pra complementar a aposentadoria, vão se dar conta da crise lá de 2009.
Segunda forma do capital agir é que eles sempre, em época de crise, aumentam a exploração dos trabalhadores. É lógico! Se a taxa de lucro na crise cai, pra eles se recomporem e voltarem para um novo ciclo, eles precisam recompor a taxa de lucro; pra aumentar a taxa de lucro, eles têm que aumentar a exploração sobre os trabalhadores. Como fazem isso? Baixando o salário médio, aumentando as horas extras, aumentando a produtividade do trabalho, enfim, eles têm 300 mecanismos pra arrochar a classe. E com isso eles recompõem a taxa média de lucro e com essa acumulação então vão pra frente.
Terceiro mecanismo deles. Nesses períodos, aumenta a transferência de capital da periferia do sistema para o centro. Esses dias eu li nos jornais por aí de que no período anterior os capitalistas tinham aplicado na periferia 1,5 trilhões de dólares, como capital financeiro aplicado em ações, em especulação geral. E que com a crise, eles tiveram que refluir, esse capital todo voltou, e que hoje nós teríamos aplicado na periferia apenas 180 bilhões.
Quarto mecanismo deles, a guerra. Em todas as crises eles apelam pra guerra, porque a guerra, como Marx já tinha explicado, é o mecanismo mais rápido de você destruir o capital. Destrói o capital quando você joga uma bomba num colégio como esse (que Deus me livre e a Madre Cristina nos proteja). Mas ao destruir um prédio como este, tem que depois reconstruir. Todo esse capital aqui vai pra fumaça. Quando tu solta a bomba aquela bomba custou trabalho, tem dias de trabalho pra construir a bomba; quando ela explode, explodiu os dias de trabalho. E quando ela mata pessoas, ela não mata qualquer pessoa, ela mata seres humanos que iriam produzir riqueza. Então, é também na linguagem deles, a forma de destruir capital-recursos humanos, capital-força de trabalho. Então a guerra sempre foi um mecanismo que eles usam. Agora nós estamos salvos, em parte, porque é impossível ter guerra mundial, por causa das armas atômicas. Mas isso não nos livra da saída: não é por acaso que eles têm aumentado o estímulo desses conflitos bélico-regionais. Seja na África, lá no Sudão. Esses dias li na internet que inclusive essas quadrilhas de piratas da Somália não têm nada a ver de beduínos doidos que resolvem atacar um transatlântico, por trás deles tem toda uma indústria bélica, que fornece a eles, de míssil, e outras coisas. Assim foi o ataque a Gaza, que, claro, se somou aos interesses da direita israelense que queria ganhar as eleições e dar uma lição aos palestinos, mas se somou o componente econômico. Tanto é que imediatamente depois das eleições a Hillary Clinton chamou uma reunião no Cairo, onde se reuniram as empresas capitalistas e disse: “tá bom, desculpa viu palestinos, nós vamos reconstruir as casas de vocês. Tá aqui 4 bilhões de dólares, mas as empresas que vão construir são nossas. Nenhuma empresa palestina vai reconstruir casa...”. Então Gaza pagou o preço pela crise. E todo esse tensionamento que eles tão fazendo agora com o Paquistão, o Irã e com a Coréia do Norte, é claro que eles não vão fazer uma guerra com o Irã, mas isso estimula a corrida armamentista. Isso estimula as compras de armas. Um companheiro nosso, da esquerda israelense, tava lá no Fórum Social Mundial em Belém e deu um depoimento que deixou todos nós emocionados, porque ele falou que lá em Israel, o exército de Israel bombardeava uma comunidade, um prédio palestino, filmava tudo, registrava os mortos e a destruição. E 24 horas depois tava na página da internet do exército como propaganda: “Olha o nosso míssil aqui. “Ele fez essa trajetória de 50 km em tantos segundos”, “não permitiu defesa”, “ele destruiu um prédio de 10 andares, matou 10 pessoas, se tiver interesse em comprá-lo, tá aqui o endereço eletrônico”. Ou seja, eles usaram inclusive a guerra de Gaza – não foi guerra, foi massacre de Gaza – como propaganda das armas, que evidentemente não são empresas israelenses, é tudo conjugado com o capital internacional. Então, o mecanismo da guerra está presente sim, embora de uma maneira mais dissimulada.
Quinto mecanismo que eles usam é o Estado. O Estado é usado agora, mais do que tudo, como o grande agente que pode, de uma maneira compulsória, recolher a mais-valia, ou a poupança individualizada, pequena, de cada um dos habitantes, amontoa num canto só e repassam pro capital. E isso eles têm feito aqui no Brasil, e em vários países do mundo, com a chamada política do superávit primário. O que é o superávit primário, que nem o Willian Bonner sabe explicar lá no jornal nacional? Porque eles não querem explicar para a população. O superávit primário, o governo recolhe, através dos impostos, na Receita Federal, o dinheiro de todo mundo, amontoa lá no Tesouro e na hora de gastar, ele separa 30% de toda receita de impostos no Brasil, que são transferidos pra bancos privados, na forma de pagamento de juros de títulos da dívida pública. Isso é o papel do Estado.
Segundo exemplo. Nisso o governo Lula tem sido didático em nos ajudar a compreender o papel do Estado. Que quando nós estávamos discutindo lá em Belém a saída da crise, o Meirelles tava em Davos acalmando os bancos internacionais dizendo: “ó, já assinei uma portaria autorizando que 40 bilhões das reservas em dólar que o Brasil tem depositadas em Nova Iorque, as empresas que são devedoras com vocês, podem acessar esses recursos públicos e pagar vocês”. Todo mundo bateu palma: “isso que é presidente de Banco Central, nós queria ter um assim aqui no Estados Unidos”. Então isso é um mecanismo concreto, 40 bilhões de dólares, façam a conta aí, 40 bilhões em nossa reserva, uma portaria do Banco Central passa pras empresas.
Depois da reunião do G-20, outro exemplo ilustrativo: quando, emocionado pela frase: “esse é o cara”, o governo autorizou repassar pro FMI, 10 bilhões de dólares. E a imprensa brasileira noticiou como se fosse um empréstimo, “olha como nós tamo ban-ban-ban, estamos emprestando...” Ilusão! Aquilo não foi empréstimo, foi complemento de cotas, portanto nunca mais vai voltar. A única coisa que o Brasil teve de vantagem naquilo é que os seus votos no FMI (que o FMI funciona como um banco privado que os governos são sócios, então os votos é pela quantia de capital) passaram de 05 pra 06% com esse aporte a mais de capital. Grande mudança na correlação de forças!... Mas agora some 10 bilhões de dólares, se fossem aplicados aqui no Brasil, o quanto representaria de casa, de Reforma Agrária, se quiserem. Então esse é o papel do Estado: recolher dinheiro de todo mundo, que a gente nem percebe, porque é via impostos, via outros mecanismos, e canaliza isso pro capital.
Sexto mecanismo do capitalismo sair da crise é mudar o padrão tecnológico de produção. É o momento que eles, mesmo tendo lucro, usam a crise pra botar na rua o operário e reformular o processo produtivo de modo que aumente a produtividade do trabalho. Olhe a reunião do Conselho de Administração da Vale. A Vale, como a maioria das empresas, reúne seu Conselho de Administração uma vez por mês. A reunião do Conselho de Administração da Vale de fevereiro, final de janeiro, que coincidiu também com o Fórum, por isso eu guardei bem. A reunião teve 2 pontos de pauta. 1º ponto de pauta: prezados colegas capitalistas, acionistas da Vale, nós estamos com um problemão aqui, o lucro líquido do último trimestre foi de 2 bilhões e meio de reais. Então, nós temos que decidir, vamos reinvestir, ou vamos dividir entre os acionistas? Diante da crise, é um problemão né! Como nós vamos dividir 2 bilhões e meio de lucro do TRIMESTRE da Vale? Ta bom, decidiram (nem sei qual foi a decisão), que isso eles não dizem... Segundo ponto de pauta: a demissão de 2.500 trabalhadores. Até o número era meio parecido, só mudava o zero, né... Bem, então, que isso revela? As empresas, mesmo não estando em crise contábil aproveitam o período da crise pra fazer seus reajustes na matriz tecnológica. Que isso quer dizer? No jeito de fazer mais rápido os produtos com menos trabalhadores. Todos – e fiquem atentos – todos os dias têm exemplos desse nos cadernos de economia, em especial no Estadão e no jornal Valor Econômico. São os únicos dois jornais que eu leio pra saber o que a direita pensa, porque o resto são fofoqueiros...
