sexta-feira, 22 de maio de 2009

Caminhava...Barbet



Caminhava em manhã bem cedo e o aroma úmido do solo invadia-me a alma; aquele cheiro gostoso do final de noite, a lua a se esconder por entre as paragens; uma simpática e bucólica rua cheia de árvores e algumas singelas flores; o sol ainda tímido não se mostrava. Seguia sozinha rumo a uma casa, diga-se de passagem, uma bela casa, três pisos, estilo colonial com uma grande piscina e jardins; o escuro ainda persistia no cenário; entrei sem nenhuma dificuldade, era uma casa de festas e estava em plena atividade.

Para minha surpresa aquela era a minha casa, uma sensação estranha tomou-me o coração; já respirava com dificuldade; fui impelida a rapidamente ir ao terceiro piso, o elevador tinha um clima pesado, modelo antigo, sufocante e frio.
Por alguma razão tinha que achar minha mãe, também pensei em meus dois pequeninos filhos; a encontrei desfalecida, peguei-a no colo sem nenhuma dificuldade e minha preocupação era tirá-la dali; quando no segundo andar deparei com um estranho carrossel (estranho estar dentro de casa) não me dei tempo para tentar entender, afinal sabia que não o tinha; como haviam pessoas perguntei se alguém a poderia ajudar ao que um homem sarcasticamente me disse: - “nenhum dinheiro do mundo poderá”.
Mais do que rápido desci o resto das escadas que faltavam sempre a carregando, sai da casa e a coloquei delicadamente no carro que já me esperava com meus filhos e marido.
Saímos…
Novamente voltei ao cenário da rua, sozinha, ainda não havia amanhecido. O aroma era o mesmo, o tempo parecia teimar em continuar parado. Lembro ter passado por um carro, alguém estava a chegar, era um casal, a moça me fixou o olhar e sorriu, fez-me pensar em minha filha.
Eu andava como que a vagar, a paz voltou ao meu coração, houve uma mistura ou esquecimento dos fatos ocorridos há pouco; agora conscientemente ia em direção a minha casa, a mesma do pesadelo anterior; para total surpresa e espanto bem no local onde ela deveria estar nada lá encontrei, mas era lá eu tinha certeza! Vi uma mulher a me olhar, gritar e gargalhar: - “A sua casa não existe mais e bruxa agora é você”!
Acordei muito assustada, levantei e corri para a janela. Era o mesmo aroma, cor, hora e momento do sonho que eu acabara de ter. Fora um Pesadelo…
Depois desta noite, muita coisas aconteceu em minha vida inclusive a perda de minha mãe.
Ainda moro nesta mesma casa…
Barbet

DEUS ESTÁ FALANDO COM VOCÊ!!! - Terra Sem Males


Um homem sussurou: Deus fale comigo.
E um rouxinol começou a cantar
Mas o homem não ouviu.

Então o homem repetiu:
Deus fale comigo!
E um trovão ecoou nos céus
Mas o homem foi incapaz de ouvir.

O Homem olhou em volta e disse:
Deus deixe-me vê-lo
E uma estrela brilhou no céu
Mas o homem não a notou.

O homem começou a gritar:
Deus mostre-me um milagre
E uma criança nasceu
Mas o homem não sentiu o pulsar da vida.

Então o homem começou a chorar e a se desesperar:
Deus toque-me e deixe-me sentir que você está aqui comigo...
E uma borboleta pousou suavemente
Em seu ombro
O homem espantou a borboleta com a mão e desiludido
Continou o seu caminho triste, sozinho e com medo.