Por último, entre os métodos do capital pra sair da crise, é a apropriação privada dos recursos naturais. O que está acontecendo e nós no Brasil estamos sendo vítimas? A Rosa Luxemburgo, num brilhante trabalho sobre a acumulação originária, ou primitiva, dependendo da tradução, ela tinha explicado esse mecanismo. Os bens da natureza quando tão lá, parados, seja o minério de ferro, o petróleo, as árvores, a água, que depois vai virar energia elétrica, lá na natureza, eles não tem valor. Acredito que aqui todo mundo domina essa terminologia. Os bens só tem valor, do ponto de vista econômico, quando é fruto do trabalho, ou seja, o valor é medido pelos dias de trabalho que você bota neles. Então ta lá a árvore, fruto da natureza, quieta. Qual o valor da árvore quieta? Nada. Não tem valor nenhum, ela é fruto da natureza, não do trabalho. Qual é o valor de uma mina de minério, lá embaixo? Nada. Não tem valor nenhum, mas quando você se apropriar dela, botar um pouquinho de trabalho humano e a transforma numa mercadoria, adquirem um alto preço e se transforma as mercadorias que dão a mais alta taxa de lucro. Quanto mais o capitalismo se desenvolve, maior é a diferença entre a taxa de lucro da apropriação daquele bem da natureza (que ainda não tem valor) com poucos dias de trabalho, e preço pago pela sociedade. Porque em geral, aqueles bens da natureza são finitos e limitados. Minério não é pra vida inteira. Então, só pra vocês terem uma idéia, que nó viemos agora de nossa escola sobre o seminário de monocultivo de eucalipto. Os companheiros que atuam por lá, os operários da Aracruz nos explicaram. Sabe qual é o custo de produção pra plantar eucalipto e transformar em pasta de celulose (ainda não é o papel)? O custo de produção é 70 dólares a tonelada. Sabe quanto ela vendia a tonelada da pasta de celulose antes da crise? A 850 dólares. Isso dava uma taxa de lucro de 700%. Segundo nosso amigo, saudoso Celso Furtado, nem na escravidão. Na época da escravidão, a taxa média de lucro da exportação de açúcar era ao redor de 400%. A Aracruz, em pleno século XXI, está tendo um lucro de 700%! Aí veio a crise, eles tão vendendo a 550 dólares. Coitadinhos! E o custo de produção continua 70 dólares. Por quê? Por causa dessa apropriação de recurso da natureza que deveria ser pra todos. As árvores são de todos, o minério de ferro são de todos, o petróleo que está aí no pré-sal é de todos nós. Então deveria ser distribuído socialmente. Então, o que acontece na crise? As empresas procuram no período de crise se apropriar juridicamente desses bens. Elas não tem capital ainda pra explorar, porque tão em crise, não têm capital sobrante pra fazer isso, mas elas procuram juridicamente, digamos assim, tornar aquilo propriedade privada, dos bens parados na natureza. Para se preparar pro próximo ciclo. Aí quando vier um novo ciclo de crescimento econômico, de acumulação, vai ter capital, e aí eles vão explorar, e aí eles vão ter essas altas taxas de lucro que, como dei o exemplo da celulose, vocês podem ter uma idéia. Então, o que nós estamos assistindo no Brasil? É uma verdadeira ofensiva, da qual os deputados são meramente marionetes do capital internacional, porque tão tentando mudar a legislação ambiental, mudar a legislação da Amazônia, faz parte desse movimento do capital de se apropriar.
A semente transgênica é outro mecanismo jurídico de privatizar a propriedade da semente que, ao longo da humanidade, foi um patrimônio da humanidade. Alguém pode dizer: “Eu sou dono da semente de milho”? Ninguém! Milho é de todo mundo. Qualquer um pode pegar o milho e plantar. Pois bem, mas pela lei de patentes, se você fizer uma variedade de milho transgênico, você fizer uma mutação genética, você vai lá, registra, e vai aparecer lá: esse milho é da Bayer, esse milho é propriedade privada da Monsanto, e daí pra diante, todo mundo que se atrever a plantar aquele milho, tem que pagar royalties pra Monsanto, pra Bayer, pra Basf. Então, semente transgênica, não tem nada de aumento de produtividade, num tem nada de ciência, é a maior picaretagem que tem, maior enganação. No fundo, o que tem por trás da semente transgênica é essa apropriação, essa propriedade privada, que a lei de patentes garante . Se não houvesse lei de patentes, ninguém se preocupava, em ficar disseminando semente transgênica. Aliás, foi a primeira mudança que o Fernando Henrique fez no seu governo. Primeira Lei que ele mudou no Brasil foi a lei de patentes, em maio de 1995. E a lei de patentes circulou no Congresso em inglês, distribuída pela embaixada norte-americana. Se alguém tem alguma dúvida a que interesses representava, porque o senador, lá da Paraíba, recebeu da embaixada e não se deu ao trabalho de traduzir qual era a lei que a embaixada americana queria. E evidentemente que o Fernando Henrique aprovou depois com uma canetada.
Vou mais rápido agora que ainda não entrei no tema. Isso tudo é introdução. Pra vocês se lembrarem dos outros professores.
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[1] Palestra no Curso de Especialização sobre a Crise. Promovido pelo curso jornalismo da PUC-SP/CEPIS/ENFF. João Pedro Stedile – 27 de maio de 2009
UMA REALIDADE LATINO-AMERICANA E O BRASIL - Laerte Braga
Brasileiros, temos sido, historicamente, omissos na luta latino-americana por uma realidade diferente da imposta pelos Estados Unidos. O caso de Honduras é exemplar. A própria História do Brasil se apresenta distinta da História dos países de língua espanhola. O ufanismo de nossas dimensões continentais não nos permitiu perceber, ainda, que nossa realidade se encontra à nossa frente nos países latino-americanos, nunca em Washington.
Percebo com freqüência reações ao termo bolivarianismo, seguidas da pergunta “o que temos com Simon Bolívar?” Temos a pretensão de sermos parte da Europa, a África é apenas uma escala para vôos a Paris e uma ignorância sem tamanho sobre nossas raízes – nacionais -, as raízes dos povos irmãos da América Latina e que não temos sido senão instrumento do capitalismo mais perverso que se possa imaginar, quando achamos que somos hoje os EUA de cinqüenta anos atrás e o destino nos reserva um papel relevante no mundo.
É exatamente como pensávamos na década de 50 do século passado. Que em 2000 seríamos o novo Estados Unidos.
O primeiro ponto é que nenhum país será um novo EUA pelo simples fato que a cada EUA que surgir o fim do planeta fica mais próximo. Leonardo Boff mostrou isso de forma incontestável num artigo magistral a semana passada. Seriam necessários cem planetas semelhantes ao nosso para que todos os países do mundo tivessem o mesmo nível de consumo que os norte-americanos.
Não vamos para a ALCA (embora as elites do país vizinho São Paulo estejam loucas para isso) para não virar um México, depósito de lixo dos EUA e do Canadá, mas não mergulhamos de corpo e alma no processo de transformação e unidade latino-americana porque afinal, são índios, são povos diferentes.
Somos penta-campeões mundiais, somos isso e aquilo, cada dia a Europa ser curva ao Brasil, como gostam de dizer colunistas sociais. Chegam em levas por aqui em busca de bundas de mulheres brasileiras vendidas a um custo baixo por agências de turismo européias e norte-americanos.
O brasileiro não percebe que é colonizado. Sub-EUA. E vai ser sempre assim.
Pensamos como eles, os norte-americanos, mas não vivemos como eles.
E não percebemos que temos sido o agente principal no processo de dominação da América Latina. De golpes de estado, de ditaduras brutais e violentas. Não conseguimos perceber que Obama é um boneco de propaganda e não um presidente. Um garçom e não um chefe de estado e governo.
O que foi o golpe de 1964? O presidente dos EUA Lyndon Johnson designou o general Vernon Walthers para comandar as forças armadas brasileiras, o embaixador Lincoln Gordon para gerenciar o esquema FIESP/DASLU para além das fronteiras de São Paulo, juntaram os latifundiários e se arvoraram em protetores da “democracia”.
Enquadraram generais, deputados, senadores, transformaram o País num imenso território ocupado pela ideologia McDonalds e num grande campo de concentração que mais à frente se juntou a outros nos países latino-americanos onde as ditaduras prosperaram, tudo no pomposo nome de Operação Condor.
Fomos apenas os policiais um pouco mais categorizados, mas não menos brutais que os generais chilenos, argentinos, uruguaios, etc.
O governo seguinte, o de Nixon, definiu esse tipo de situação com clareza – “para onde se inclinar o Brasil, se inclinará a América Latina” –.
Lula parece ser aquele sujeito que imagina correr cem metros e quando chega a setenta, percebe que está à frente, pára e começa a afirmar que bastam os setenta para provar que podemos chegar aos cem. Só que aí voltamos ao marco zero.
Mergulhamos em crises desnecessárias com o tal argumento da governabilidade, enfiando numa viola que deveria tocar afinada, músicos de péssima catadura como Sarney, Renan, Jereissati, Virgílio, Serra, Aécio e outros, todos ufanistas com as praias do “meu Brasil.”
Onde? Um condomínio fechado no estado do Rio de Janeiro, aquele que o governador está colocando muros para separar as favelas da “civilização,” proíbe a circulação de pessoas para chegar a uma determinada praia e aí, na prática, privatiza a praia. É em Parati.
Para o povão, seja classe média inclusive, haja REDE GLOBO, haja VEJA, acha infográfico na FOLHA DE SÃO PAULO, haja ventos monárquicos e escravagistas no ESTADO DE SÃO PAULO e toda mulher acredita que vira modelo e casa com Bradd Pitt, como todo homem acredita que na sua vida vai aparecer uma Madona.
Nesse caso lambuza o sanduíche todo de catchup. Marlene Dietrich dizia que catchup era “coisa de americano que come tudo com gosto de catchup, tudo tem o mesmo gosto”. Mas é importante o pacotinho. Aquele que muita gente enfia no bolso antes de sair, no pressuposto que está passando a perna na multinacional, sem saber que ela adora aquilo. Dali a comprar um vidro de litro é um passo.
Nessa presunção toda que somos o Brasil de milhões de quilômetros quadrados não somos nada. Pouco mais que um México, bem menos que um EUA e de costas voltadas para a História.
Se um bando de generais comprados, associados a uma elite podre (semelhante à nossa), dão um golpe de estado e assumem o controle de um país de dimensões territoriais pequenas como Honduras, tudo bem, é um golpe, mas fazer o que?
O problema é deles? Chávez é aquela figura caricata que a GLOBO mostra deliberadamente? Evo é um índio?
Vai fazer o que? Chamar os ossos do general Custer para enfrentar esse bando de Crazy Horse?
O general Heleno para proclamar a república da VALE?
Ouvir do fundo do túmulo a voz de um crápula lato senso, Fernando Henrique Cardoso falando em modernidade?
O conceito de democracia não precisa necessariamente significar o governo da maioria. A maioria não tem a menor idéia que exista vida fora da REDE GLOBO. E um mundo diferente da fantasia do JORNAL NACIONAL. Quando Bonner chama o telespectador padrão de Homer Simpson ele sabe que esse paspalho vai achar engraçado e aceitar conformado esse papel de idiota.
Já foi domado, dominado e está domesticado.
“Pensa como americano, mas não vive como americano.”
A luta bolivariana no sentido de se construir uma sociedade socialista, democrática e popular passa pelos movimentos de base. Passar por enfrentar as elites e passa por rejeitar esse modelo em todos os sentidos, perceber que, no máximo, no máximo, o institucional é um instrumento. E de pouca validade.
Toda essa parafernália que chamam de republicana é apenas a camisa de força dos donos, ou o chicote dos senhores de escravos.
Honduras é uma luta de todos os povos latino-americanos. Há que se esgotar todos os recursos possíveis de luta pacífica, mas não se pode descartar a hipótese de enfrentamento aberto dos generais boçais que ocupam o governo a mando das elites e nem de alijar essas elites da forma que for possível de qualquer capacidade de decisão.
Elites são podres, são apátridas e servem a um único dono.
Somos latino-americanos sim. Somos argentinos, chilenos, paraguaios, bolivianos, venezuelanos, hondurenhos, equatorianos. Somos inclusive peruanos e colombianos que enfrentam governos do narcotráfico. Somos nicaragüenses e somos salvadorenhos e hondurenhos.
E se assim não o entendermos breve não seremos um nada maior ainda. Um gigante imóvel e bobalhão dominado por elites desavergonhadas e fétidas.
O golpe em Honduras sinaliza, o primeiro sinal, que é hora de nos aprontarmos para lutas muito maiores, de maior envergadura. Daqui a pouco designam para cá um general como fizeram em 1964 e um embaixador para abrir portas da frente e dos fundos para toda a súcia que controla o Brasil.
E dizem que os irmãos da América Central são de “repúblicas bananas”. São não. Estão lutando, dando vidas pela liberdade. Cuba está aí de pé. Bananas somos nós.
Percebo com freqüência reações ao termo bolivarianismo, seguidas da pergunta “o que temos com Simon Bolívar?” Temos a pretensão de sermos parte da Europa, a África é apenas uma escala para vôos a Paris e uma ignorância sem tamanho sobre nossas raízes – nacionais -, as raízes dos povos irmãos da América Latina e que não temos sido senão instrumento do capitalismo mais perverso que se possa imaginar, quando achamos que somos hoje os EUA de cinqüenta anos atrás e o destino nos reserva um papel relevante no mundo.
É exatamente como pensávamos na década de 50 do século passado. Que em 2000 seríamos o novo Estados Unidos.
O primeiro ponto é que nenhum país será um novo EUA pelo simples fato que a cada EUA que surgir o fim do planeta fica mais próximo. Leonardo Boff mostrou isso de forma incontestável num artigo magistral a semana passada. Seriam necessários cem planetas semelhantes ao nosso para que todos os países do mundo tivessem o mesmo nível de consumo que os norte-americanos.
Não vamos para a ALCA (embora as elites do país vizinho São Paulo estejam loucas para isso) para não virar um México, depósito de lixo dos EUA e do Canadá, mas não mergulhamos de corpo e alma no processo de transformação e unidade latino-americana porque afinal, são índios, são povos diferentes.
Somos penta-campeões mundiais, somos isso e aquilo, cada dia a Europa ser curva ao Brasil, como gostam de dizer colunistas sociais. Chegam em levas por aqui em busca de bundas de mulheres brasileiras vendidas a um custo baixo por agências de turismo européias e norte-americanos.
O brasileiro não percebe que é colonizado. Sub-EUA. E vai ser sempre assim.
Pensamos como eles, os norte-americanos, mas não vivemos como eles.
E não percebemos que temos sido o agente principal no processo de dominação da América Latina. De golpes de estado, de ditaduras brutais e violentas. Não conseguimos perceber que Obama é um boneco de propaganda e não um presidente. Um garçom e não um chefe de estado e governo.
O que foi o golpe de 1964? O presidente dos EUA Lyndon Johnson designou o general Vernon Walthers para comandar as forças armadas brasileiras, o embaixador Lincoln Gordon para gerenciar o esquema FIESP/DASLU para além das fronteiras de São Paulo, juntaram os latifundiários e se arvoraram em protetores da “democracia”.
Enquadraram generais, deputados, senadores, transformaram o País num imenso território ocupado pela ideologia McDonalds e num grande campo de concentração que mais à frente se juntou a outros nos países latino-americanos onde as ditaduras prosperaram, tudo no pomposo nome de Operação Condor.
Fomos apenas os policiais um pouco mais categorizados, mas não menos brutais que os generais chilenos, argentinos, uruguaios, etc.
O governo seguinte, o de Nixon, definiu esse tipo de situação com clareza – “para onde se inclinar o Brasil, se inclinará a América Latina” –.
Lula parece ser aquele sujeito que imagina correr cem metros e quando chega a setenta, percebe que está à frente, pára e começa a afirmar que bastam os setenta para provar que podemos chegar aos cem. Só que aí voltamos ao marco zero.
Mergulhamos em crises desnecessárias com o tal argumento da governabilidade, enfiando numa viola que deveria tocar afinada, músicos de péssima catadura como Sarney, Renan, Jereissati, Virgílio, Serra, Aécio e outros, todos ufanistas com as praias do “meu Brasil.”
Onde? Um condomínio fechado no estado do Rio de Janeiro, aquele que o governador está colocando muros para separar as favelas da “civilização,” proíbe a circulação de pessoas para chegar a uma determinada praia e aí, na prática, privatiza a praia. É em Parati.
Para o povão, seja classe média inclusive, haja REDE GLOBO, haja VEJA, acha infográfico na FOLHA DE SÃO PAULO, haja ventos monárquicos e escravagistas no ESTADO DE SÃO PAULO e toda mulher acredita que vira modelo e casa com Bradd Pitt, como todo homem acredita que na sua vida vai aparecer uma Madona.
Nesse caso lambuza o sanduíche todo de catchup. Marlene Dietrich dizia que catchup era “coisa de americano que come tudo com gosto de catchup, tudo tem o mesmo gosto”. Mas é importante o pacotinho. Aquele que muita gente enfia no bolso antes de sair, no pressuposto que está passando a perna na multinacional, sem saber que ela adora aquilo. Dali a comprar um vidro de litro é um passo.
Nessa presunção toda que somos o Brasil de milhões de quilômetros quadrados não somos nada. Pouco mais que um México, bem menos que um EUA e de costas voltadas para a História.
Se um bando de generais comprados, associados a uma elite podre (semelhante à nossa), dão um golpe de estado e assumem o controle de um país de dimensões territoriais pequenas como Honduras, tudo bem, é um golpe, mas fazer o que?
O problema é deles? Chávez é aquela figura caricata que a GLOBO mostra deliberadamente? Evo é um índio?
Vai fazer o que? Chamar os ossos do general Custer para enfrentar esse bando de Crazy Horse?
O general Heleno para proclamar a república da VALE?
Ouvir do fundo do túmulo a voz de um crápula lato senso, Fernando Henrique Cardoso falando em modernidade?
O conceito de democracia não precisa necessariamente significar o governo da maioria. A maioria não tem a menor idéia que exista vida fora da REDE GLOBO. E um mundo diferente da fantasia do JORNAL NACIONAL. Quando Bonner chama o telespectador padrão de Homer Simpson ele sabe que esse paspalho vai achar engraçado e aceitar conformado esse papel de idiota.
Já foi domado, dominado e está domesticado.
“Pensa como americano, mas não vive como americano.”
A luta bolivariana no sentido de se construir uma sociedade socialista, democrática e popular passa pelos movimentos de base. Passar por enfrentar as elites e passa por rejeitar esse modelo em todos os sentidos, perceber que, no máximo, no máximo, o institucional é um instrumento. E de pouca validade.
Toda essa parafernália que chamam de republicana é apenas a camisa de força dos donos, ou o chicote dos senhores de escravos.
Honduras é uma luta de todos os povos latino-americanos. Há que se esgotar todos os recursos possíveis de luta pacífica, mas não se pode descartar a hipótese de enfrentamento aberto dos generais boçais que ocupam o governo a mando das elites e nem de alijar essas elites da forma que for possível de qualquer capacidade de decisão.
Elites são podres, são apátridas e servem a um único dono.
Somos latino-americanos sim. Somos argentinos, chilenos, paraguaios, bolivianos, venezuelanos, hondurenhos, equatorianos. Somos inclusive peruanos e colombianos que enfrentam governos do narcotráfico. Somos nicaragüenses e somos salvadorenhos e hondurenhos.
E se assim não o entendermos breve não seremos um nada maior ainda. Um gigante imóvel e bobalhão dominado por elites desavergonhadas e fétidas.
O golpe em Honduras sinaliza, o primeiro sinal, que é hora de nos aprontarmos para lutas muito maiores, de maior envergadura. Daqui a pouco designam para cá um general como fizeram em 1964 e um embaixador para abrir portas da frente e dos fundos para toda a súcia que controla o Brasil.
E dizem que os irmãos da América Central são de “repúblicas bananas”. São não. Estão lutando, dando vidas pela liberdade. Cuba está aí de pé. Bananas somos nós.
NEGOCIAR O QUE? A REFUNDAÇÃO DE HONDURAS - Laerte Braga
A notícia que Roberto Michelletti, presidente golpista de Honduras, teria dito ao presidente da Costa Rica, Oscar Árias, que não é ele o intransigente quanto a cumprir a decisão da OEA (Organização dos Estados Americanos) de restituir o governo do país ao presidente constitucional Manuel Zelaya, mas das elites e dos militares, é só um jogo de empurrar o problema com a barriga, não chegar a acordo algum (não há o que negociar) e criar uma situação de fato, o fim do mandato atual de Zelaya. E eleições farsa.