A FORÇA DA VIDA - Barbet


mesmo quando nos vamos
por raiva ou por covardia
por um amor inconsolável
mesmo quando em casa é o pior lugar pra se viver
e você chora e não sabe o que quer
acredite, há uma força dentro de nós, meu amor
mais forte do que um relâmpago
do que este mundo louco e inútil
é mais forte do que uma morte incompreensível
e do que esta saudade que nunca nos abandona


quando você tocar o fundo com os dedos
de repente sentirá a força da vida
que o trará consigo
amor, você não sabe
você verá que há uma saída

mesmo quando você come com dor
e no silêncio sente o coração
como um barulho insuportável
e não quer se levantar
e o mundo está inatingível
e mesmo quando a esperança
já não for suficiente

há uma vontade que esta morte desafia
é a nossa dignidade, a força da vida
que não se pergunta nunca o que é a eternidade
ainda que haja quem a ofenda
ou quem lhe venda o além.

quando você sentir que a segura entre seus dedos
você a reconhecerá, a força da vida
que o trará consigo
não se deixe partir jamais
não me deixe sem você

mesmo dentro das prisões
da nossa hipocrisia
mesmo no fundo dos hospitais
na nova doença
há uma força que cuida de você
e que você reconhecerá
é a força mais teimosa que há em nós
que sonha e nunca se rende

é a vontade
mais frágil e infinita
a nossa dignidade
a força da vida
meu amor, é a força da vida
que não se pergunta nunca
o que é a eternidade
mas que luta todo dia do nosso lado
enquanto não terminar

quando você sentir
que a segura entre seus dedos
você a reconhecerá
a força da vida

a força está dentro de nós
meu amor, cedo ou tarde, você a sentirá
a força da vida
que o trará consigo
que sussurra suavemente:
"veja quanta vida ainda há!"

* * *

A GUERRA ENTRE OS GALIBIS E OS PALIKUR - Ir Alberto


Os indios em seu estado natural eram analfabetos. Entretanto eles cultivam a sua história através da tradição oral. Os mais velhos contam para os mais novos tudo o que aconteceu na tribo.

Os galibis sempre foram uma nação formada por pessoas dóceis. Nunca fizeram guerras a vizinhos. Jamais praticaram um único pecado contra Deus e um único crime contra o próximo .Nunca tiveram escrituras sagradas e nem profetas. Nunca fizeram guerra de conquista

Entretanto o Gilberto Adamatis, estudioso e admirador da civilização galibi , como eu, conseguiu encontrar um trabalho de um antropólogo que conta que os Galibis guerrearam com os Palikur lá pelos anos 1.600. DC Sintese da materia está acima.

Mas é apenas uma hipótese e se verdadeira há várias versões que nao cabe aqui discorrer. Talvez em outro e-mail eu ou o Gilberto façamos.

Mas esta guerra teria mesmo ocorrido ? E se verdadeira, como fica a história que os galibis viveram doze mil anos sem cometer um unico pecado contra Deus e nenhum crime contra o próximo. Se guerra houve, com certeza os galibis derramaram sangue do inimigo e este deles. A afirmação de que os galibis nunca tiveram inimigos vem por terra. É destruida.

A versão do Irmão Alberto, que não tem a pretensão de ser a unica verdadeira.

"Os indios praticam esportes como nós brancos. E um dos esportes dos indios é simular uma guerra entre duas tribos vizinhas , de modo geral de etinias diferentes. Julgo que ai está a resposta para esta "guerra". Uma guerra esportiva, sem sangue. Isto fazem os filhotes de leões , de tigres, de leões marinhos etc. Os irmãos lutam entre si para se prepararem para enfrentar seus predadores. Os indios realizavam este esporte com o fim de adestrarem os guerreios. Não havia mortes, não havia derrame de uma gota de sangue.

Concluida a luta , todos participam de uma grande festa em ambiente de total fraternidade.

Para um branco entender isto pode ser dificil Mas para o homem selvagem não.

Vamos fazer um exercício de memoria

Um indio galibi vem até uma cidade e é levado a assistir uma luta de box. Ele vê dois brancos se batendo, as vezes até tirando sangue um do outro. Até que um dá um grande murro no outro ( nock out) prostrando -o ao solo. A luta acabou.

Se disserem ao indio galibi que aquilo é um esporte , que antes e depois da luta, os lutadores são amigos, que fazem isto para entreter o publico e ganhar uma bolsa , ele não entenderá.

A impressão que levará para seus compatriotas é que o homem branco é um " selvagem" , um ser perverso, que bate e machuca o seu próximo. Que desrespeita as leis do Grande Espirito que manda amar o proximo, não feri-lo, não lhe bater.