É como um condenado à morte que vai recorrendo a todas as instâncias e perdendo em todas elas, mas luta no sentido de ganhar tempo, ganhar vida. Na prisão de San Quentin, nos EUA, vários foram os casos assim. A prisão não existe mais. A pena de morte sim.
Não há o que negociar em Honduras. A afirmação sobre a “intransigência das elites e dos militares” mostra que Michelletti é apenas um pau mandado e não vai resolver coisa alguma, até porque não tem legitimidade. É produto de um golpe de estado. Que militares e elites são mandatários do golpe e o golpe visou apenas manter os “negócios” e os privilégios dos donos, ninguém tem dúvidas disso. É histórico, funciona assim faz tempo.
Michelleti teria dito também que a condição imposta pelos militares e pelas elites (banqueiros, empresários, latifundiários, EUA, tráfico de drogas e nas mais diversas modalidades, esquadrões da morte, o cardeal, etc, etc) é que Zelaya não “enfraqueça a democracia”.
Putz! Quadrilhas se associam, derrubam o presidente constitucional de um país, eleito pelo voto direto do povo, que num dado momento manifesta o desejo de ouvir o povo na forma de um referendo sobre reformas políticas e econômicas. Quadrilhas que se mantêm no poder usando a barbárie e a boçalidade típica de militares golpistas e elites, ou seja, prendem, torturam, seqüestram, estupram mulheres, matam inocentes, toda a sorte de estupidez característica desse tipo de gente e Zelaya é que “enfraquece a democracia"?
A leitura das declarações de Michelletti é simples, não há o que pensar ou analisar, nada. Quer ganhar tempo, empurrar o problema com a barriga, não resolver coisa alguma e manter o atual estado de barbárie no país.
O grande problema dessas quadrilhas é que não contavam com a reação popular ao golpe. Aí a história de outros quinhentos.
Nem de longe podiam imaginar que o povo hondurenho estava pronto a se manifestar sobre as reformas propostas pelo presidente Zelaya e dar ao país os rumos que desejava. E lógico, rumos diferentes dos rumos desejados por banqueiros, empresários, latifundiários, traficantes, esquadrões da morte, militares, o cardeal, etc, etc, sempre, o usual na história da América Latina, da América Central e de Honduras então...
A reação, as manifestações dos mais diversos setores da população hondurenha, o nível de organização espontânea e o destemor de trabalhadores da cidade e do campo, todo esse conjunto de determinação e resistência mais que assustou os golpistas.
Trouxe a tona o caráter perverso, criminoso, a insânia da violência organizada e travestida de “democracia”. A repressão na sua crueza despótica e absoluta. O desprezo das classes dominantes por trabalhadores. Desprezo e desrespeito.
Os próprios aliados norte-americanos, que cozinham o golpe em banho maria para fingir que se opõem à quebra da ordem constitucional em Honduras, começam a perceber que vai ser preciso sacrificar os anéis para que não percam os dedos.
A não ser que queiram cometer crime de genocídio contra o povo hondurenho.
Permitir que militares hondurenhos repitam as tragédias cruéis e sanguinárias das ditaduras que implantaram nas décadas de 60, 70 e até 80 do século passado em toda a América Latina. E, para variar, disfarçadas de “defesa da democracia e das liberdades”.
É a cantilena de sempre.
A repercussão negativa do golpe e os movimentos de apoio à resistência em toda a América Latina, a despeito da mídia venal e corrupta (atua a serviço das elites), assustou, além dos golpistas e bem mais, ao governo show do presidente Barak Obama e sua primeira dançarina, a secretária Hilary Clinton, como começa a causar problemas ao governo de fato, real dos EUA, os chamados porões.
Não há o que negociar. O povo hondurenho quer refundar o seu país e construí-lo segundo a sua vontade. E a vontade do povo hondurenho não está representada pelos golpistas e nem pelos seus aliados norte-americanos.
É a vocação bolivariana que se manifesta no ideal revolucionário de nação livre, soberana, justa socialmente, sem privilégios, portanto, democrática em sua essência. Em seu sentido e em sua direção.
O próprio Zelaya é apenas o símbolo dessa luta que se mantém desde o primeiro momento do golpe. Percebeu isso e abraçou a causa do seu povo. Não pode traí-lo e isso implica em não negociar a soberania maior de todas, a do povo hondurenho.
São as centenas de mortos, os milhares de presos e desaparecidos, de mulheres estupradas por militares e policiais que se manifestam em cada ato de resistência e tudo isso transcende a Zelaya, tem uma dimensão bem maior.
E os milhões de trabalhadores resistentes. Que não aceitam a borduna e o tacão nazista das elites, impostos pelos militares, na verdade, esbirros dos senhores do país.
Bem mais que isso. O alcance latino-americano da resistência do povo de Honduras.
A luta pelo retorno do presidente legítimo do país tem o caráter de refundação de Honduras.
E a partir da vontade popular. Não há que se falar em anistia a golpistas assassinos, corruptos. Nem ceder em acordos feitos em gabinetes fechados à revelia do povo. Há que ser tudo à luz do dia. Com a transparência cristalina da democracia em seu sentido pleno, popular.
O que se vê é tão somente o processo histórico em curso. O reencontro de hondurenhos, de todos os latino-americanos, com a sua própria história. Com sua identidade. Não é forjada em Miami, tampouco nos salões ou quartéis de “patriotas” lambe botas dos senhores do mundo.
Se a primeira dançarina quer que a orquestra toque num ritmo mais lento para não permitir tombos ou encontrões entre eles, os donos, o povo hondurenho quer que a primeira dançarina saia do palco.
É um palco popular e é dos trabalhadores do campo e da cidade. Do povo hondurenho. Um circo mambembe. Com lonas furadas, mas passos precisos e determinados para reencontrar a Honduras perdida desde a colonização espanhola e os massacres da população indígena – Maias, 1523/1539 –.
Os furos da lona são as páginas da história escrita na luta que não se esgota na volta de Zelaya. Pelo contrário, renasce ali o que os hondurenhos iam dizer nas urnas no dia do golpe. E numa proporção bem mais ampla. Numa vontade e numa determinação que não serão abaladas com a covardia e a crueldade dos tais “defensores da pátria”.
Confundem pátria com negócios.
O povo hondurenho não. Sabe o caminho. E está lutando por ele. E os povos latino-americanos também. Começam a acordar. É só olhar cada governo bolivariano da América Latina. Cada organização camponesa. Operária.
Refundar Honduras. É a determinação.
É como um condenado à morte que vai recorrendo a todas as instâncias e perdendo em todas elas, mas luta no sentido de ganhar tempo, ganhar vida. Na prisão de San Quentin, nos EUA, vários foram os casos assim. A prisão não existe mais. A pena de morte sim.
Não há o que negociar em Honduras. A afirmação sobre a “intransigência das elites e dos militares” mostra que Michelletti é apenas um pau mandado e não vai resolver coisa alguma, até porque não tem legitimidade. É produto de um golpe de estado. Que militares e elites são mandatários do golpe e o golpe visou apenas manter os “negócios” e os privilégios dos donos, ninguém tem dúvidas disso. É histórico, funciona assim faz tempo.
Michelleti teria dito também que a condição imposta pelos militares e pelas elites (banqueiros, empresários, latifundiários, EUA, tráfico de drogas e nas mais diversas modalidades, esquadrões da morte, o cardeal, etc, etc) é que Zelaya não “enfraqueça a democracia”.
Putz! Quadrilhas se associam, derrubam o presidente constitucional de um país, eleito pelo voto direto do povo, que num dado momento manifesta o desejo de ouvir o povo na forma de um referendo sobre reformas políticas e econômicas. Quadrilhas que se mantêm no poder usando a barbárie e a boçalidade típica de militares golpistas e elites, ou seja, prendem, torturam, seqüestram, estupram mulheres, matam inocentes, toda a sorte de estupidez característica desse tipo de gente e Zelaya é que “enfraquece a democracia"?
A leitura das declarações de Michelletti é simples, não há o que pensar ou analisar, nada. Quer ganhar tempo, empurrar o problema com a barriga, não resolver coisa alguma e manter o atual estado de barbárie no país.
O grande problema dessas quadrilhas é que não contavam com a reação popular ao golpe. Aí a história de outros quinhentos.
Nem de longe podiam imaginar que o povo hondurenho estava pronto a se manifestar sobre as reformas propostas pelo presidente Zelaya e dar ao país os rumos que desejava. E lógico, rumos diferentes dos rumos desejados por banqueiros, empresários, latifundiários, traficantes, esquadrões da morte, militares, o cardeal, etc, etc, sempre, o usual na história da América Latina, da América Central e de Honduras então...
A reação, as manifestações dos mais diversos setores da população hondurenha, o nível de organização espontânea e o destemor de trabalhadores da cidade e do campo, todo esse conjunto de determinação e resistência mais que assustou os golpistas.
Trouxe a tona o caráter perverso, criminoso, a insânia da violência organizada e travestida de “democracia”. A repressão na sua crueza despótica e absoluta. O desprezo das classes dominantes por trabalhadores. Desprezo e desrespeito.
Os próprios aliados norte-americanos, que cozinham o golpe em banho maria para fingir que se opõem à quebra da ordem constitucional em Honduras, começam a perceber que vai ser preciso sacrificar os anéis para que não percam os dedos.
A não ser que queiram cometer crime de genocídio contra o povo hondurenho.
Permitir que militares hondurenhos repitam as tragédias cruéis e sanguinárias das ditaduras que implantaram nas décadas de 60, 70 e até 80 do século passado em toda a América Latina. E, para variar, disfarçadas de “defesa da democracia e das liberdades”.
É a cantilena de sempre.
A repercussão negativa do golpe e os movimentos de apoio à resistência em toda a América Latina, a despeito da mídia venal e corrupta (atua a serviço das elites), assustou, além dos golpistas e bem mais, ao governo show do presidente Barak Obama e sua primeira dançarina, a secretária Hilary Clinton, como começa a causar problemas ao governo de fato, real dos EUA, os chamados porões.
Não há o que negociar. O povo hondurenho quer refundar o seu país e construí-lo segundo a sua vontade. E a vontade do povo hondurenho não está representada pelos golpistas e nem pelos seus aliados norte-americanos.
É a vocação bolivariana que se manifesta no ideal revolucionário de nação livre, soberana, justa socialmente, sem privilégios, portanto, democrática em sua essência. Em seu sentido e em sua direção.
O próprio Zelaya é apenas o símbolo dessa luta que se mantém desde o primeiro momento do golpe. Percebeu isso e abraçou a causa do seu povo. Não pode traí-lo e isso implica em não negociar a soberania maior de todas, a do povo hondurenho.
São as centenas de mortos, os milhares de presos e desaparecidos, de mulheres estupradas por militares e policiais que se manifestam em cada ato de resistência e tudo isso transcende a Zelaya, tem uma dimensão bem maior.
E os milhões de trabalhadores resistentes. Que não aceitam a borduna e o tacão nazista das elites, impostos pelos militares, na verdade, esbirros dos senhores do país.
Bem mais que isso. O alcance latino-americano da resistência do povo de Honduras.
A luta pelo retorno do presidente legítimo do país tem o caráter de refundação de Honduras.
E a partir da vontade popular. Não há que se falar em anistia a golpistas assassinos, corruptos. Nem ceder em acordos feitos em gabinetes fechados à revelia do povo. Há que ser tudo à luz do dia. Com a transparência cristalina da democracia em seu sentido pleno, popular.
O que se vê é tão somente o processo histórico em curso. O reencontro de hondurenhos, de todos os latino-americanos, com a sua própria história. Com sua identidade. Não é forjada em Miami, tampouco nos salões ou quartéis de “patriotas” lambe botas dos senhores do mundo.
Se a primeira dançarina quer que a orquestra toque num ritmo mais lento para não permitir tombos ou encontrões entre eles, os donos, o povo hondurenho quer que a primeira dançarina saia do palco.
É um palco popular e é dos trabalhadores do campo e da cidade. Do povo hondurenho. Um circo mambembe. Com lonas furadas, mas passos precisos e determinados para reencontrar a Honduras perdida desde a colonização espanhola e os massacres da população indígena – Maias, 1523/1539 –.
Os furos da lona são as páginas da história escrita na luta que não se esgota na volta de Zelaya. Pelo contrário, renasce ali o que os hondurenhos iam dizer nas urnas no dia do golpe. E numa proporção bem mais ampla. Numa vontade e numa determinação que não serão abaladas com a covardia e a crueldade dos tais “defensores da pátria”.
Confundem pátria com negócios.
O povo hondurenho não. Sabe o caminho. E está lutando por ele. E os povos latino-americanos também. Começam a acordar. É só olhar cada governo bolivariano da América Latina. Cada organização camponesa. Operária.
Refundar Honduras. É a determinação.
FAÇA O QUE MANDO NÃO FAÇA O QUE FAÇO lembra o Sinédrio - Bismarck Frota de Xerez
02.08.2009 | 13:00 UTC
Banco católico alemão investiu em armas, contraceptivos e tabaco
O instituto bancário Pax se tornou alvo de críticas por causa de investimentos em firmas contrárias aos preceitos católicos. Sediado em Colônia, no estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália, ele prega o investimento financeiro com ética. A maioria de seus clientes são instituições eclesiásticas ou ligadas à Igreja Católica, como ordens religiosas, obras de caridade e hospitais, além de estudantes de teologia.
No entanto, o banco católico investiu um total de mais de 1,6 milhão de euros em dois conglomerados de tabaco (British American e Imperial Tobacco), um fabricante de pílulas anticoncepcionais (Wyeth) e na produtora de armamentos BAE Systems. Sediada em Londres, esta fabrica submarinos atômicos, sistemas de mísseis e aviões de combate, entre outros equipamentos bélicos. O investimento na BAE deu-se em conjunto com o Banco Liga, igualmente ligado à Igreja.
O presidente do instituto bancário católico, Christoph Berndorff, desculpou-se publicamente: "Lamentamos e corrigiremos o erro imediatamente na segunda-feira, sem que haja prejuízo para os clientes". O presidente do conselho de administração do Banco Pax é o prior da Catedral de Colônia, Norbert Feldhoff.
Banco católico alemão investiu em armas, contraceptivos e tabaco
O instituto bancário Pax se tornou alvo de críticas por causa de investimentos em firmas contrárias aos preceitos católicos. Sediado em Colônia, no estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália, ele prega o investimento financeiro com ética. A maioria de seus clientes são instituições eclesiásticas ou ligadas à Igreja Católica, como ordens religiosas, obras de caridade e hospitais, além de estudantes de teologia.
No entanto, o banco católico investiu um total de mais de 1,6 milhão de euros em dois conglomerados de tabaco (British American e Imperial Tobacco), um fabricante de pílulas anticoncepcionais (Wyeth) e na produtora de armamentos BAE Systems. Sediada em Londres, esta fabrica submarinos atômicos, sistemas de mísseis e aviões de combate, entre outros equipamentos bélicos. O investimento na BAE deu-se em conjunto com o Banco Liga, igualmente ligado à Igreja.
O presidente do instituto bancário católico, Christoph Berndorff, desculpou-se publicamente: "Lamentamos e corrigiremos o erro imediatamente na segunda-feira, sem que haja prejuízo para os clientes". O presidente do conselho de administração do Banco Pax é o prior da Catedral de Colônia, Norbert Feldhoff.
UMA HISTORIA DO RECALQUE SEXUAL CRISTÃO - Bismarck Frota de Xerez
Uma história do recalque sexual cristão
Sacralizando o casal, os evangelhos celebram a sexualidade como rito íntimo. O pensamento agostiniano e o monaquismo ocidental vão em seguida reduzir o sexo ao “pecado da carne”. Uma educação culpabilizante que marcará gerações de católicos.
Essa é a opinião de Elisabeth Dufourq, doutora em ciências políticas da França, em entrevista a Jennifer Schwarz, publicada na revista Le Monde des Religions, 02-07-2009. A tradução é de Benno Dischinger.
Eis a entrevista.
O que nos dizem os evangelhos sobre a questão da sexualidade?
Jesus realiza seu primeiro milagre por ocasião de um casamento (Jo 2). As bodas de Caná são uma festa em que o vinho da felicidade deve correr em abundância. A humanidade do evangelho é sexuada e feliz de o ser. Mas, o casamento é uma festa quem implica um casamento duradouro, ainda mais definitivo do que na tradição judaica (Mt 19,4). Jesus considera o casal como gerador da humanidade (Gn l: “Homem e mulher Ele os fez... e os dois serão uma só carne.”). Por isso ele ultrapassa a Lei que admite o repúdio e denuncia principalmente a “dureza do coração” daquele ou daquela que abandona. Esta firmeza de princípio contrasta com a compaixão com a qual ele trata as mulheres esmagadas pelo rigor de uma lei sempre interpretada pelo homem. Por exemplo: Jesus salva a vida de uma mulher adúltera, arrastada para fora da cidade para ser apedrejada: “Quem jamais pecou atire a primeira pedra” (Jo 8). Implicitamente, ele recoloca o problema da falta sexual numa perspectiva de justiça. Se existe uma mulher adúltera, então houve também um homem... Ele também não condena a mulher samaritana (Jo 4) que teve cinco maridos e vive com um sexto. E é precisamente a ela que ele revela por primeira vez que ele é o Messias. Isso é ao mesmo tempo uma celebração da ternura e uma homenagem feita à mulher desprezada.
Os evangelhos evocam a questão da sexualidade de maneira mais direta?
Por pudor, o Cristo compara o Reino dos céus a um festim de núpcias, mas ele jamais fala do como da sexualidade. Ele jamais diz o que deveria ou não deveria se passar no leito dos esposos. Nos evangelhos, tudo o que é um dom gratuito deve permanecer em segredo (Mt 6): a esmola, o jejum, a prece. Um dos raros teólogos medievais que não será obsedado pelo pecado sexual, Rupert de Deutz, compara a união dos corpos à prece que se deve fazer em segredo. A sexualidade é um rito. O casal constituído é sagrado. O vizinho deve respeitá-lo, mesmo em pensamento (Mt 5, 27-28). A fortiori o homem de Deus.
Jamais falar do como da sexualidade não é uma maneira de negá-la?
Não. Mesmo Ovídio diz, na Arte de amar, que, para resguardar sua dignidade, o rito do herói devia permanecer secreto. Que o Cristo jamais fale do como da sexualidade, não é negá-la, mas humanizá-la. O amor de que falam os evangelhos engloba o Eros (o prazer de amar), mas ele o transcende com frequência em Ágape (o amor pelo outro). As bem-aventuranças (Mt 5, Lc 6) falam de felicidade, de justiça, de caridade, e não de êxtase amoroso.
São Paulo vai desempenhar um papel importante no recalque da sexualidade?
Em longo prazo, é preciso distinguir a mensagem de Paulo e sua instrumentalização. Em sua época, o porto de Corinto contava mais 10.000 prostitutas. Nos ambientes judeus helenizados, ousar-se-ia dizer “platonizados”, ao invés, a influência estóica era forte, em reação ao erotismo ambiental e desenfreado. Nesse contexto, são Paulo tem por missão implantar duradouramente comunidades na Grécia e em Roma. Ele é, pois, muito cioso por decência; os fiéis devem renunciar à fornicação, ao incesto, aos escândalos (1 Cor 5). O responsável por uma comunidade deve ser “marido de uma só mulher” (Tt 1, 6). Em termos de moral conjugal, enfim, quando Paulo escreve “Mulheres, sede submissas aos vossos maridos”, ele não escreve nada de novo no Mediterrâneo de seu tempo. Mas, quando ele diz: “Maridos, amai vossas mulheres como o Cristo amou sua igreja” (Ef 5, 22-23), ele fala de um engajamento místico realmente novo que, em seguida, será pervertido. Durante séculos e até o Código de Napoleão, o homem utilizará como um maná a fórmula paulina: “O marido é o chefe da mulher, como o Cristo é o chefe da Igreja” (Ef 5, 23).