Esta é minha versão para a guerra entre os palikur e os galibis. que teria ocorrido no longinquo seculo XVI. Esta guerra nunca
aconteceu

Se me fosse dado o direito de dizer se é o povo de de Israel ou o galibi o povo escolhido por Deus eu diria sem nenhuma dificuldade , que era o povo galibi. Contra os galibis pesa que tiveram uma unica guerra no ano de 1.600 . Já os judeus desde que foram fundados por Abrahão ha quatro mil anos atras não passaram um unico ano sem guerrear com vizinhos.

Pensemos nisto

Ir alberto







A DEMOCRACIA CRISTÃ, OCIDENTAL E CAPITALISTA - Laerte Braga


Novas fotos da jovem. O jornal não diz se antes ou depois
Essa é Alina Percea em foto onde exibe seu júbilo e alegria por um bom “negócio”
Um fiscal alemão que quis manter seu nome oculto disse ao jornal inglês que “ela vai ter que pagar ao fisco. Segundo ele a “perda da virgindade negociada nessas condições equivale a prostituição”. “Isso não é ilegal em nosso país, mas não pagar impostos sobre os ganhos é”.
Na cabeça dele, segundo a legislação alemã, a moça pode terminar com apenas três mil libras, mais ou menos nove mil e quinhentos reais. “Quando tivermos os dados brutos poderemos fazer uma avaliação rigorosa”. Essa declaração é de um porta voz da Inland Revenue – receita pública –.

No mundo cristão, ocidental e capitalista, que exporta democracia para o Iraque, o Afeganistão, ameaça o Irã, prende, tortura e mata palestinos importantes são os “negócios”. Estão assentados, em suas mais variadas formas, ao lado direito do deus mercado.
E Alina não foi a primeira. Carys Copestake, também de 18 anos, vendeu sua virgindade por 10 mil libras. Rosie Reid, mesma idade, britânica, súdita de sua majestade Eizabeth II cobrou oito mil e quatrocentas libras. Todas para pagar universidades privadas e concluírem seus cursos, habilitando-se a negócios outros mais à frente, na lógica cristã, ocidental e capitalista.

Já na Meca do capitalismo, nos EUA, Natalie Dylan leiloou sua virgindade por algo em torno de três milhões de dólares. Natalie disse à imprensa que decidiu tomar essa atitude ao saber que sua irmã Avia, de 23 anos, pagou os estudos trabalhando durante três semanas como prostituta. Natalie Dylan é pseudônimo, mas a foto da moça está na rede mundial de computadores.

É possível fazer esse tipo de negócio em países africanos, asiáticos e sul americanos – sobretudo no Nordeste do Brasil – por bem menos. No máximo 10 dólares e dependendo da fome da vendedora até por um prato de comida. São as diferenças entre o primeiro mundo e os outros mundos.

E a disparidade entre os preços no mercado europeu e norte-americano está na incomensurável riqueza dos EUA graças a São McDonalds.

O presidente Barak Obama anunciou que não vai exibir as cenas de tortura, estupros e toda a sorte de barbáries cometidas por soldados de seu país em prisões do Iraque, do Afeganistão e em Guantánamo, para “não aumentar o anti americanismo existente no mundo desde as políticas do governo anterior”. Assentou em cima da grita republicana, também em nome da democracia cristã e ocidental, do capitalismo, no combate ao “terrorismo”.

Obama havia anunciado que essas cenas seriam tornadas públicas para mostrar que suas atitudes, doravante, seriam sempre pautadas pelo respeito aos direitos humanos. Perdeu no Congresso – maioria Democrata, o seu partido – o direito de fechar Guantánamo, território cubano ocupado pelos EUA e transformado em campo de concentração.

E nem vai investigar, como disse que faria, para punir os culpados por esses atos de barbárie. No máximo pediu aos parceiros sionistas/terroristas em Tel Aviv que se abstenham de atacar o Irã. Não disse nada sobre o genocídio contra palestinos. O que vale dizer que o que não é proibido é permitido. Vai continuar – o governo fascista de Israel – a roubar terras palestinas, destruir casas de palestinos, estuprar e matar mulheres palestinas, pois está na Bíblia que os israelenses são o povo superior, eleito por deus (o deles evidente). Tem a forma de caixa registradora. E via de regra não emitem notas fiscais, são grandes sonegadores.