Mais tarde, a recepção desta mensagem se dará diversamente no Império cristão do Oriente e do Ocidente...
Após a paz constantiniana (IV século), os costumes do Oriente e do Ocidente, bem cedo invadidos pelos bárbaros, se dissociam culturalmente. Muitos bispos do Oriente são casados e filhos de bispos. Eles respeitam suas mães, seus filhos e suas esposas. Porém, conceitualmente, eles admiram a virgindade porque, como bons discípulos de Platão e de Aristóteles, eles são escandalizados pelo ciclo da geração e da corrupção. Com que rima um mundo feito para se gerar e depois morrer, se gerar novamente e depois ainda morrer? Isso é um absurdo para os Padres gregos. Gregório de Nissa, embora casado, reconhece, sem o adotar, que a melhor solução seria a de permanecer virgem. Mas, com humor, ele julga suspeitos aqueles que falam dos esplendores da virgindade com estranha obstinação. Os Padres filósofos são felizes em família, mas eles gostariam que o essencial da vida consistisse em elevar-se acima do terrestre moral, até a pureza dos anjos. Um escrito apócrifo de fins do século quinto, atribuído a Dionísio Areopagita, descreve assim as ascensões até Deus da alma purificada. Sua influência sobre a Idade Média oriental e ocidental será considerável. Em sua pureza de intenção, ele permite compreender a espiritualidade do monge.
No Ocidente é a influência de Santo Agostinho que vai desempenhar um papel determinante. Qual foi sua especificidade?
Africano de origem, numa época em que a implantação do cristianismo é forte na África romana, Agostinho somente se converte tardiamente, após ter conduzido exitosamente uma carreira de retórico que o conduzirá a Milão, então capital do império do Ocidente. Desde seus anos de estudos em Cartago, ele guarda a lembrança de uma vida de devassidão, levada até o desgosto e à rejeição das mulheres. Compartilhada entre sua admiração por sua mãe, santa Mônica, e seu apego a uma companheira que participará de sua vida durante quatorze anos e lhe dará um filho – mas do qual ele nem sequer cita o nome -, ele também fica fascinado e ao mesmo tempo horrorizado pelo maniqueísmo, do qual ele só se livrou na idade de 28 anos; o homem, admitiu ele por longo tempo, não domina as forças do bem e do mal. Desde o pecado original, pensa ele, num contexto de invasão bárbara, a humanidade está em perigo de condenação iminente. A mulher é a causa, já que Eva colheu a maçã por primeiro. Uma vez que o Cristo jamais fala do pecado de Eva, Agostinho inscreve este pecado quase geneticamente na natureza humana e, mais gravemente, na natureza da mulher. Esta certeza, ancorada no pensamento medieval, será dogmatizada por uma longa série de teólogos, desde santo Anselmo, no século doze, até são Tomás que, no século treze, reforçará este preconceito pela doutrina da lei natural, sobre a qual os teólogos cristãos não terão nenhuma dificuldade em estar de acordo com os do islã, já que uns e os outros, todos masculinos, se referirão ao segundo relato do Gênesis.
A influência intelectual de Agostinho vai, então, marca o Ocidente de maneira indelével?
Santo Agostinho escreveu imensamente, num belíssimo latim. Sua obra será minuciosamente recolhida e mais tarde recopiada pelos monges beneditinos. É assim que sua influência se estenderá sobre toda a era do primeiro monaquismo beneditino, até a virada dos séculos nono e décimo, no momento da reforma que triunfa na abadia beneditina de Cluny.
Qual sua relação com a sexualidade?
Malgrado as advertências conciliares, o clero da primeira Idade Média ocidental está longe de ter o desapego dos anjos. No momento das invasões normandas e dos assaltos sarracenos, numerosos bispos casados são capitães de guerra, defensores armados de suas cidades. Transmitidos aos seus filhos, seus bispados se tornam feudos hereditários e militares. A própria Roma está nas mãos de papas mais ou menos guerreiros, submetidos à influência de suas amantes ou de suas mães. É em reação a isso que triunfa a reforma de Cluny. A obra de Cluny será imensa, porém ao preço do sacrifício da mulher. Casto, o monge beneditino não o é sempre em pensamento, já que ele encara a mulher com horror e fascinação. Um século mais tarde, a reforma cisterciense se apresenta ainda mais radical. Os escritos sobre as mulheres, não somente misóginos, porém mórbidos, traduzem à evidência as frustrações dos monges que reprimem sua sexualidade. Malgrado isso, o sucesso das ordens monásticas é tal que no século onze o papa Gregório VII decide organizar a igreja ocidental como um grande mosteiro. Dali em diante, bispos e curas costumam rejeitar suas esposas e viver comunidade. Esta reforma levará décadas e séculos para se impor.
Em fins do século XII, por uma espécie de sublimação, a imagem da Virgem aparece...
Sim. Atingimos a época das cruzadas. Paradoxalmente, são Bernardo, o grande reformador cisterciense, que se insurge contra o laxismo dos padres, é também o gênio que inventa uma prece de ternura: a Ave Maria. No meio dos clérigos que desvalorizam a mulher de todos os dias, o ideal feminino é nela sublimado. Enquanto no Oriente ortodoxo, a Virgem representa a humanidade inteira conduzindo Deus, a Theótokos, no Ocidente nasce e adquire seu destaque a imagem da “Imaculada Conceição”, acolhedora porém nascida diferente de todas as outras mulheres. Rapidamente a igreja institucional se identifica com a Virgem Maria, mãe de Deus, mãe do Cristo, mãe do povo, coroada nos pórticos das catedrais. Na tradição católica esta concepção durará até sua dogmatização em meados do século vinte. Na tradição reformada, Lutero denunciará um risco de idolatria mariana, sem refutar a virgindade do coração que permite acolher o milagre de um Deus encarnado.
Chegamos aos momentos trágicos que seguem a peste negra, as misérias da guerra de Cem anos, o avanço inexorável do islã e depois a queda de Constantinopla. Uma neurose coletiva parece tomar conta de certos clérigos, que tomam as mulheres por alvos de seus ódios. Por quê?
Muitos clérigos vivem então em círculos universitários cada vez mais fechados e fundamentalistas. O que está fora da norma deve ser erradicado. A Inquisição, implantada no século XIII para lutar contra as heresias encara com horror os saberes das mulheres. A mesma se baseia numa idéia da razão, haurida de uma péssima transmissão das categorias de Aristóteles. Já há séculos os homens temiam as sábias-mulheres, herboristas capazes de transmitir por via oral os segredos de filtros de amor ou de esterilidade. Os lugares de transmissão feminina, os lavatórios, as árvores mágicas, os lugares de parto, eram tabus para o homem. Somente os confessores obtinham eco de seus segredos herdados de antigos saberes romanos ou pré-históricos. Crendo cristianizar os campos, eles os condenavam como superstições e, a partir do século XIV os próprios papas acreditam na fábula dos sábados de bruxas. Formam-se, então, experts em demonologia, inexoravelmente lógicos a partir de postulados absurdos. Sabe-se que devastações provocaram esses ódios – cuja perversão sexual é por vezes evidente – e que número assustador de fogueiras foram armadas em todas as confissões cristãs – católicas, ortodoxas e reformadas – e isso até meados do século dezoito!
Pai da reforma protestante, Lutero é considerado como um emancipador. Não obstante, o luteranismo parece por vezes mais severo do que o catolicismo; pode explicar esta contradição aparente? Em sua origem, Lutero é um monge agostiniano obsedado pela idéia do inferno. Ele não crê no purgatório, essa espécie de “sessão de recuperação” que, graças à indulgência divina, permite esperar um acesso diferido ao Paraíso, após anos de purificação. Amoedando os anos de indulgência de maneira odiosa, o papado de seu tempo arruinou esta idéia de justiça misericordiosa. Tornado emancipador dos crédulos, Lutero, uma vez casado, se encontra suplantado pela amplitude da revolução que ele desencadeou. Calvino, por sua vez, organiza a reforma genebrina de maneira muito rigorista, em torno do conceito agostiniano de predestinação das almas ao inferno.
E no século XVII?
Na confissão católica, uma corrente jansenista, rigorista e amplamente burguesa cultiva também a angústia da predestinação. Um século mais tarde, este movimento adquire amplitude em pleno período das Luzes e de uma libertinagem na qual as crianças abandonadas pagam as custas aos milhares. Entre esses extremos, o próprio Voltaire o admite, o cura de campanha desempenha com muita frequência o papel de moderador. É ele que preside os batismos e os ritos de remissão [relevailles] das mulheres. Embora o segredo de confissão não seja traído, tudo nos diz que ele conhecia os sofrimentos das mulheres rasgadas em partos, daquelas que enterram um feto nos campos ou que, na cidade, abandonam seus bebês nos degraus das igrejas. Os registros paroquiais mostram que dessa época datam os primeiros sintomas de espaçamento voluntário dos nascimentos. Esse modus vivendi parece ter se mantido de qualquer jeito em muitas regiões rurais até meados do século vinte, e isso malgrado o respeito de muito bom grado prestado pela igreja às famílias numerosas que lhe davam mais filhos como sacerdotes ou religiosas.
E depois?
Hoje em dia se mensura mal até que ponto as mulheres do século dezenove, e mesmo de inícios do século vinte, foram esmagadas por uma educação culpabilizante que ultrapassava em muito o domínio da sexualidade. Sem mesmo evocar o “pecado da carne”, tão assustador que eles se calam e se resguardam de citar a Bíblia que fala dele, os missais para uso das mulheres não cessam de dizer que comungar em estado de pecado é assinar sua condenação eterna. Os maridos se defendem pela incredulidade e infidelidade, mas, pelo menos no ambiente burguês, as mulheres tem poucas escapatórias. A abnegação e o sacrifício são apresentados como florões de suas virtudes “naturais”.
A revolução da sexualidade no coração dos casais de tradição cristã não veio da igreja, mas da medicina. Ela data da descoberta do ciclo hormonal feminino, nos anos 1930 e depois, em 1955, da síntese química dos hormônios permitindo à mulher escapar do elo inexorável entre a união dos corpos e a fecundação de um óvulo. Por temor de que ela não controle e por vezes não entenda, a igreja católica, diversamente das igrejas reformadas, se engaja então numa via que autoriza a dissociação entre a sexualidade e a procriação, mas na condição de empregar métodos decretados como naturais... e de uma ineficácia notória. Duas décadas após a Humanae Vitae, publicada em julho de 1968, a maioria dos casais católicos já haviam feito sua escolha. Eles haviam abandonado o médico das almas para consultar o médico dos corpos e, se fosse preciso, o psicanalista. Esta mudança foi capital para a igreja, que perdeu a antiga proximidade que ela mantinha com as famílias. O erro da Humanae Vitae foi, me parece, o de haver tentado introduzir um Diafragma nos milhões de quartos de esposos. A atitude cristã é antes a de sacralizar o casal, responsabilizando-o.
Para ler mais:
A Igreja abençoa o pecado
Os componentes do amor e a satisfação com o relacionamento conjugal
Amar não é pecado
Celibato, sexualidade e amor
Sexo como Deus manda
“A mudança nos paradigmas da família reflete-se nos vínculos de parentalidade”
Sacralizando o casal, os evangelhos celebram a sexualidade como rito íntimo. O pensamento agostiniano e o monaquismo ocidental vão em seguida reduzir o sexo ao “pecado da carne”. Uma educação culpabilizante que marcará gerações de católicos.
Essa é a opinião de Elisabeth Dufourq, doutora em ciências políticas da França, em entrevista a Jennifer Schwarz, publicada na revista Le Monde des Religions, 02-07-2009. A tradução é de Benno Dischinger.
Eis a entrevista.
O que nos dizem os evangelhos sobre a questão da sexualidade?
Jesus realiza seu primeiro milagre por ocasião de um casamento (Jo 2). As bodas de Caná são uma festa em que o vinho da felicidade deve correr em abundância. A humanidade do evangelho é sexuada e feliz de o ser. Mas, o casamento é uma festa quem implica um casamento duradouro, ainda mais definitivo do que na tradição judaica (Mt 19,4). Jesus considera o casal como gerador da humanidade (Gn l: “Homem e mulher Ele os fez... e os dois serão uma só carne.”). Por isso ele ultrapassa a Lei que admite o repúdio e denuncia principalmente a “dureza do coração” daquele ou daquela que abandona. Esta firmeza de princípio contrasta com a compaixão com a qual ele trata as mulheres esmagadas pelo rigor de uma lei sempre interpretada pelo homem. Por exemplo: Jesus salva a vida de uma mulher adúltera, arrastada para fora da cidade para ser apedrejada: “Quem jamais pecou atire a primeira pedra” (Jo 8). Implicitamente, ele recoloca o problema da falta sexual numa perspectiva de justiça. Se existe uma mulher adúltera, então houve também um homem... Ele também não condena a mulher samaritana (Jo 4) que teve cinco maridos e vive com um sexto. E é precisamente a ela que ele revela por primeira vez que ele é o Messias. Isso é ao mesmo tempo uma celebração da ternura e uma homenagem feita à mulher desprezada.
Os evangelhos evocam a questão da sexualidade de maneira mais direta?
Por pudor, o Cristo compara o Reino dos céus a um festim de núpcias, mas ele jamais fala do como da sexualidade. Ele jamais diz o que deveria ou não deveria se passar no leito dos esposos. Nos evangelhos, tudo o que é um dom gratuito deve permanecer em segredo (Mt 6): a esmola, o jejum, a prece. Um dos raros teólogos medievais que não será obsedado pelo pecado sexual, Rupert de Deutz, compara a união dos corpos à prece que se deve fazer em segredo. A sexualidade é um rito. O casal constituído é sagrado. O vizinho deve respeitá-lo, mesmo em pensamento (Mt 5, 27-28). A fortiori o homem de Deus.
Jamais falar do como da sexualidade não é uma maneira de negá-la?
Não. Mesmo Ovídio diz, na Arte de amar, que, para resguardar sua dignidade, o rito do herói devia permanecer secreto. Que o Cristo jamais fale do como da sexualidade, não é negá-la, mas humanizá-la. O amor de que falam os evangelhos engloba o Eros (o prazer de amar), mas ele o transcende com frequência em Ágape (o amor pelo outro). As bem-aventuranças (Mt 5, Lc 6) falam de felicidade, de justiça, de caridade, e não de êxtase amoroso.
São Paulo vai desempenhar um papel importante no recalque da sexualidade?
Em longo prazo, é preciso distinguir a mensagem de Paulo e sua instrumentalização. Em sua época, o porto de Corinto contava mais 10.000 prostitutas. Nos ambientes judeus helenizados, ousar-se-ia dizer “platonizados”, ao invés, a influência estóica era forte, em reação ao erotismo ambiental e desenfreado. Nesse contexto, são Paulo tem por missão implantar duradouramente comunidades na Grécia e em Roma. Ele é, pois, muito cioso por decência; os fiéis devem renunciar à fornicação, ao incesto, aos escândalos (1 Cor 5). O responsável por uma comunidade deve ser “marido de uma só mulher” (Tt 1, 6). Em termos de moral conjugal, enfim, quando Paulo escreve “Mulheres, sede submissas aos vossos maridos”, ele não escreve nada de novo no Mediterrâneo de seu tempo. Mas, quando ele diz: “Maridos, amai vossas mulheres como o Cristo amou sua igreja” (Ef 5, 22-23), ele fala de um engajamento místico realmente novo que, em seguida, será pervertido. Durante séculos e até o Código de Napoleão, o homem utilizará como um maná a fórmula paulina: “O marido é o chefe da mulher, como o Cristo é o chefe da Igreja” (Ef 5, 23).
Mais tarde, a recepção desta mensagem se dará diversamente no Império cristão do Oriente e do Ocidente...
Após a paz constantiniana (IV século), os costumes do Oriente e do Ocidente, bem cedo invadidos pelos bárbaros, se dissociam culturalmente. Muitos bispos do Oriente são casados e filhos de bispos. Eles respeitam suas mães, seus filhos e suas esposas. Porém, conceitualmente, eles admiram a virgindade porque, como bons discípulos de Platão e de Aristóteles, eles são escandalizados pelo ciclo da geração e da corrupção. Com que rima um mundo feito para se gerar e depois morrer, se gerar novamente e depois ainda morrer? Isso é um absurdo para os Padres gregos. Gregório de Nissa, embora casado, reconhece, sem o adotar, que a melhor solução seria a de permanecer virgem. Mas, com humor, ele julga suspeitos aqueles que falam dos esplendores da virgindade com estranha obstinação. Os Padres filósofos são felizes em família, mas eles gostariam que o essencial da vida consistisse em elevar-se acima do terrestre moral, até a pureza dos anjos. Um escrito apócrifo de fins do século quinto, atribuído a Dionísio Areopagita, descreve assim as ascensões até Deus da alma purificada. Sua influência sobre a Idade Média oriental e ocidental será considerável. Em sua pureza de intenção, ele permite compreender a espiritualidade do monge.
No Ocidente é a influência de Santo Agostinho que vai desempenhar um papel determinante. Qual foi sua especificidade?
Africano de origem, numa época em que a implantação do cristianismo é forte na África romana, Agostinho somente se converte tardiamente, após ter conduzido exitosamente uma carreira de retórico que o conduzirá a Milão, então capital do império do Ocidente. Desde seus anos de estudos em Cartago, ele guarda a lembrança de uma vida de devassidão, levada até o desgosto e à rejeição das mulheres. Compartilhada entre sua admiração por sua mãe, santa Mônica, e seu apego a uma companheira que participará de sua vida durante quatorze anos e lhe dará um filho – mas do qual ele nem sequer cita o nome -, ele também fica fascinado e ao mesmo tempo horrorizado pelo maniqueísmo, do qual ele só se livrou na idade de 28 anos; o homem, admitiu ele por longo tempo, não domina as forças do bem e do mal. Desde o pecado original, pensa ele, num contexto de invasão bárbara, a humanidade está em perigo de condenação iminente. A mulher é a causa, já que Eva colheu a maçã por primeiro. Uma vez que o Cristo jamais fala do pecado de Eva, Agostinho inscreve este pecado quase geneticamente na natureza humana e, mais gravemente, na natureza da mulher. Esta certeza, ancorada no pensamento medieval, será dogmatizada por uma longa série de teólogos, desde santo Anselmo, no século doze, até são Tomás que, no século treze, reforçará este preconceito pela doutrina da lei natural, sobre a qual os teólogos cristãos não terão nenhuma dificuldade em estar de acordo com os do islã, já que uns e os outros, todos masculinos, se referirão ao segundo relato do Gênesis.
A influência intelectual de Agostinho vai, então, marca o Ocidente de maneira indelével?
Santo Agostinho escreveu imensamente, num belíssimo latim. Sua obra será minuciosamente recolhida e mais tarde recopiada pelos monges beneditinos. É assim que sua influência se estenderá sobre toda a era do primeiro monaquismo beneditino, até a virada dos séculos nono e décimo, no momento da reforma que triunfa na abadia beneditina de Cluny.
Qual sua relação com a sexualidade?