Deve ser por isso que a secretária de Estado Hilary Clinton anunciou que aceitar Cuba na OEA só depois que o “país promover mudanças em direção à democracia”.

Não sei se falam sério, se é caso de psiquiatria, ou no duro, penso que é, cinismo e hipocrisia do moralismo capitalista, cristão e ocidental.

Quem sabe Hilary não leiloa qualquer coisa com os fundos revertendo para o combate à fome, às doenças, para a educação, etc, etc.

O diabo vai ser achar comprador, mas sempre existe um Berlusconi em qualquer canto do mundo.

Na bolsa de Wall Street. O anúncio de novas ações. A Virgindade Corporation Ltd. Aí o fisco já tira antecipado o dele.

E se for questão de fundos é só procurar Gilmar Mendes no STF DANTAS INCORPORATION LTD que disso ele entende como ninguém.

Paladino do deus mercado, dos banqueiros, latifundiários e empresários, tudo pela democracia cristã, ocidental e capitalista, no caso do Brasil, embalada para presente e com a forma de um tucano.

Pode estar aí a saída para a crise.

Vem, dependendo da nacionalidade, com a inscrição “by appointement to her majesty” ou, “in good we trust”. A China vai deitar e rolar com preços mais competitivos. E virgens falsificadas. “Made in China”. Se bem que a maior parte das falsificações vem é no esquema “made in Taywan”.

Não vale é chamar o Pastinha para fiscalizar. Aí esculhamba o fisco. Termina tudo em sinuca e um por fora resolve o problema. Ele faz logo um book. Eu escrevi book. E pior, falsificado. Cara duma, corpo doutra.

O mercado, evidente, vai criar uma nova área de atuação, progresso, Chico Buarque previu isso em “a ópera do malandro”, com toda a tecnologia. Sai o artesanal, entra o tecnológico. Aposto que o esquema FIESP/DASLU entra no negócio.

Breve Miriam Leitão discorrendo sobre o novo mercado e William Bonner noticiando as grandes conquistas do setor. E um novo programa com Pedro Bial, batuta de Boninho. O BSV – Big Sister Virgem –.


Diário de Fernando "Nos cárceres da ditadura militar brasileira" - Frei Betto - Vanderley Caixe


Eis um documento histórico, inédito, que esperou 36 anos para vir a público: trata-se do diário de prisão do frade dominicano Fernando de Brito, prisioneiro da ditadura militar brasileira, ao longo dos quatro anos (1969-1973) em que foi submetido a torturas e removido para diferentes cadeias. Fernando, em companhia de outros frades dominicanos, vivenciou algo inusitado em se tratando de presos políticos do Brasil: foi obrigado a conviver, durante quase dois anos, com presos comuns, em penitenciárias de São Paulo.
Assim como o “Diário de Anne Frank” nos revela a natureza cruel do nazismo, Diário de Fernando retrata o verdadeiro caráter do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Não se conhece similar entre as obras publicadas sobre o período.

Em papel de seda, em letras microscópicas, e sob risco de punição, Fernando anotava, dia a dia, o que via e vivia. Em seguida, desmontava uma caneta Bic opaca, cortava ao meio o canudinho da carga, ajustava ali o diário minuciosamente enrolado e remontava-a. No dia de visita, trocava a caneta portadora do diário com outra idêntica, levada por um dos frades do convento.

O medo de ser flagrado pelos carcereiros e o risco permanente de revistas, fizeram com que Fernando muitas vezes se visse obrigado a destruir as memórias registradas em papel. No entanto, o que vivenciou jamais se esvaneceu, e ultrapassou os muros das prisões. Frei Betto, seu companheiro de cárcere, resgatou as anotações, deu-lhes tratamento literário e as reuniu neste livro que se constitui num documento de inestimável valor histórico.