Malgrado as advertências conciliares, o clero da primeira Idade Média ocidental está longe de ter o desapego dos anjos. No momento das invasões normandas e dos assaltos sarracenos, numerosos bispos casados são capitães de guerra, defensores armados de suas cidades. Transmitidos aos seus filhos, seus bispados se tornam feudos hereditários e militares. A própria Roma está nas mãos de papas mais ou menos guerreiros, submetidos à influência de suas amantes ou de suas mães. É em reação a isso que triunfa a reforma de Cluny. A obra de Cluny será imensa, porém ao preço do sacrifício da mulher. Casto, o monge beneditino não o é sempre em pensamento, já que ele encara a mulher com horror e fascinação. Um século mais tarde, a reforma cisterciense se apresenta ainda mais radical. Os escritos sobre as mulheres, não somente misóginos, porém mórbidos, traduzem à evidência as frustrações dos monges que reprimem sua sexualidade. Malgrado isso, o sucesso das ordens monásticas é tal que no século onze o papa Gregório VII decide organizar a igreja ocidental como um grande mosteiro. Dali em diante, bispos e curas costumam rejeitar suas esposas e viver comunidade. Esta reforma levará décadas e séculos para se impor.
Em fins do século XII, por uma espécie de sublimação, a imagem da Virgem aparece...
Sim. Atingimos a época das cruzadas. Paradoxalmente, são Bernardo, o grande reformador cisterciense, que se insurge contra o laxismo dos padres, é também o gênio que inventa uma prece de ternura: a Ave Maria. No meio dos clérigos que desvalorizam a mulher de todos os dias, o ideal feminino é nela sublimado. Enquanto no Oriente ortodoxo, a Virgem representa a humanidade inteira conduzindo Deus, a Theótokos, no Ocidente nasce e adquire seu destaque a imagem da “Imaculada Conceição”, acolhedora porém nascida diferente de todas as outras mulheres. Rapidamente a igreja institucional se identifica com a Virgem Maria, mãe de Deus, mãe do Cristo, mãe do povo, coroada nos pórticos das catedrais. Na tradição católica esta concepção durará até sua dogmatização em meados do século vinte. Na tradição reformada, Lutero denunciará um risco de idolatria mariana, sem refutar a virgindade do coração que permite acolher o milagre de um Deus encarnado.
Chegamos aos momentos trágicos que seguem a peste negra, as misérias da guerra de Cem anos, o avanço inexorável do islã e depois a queda de Constantinopla. Uma neurose coletiva parece tomar conta de certos clérigos, que tomam as mulheres por alvos de seus ódios. Por quê?
Muitos clérigos vivem então em círculos universitários cada vez mais fechados e fundamentalistas. O que está fora da norma deve ser erradicado. A Inquisição, implantada no século XIII para lutar contra as heresias encara com horror os saberes das mulheres. A mesma se baseia numa idéia da razão, haurida de uma péssima transmissão das categorias de Aristóteles. Já há séculos os homens temiam as sábias-mulheres, herboristas capazes de transmitir por via oral os segredos de filtros de amor ou de esterilidade. Os lugares de transmissão feminina, os lavatórios, as árvores mágicas, os lugares de parto, eram tabus para o homem. Somente os confessores obtinham eco de seus segredos herdados de antigos saberes romanos ou pré-históricos. Crendo cristianizar os campos, eles os condenavam como superstições e, a partir do século XIV os próprios papas acreditam na fábula dos sábados de bruxas. Formam-se, então, experts em demonologia, inexoravelmente lógicos a partir de postulados absurdos. Sabe-se que devastações provocaram esses ódios – cuja perversão sexual é por vezes evidente – e que número assustador de fogueiras foram armadas em todas as confissões cristãs – católicas, ortodoxas e reformadas – e isso até meados do século dezoito!
Pai da reforma protestante, Lutero é considerado como um emancipador. Não obstante, o luteranismo parece por vezes mais severo do que o catolicismo; pode explicar esta contradição aparente? Em sua origem, Lutero é um monge agostiniano obsedado pela idéia do inferno. Ele não crê no purgatório, essa espécie de “sessão de recuperação” que, graças à indulgência divina, permite esperar um acesso diferido ao Paraíso, após anos de purificação. Amoedando os anos de indulgência de maneira odiosa, o papado de seu tempo arruinou esta idéia de justiça misericordiosa. Tornado emancipador dos crédulos, Lutero, uma vez casado, se encontra suplantado pela amplitude da revolução que ele desencadeou. Calvino, por sua vez, organiza a reforma genebrina de maneira muito rigorista, em torno do conceito agostiniano de predestinação das almas ao inferno.
E no século XVII?
Na confissão católica, uma corrente jansenista, rigorista e amplamente burguesa cultiva também a angústia da predestinação. Um século mais tarde, este movimento adquire amplitude em pleno período das Luzes e de uma libertinagem na qual as crianças abandonadas pagam as custas aos milhares. Entre esses extremos, o próprio Voltaire o admite, o cura de campanha desempenha com muita frequência o papel de moderador. É ele que preside os batismos e os ritos de remissão [relevailles] das mulheres. Embora o segredo de confissão não seja traído, tudo nos diz que ele conhecia os sofrimentos das mulheres rasgadas em partos, daquelas que enterram um feto nos campos ou que, na cidade, abandonam seus bebês nos degraus das igrejas. Os registros paroquiais mostram que dessa época datam os primeiros sintomas de espaçamento voluntário dos nascimentos. Esse modus vivendi parece ter se mantido de qualquer jeito em muitas regiões rurais até meados do século vinte, e isso malgrado o respeito de muito bom grado prestado pela igreja às famílias numerosas que lhe davam mais filhos como sacerdotes ou religiosas.
E depois?
Hoje em dia se mensura mal até que ponto as mulheres do século dezenove, e mesmo de inícios do século vinte, foram esmagadas por uma educação culpabilizante que ultrapassava em muito o domínio da sexualidade. Sem mesmo evocar o “pecado da carne”, tão assustador que eles se calam e se resguardam de citar a Bíblia que fala dele, os missais para uso das mulheres não cessam de dizer que comungar em estado de pecado é assinar sua condenação eterna. Os maridos se defendem pela incredulidade e infidelidade, mas, pelo menos no ambiente burguês, as mulheres tem poucas escapatórias. A abnegação e o sacrifício são apresentados como florões de suas virtudes “naturais”.
A revolução da sexualidade no coração dos casais de tradição cristã não veio da igreja, mas da medicina. Ela data da descoberta do ciclo hormonal feminino, nos anos 1930 e depois, em 1955, da síntese química dos hormônios permitindo à mulher escapar do elo inexorável entre a união dos corpos e a fecundação de um óvulo. Por temor de que ela não controle e por vezes não entenda, a igreja católica, diversamente das igrejas reformadas, se engaja então numa via que autoriza a dissociação entre a sexualidade e a procriação, mas na condição de empregar métodos decretados como naturais... e de uma ineficácia notória. Duas décadas após a Humanae Vitae, publicada em julho de 1968, a maioria dos casais católicos já haviam feito sua escolha. Eles haviam abandonado o médico das almas para consultar o médico dos corpos e, se fosse preciso, o psicanalista. Esta mudança foi capital para a igreja, que perdeu a antiga proximidade que ela mantinha com as famílias. O erro da Humanae Vitae foi, me parece, o de haver tentado introduzir um Diafragma nos milhões de quartos de esposos. A atitude cristã é antes a de sacralizar o casal, responsabilizando-o.
Para ler mais:
A Igreja abençoa o pecado
Os componentes do amor e a satisfação com o relacionamento conjugal
Amar não é pecado
Celibato, sexualidade e amor
Sexo como Deus manda
“A mudança nos paradigmas da família reflete-se nos vínculos de parentalidade”
PROPORCIONALISMO - Bismarck Frota de Xerez

O Estado de São Paulo com 40 milhões de habitantes tem 6343 vereadores. Estado com cidades populosas, cidades ricas.
Os restantes 44 mil vereadores do continente brasileiro estao distribuidos nos mais de 5000 munucipios do resto.
Resto mesmo, cada biboca consumindo recursos para manter prefeitos, secretariado e vereadores.
É obvia a DESPROPORÇÃO, o Estado mais rico, com população concentrada, tem mais de 20% da população nacional e tem menos de 15% dos vereadores.
Algo está errado e custa caro, muito mais caro do que o Sarney empregar a familia toda com todos os namorados e amantes.
ESTES MUNICIPIOS NÃO TÊM ARRECADAÇÃO QUE PAGUE SEU PREFEITO, SEU SECRETARIADO E SUA CAMARA MUNICIPAL.
SÃO MUNCIPIOS NA MAIORIA QUE VIVEM DO FUNDO DE PARTICIPAÇÃO MUNICIPAL (FPM), ONDE TODOS NÓS OS QUE PRODUZIMOS COLOCAMOS NOSSOS IMPOSTOS.
E SOMOS NÓS QUE SUSTENTAMOS NÃO SÓ A FAMILIA SARNEY, PÓREM FAMILIAS TÃO VORAZES QUANTO A SARNEY, POIS O COMPORTAMENTO DAS FAMILIAS DO PATRICIADO SÃO COMPORTAMENTALMENTE EXATAMENTE IGUAIS, NOS TRES PODERES.
não esqueçamos o probo juiz Alirio Cavalieri do Rio que manteve sua esposa 30 anos sem concurso. Este meretrissimo usa bigode semelhante ao do Sarney.
NOSSO ALVO DEVE SER A ESTRUTURA INSTITUCIONAL QUE POSSIBILITA O PATRICIADO SE APOSSAR DO ESTADO BRASILEIRO
retirar Sarney deixando INTOCAVEL A ESTRUTURA PATRIMONIALISTA DO ESTADO BRASILEIRO dá satisfação à classe média.
mas não resolve o problema na raiz.
Em estatistica as médias tendem à mediocridade.
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