Nos episódios relatados, a trajetória dos frades se mescla à de personagens que são, hoje, figura de destaque na história brasileira, como Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Caio Prado Jr., Apolônio de Carvalho, Paulo Vannuchi, Franklin Martins e Dilma Rousseff, para citar apenas alguns.

Para quem se interessa em conhecer a verdadeira face do regime militar e o Brasil dos “anos de chumbo”, Diário de Fernando é um testemunho vivo, comovente, de uma de suas vítimas. Não se trata de investigação jornalística, nem resulta da pesquisa de historiador, mas sim de um sincero, emocionante e visceral relato de quem teve a ousadia de registrar, dia a dia, as entranhas de um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil.

Está tudo ali: as torturas, os desaparecimentos, o sequestro de diplomatas, as guerrilhas urbana e rural, a greve de fome de quase 40 dias, e também a convivência dos prisioneiros marcada por momentos de inusitada beleza: as festas de Natal, as noites de cantoria, a solidariedade inquebrantável entre eles.

Diário de Fernando traduz a saga de uma geração que não se dobrou à ditadura e a qual o Brasil deve, hoje, a sua redemocratização. Eis uma obra que enaltece a dignidade humana, a capacidade de resistência frente à opressão e a vivencia da fé cristã como nas antigas catacumbas do Império Romano.

Lançamentos:

Em Belo Horizonte: 17 de junho, quarta, no auditório da CEMIG – Av. Barbacena 1.200. A partir de 19h30.

Em São Paulo: 18 de junho, quinta, no SESC Vila Mariana – Rua Pelotas, 141. A partir de 19h30.


A OFENSIVA TUCANA - Laerte Braga


Entender o desespero do comando paulista do PSDB para eleger o governador José Serra presidente da República em 2010 não é tão difícil assim. Se deixarmos de lado fatores pessoais como vaidades, o autoritarismo estúpido e boçal de Serra, o primeiro fator a ser levado em conta é o “investimento”.
E nesse item vale a pena lembrar uma história acontecida em 1984 quando da eleição – indireta – de Tancredo Neves. Àquela época vigia o princípio da fidelidade partidária e o chamado colégio eleitoral que elegia o presidente era integrado entre outros por deputados estaduais numa representação proporcional ao peso dos partidos nas assembléias legislativas. O bi-partidarismo já havia sido quebrado, mas não havia ainda essa imensidão de partidos com assentos no Congresso, ou nas assembléias.


Paulo Maluf, adversário de Tancredo, consciente que perdera a maioria no Congresso Nacional voltou-se para os deputados estaduais e diante do bombardeio legal do PMDB no TSE – Tribunal Superior Eleitoral – e depois no STF – Supremo Tribunal Federal (era conhecida assim a suprema corte, hoje DANTAS INCORPORATION LTD) – resolveu consultar o senador Roberto Campos sobre se valia investir cem milhões de dólares na compra de deputados estaduais (e alguns federais) para chegar ao Planalto.

A resposta de Roberto Campos, especialista no item entreguismo e sua principal conseqüência, o lucro advindo da corrupção generalizada, disse que sim. Avaliou que um investimento de cem milhões de dólares daria um retorno de um bilhão de dólares em quatro anos de mandato e naquele momento o mandato presidencial era de cinco anos. O azar de Maluf foi que o STF julgou o voto como sendo questão de consciência e portanto desobrigado da fidelidade.

Uma coisa anda junto da outra.

O grande capital, o deus mercado, interessado em arrematar a compra do Brasil, porção com dimensões continentais de terra na América do Sul, aposta em Serra, como apostou e levou boa parte com FHC – Fernando Henrique Cardoso –.

Serra é o instrumento desse capital e, óbvio, regiamente remunerado. É a característica tucana, ou são as características tucanas, uma decorrente da outra – o entreguismo e a corrupção.

Preocupados com os altos índices de popularidade do presidente Lula – sem análise de mérito de seu governo -, mas conscientes que o País hoje é bem diferente do País que FHC deixou. Assustados com a candidatura da ministra Dilma Roussef. Apavorados com a incompetência crônica de Serra para administrar – São Paulo está uma lástima -. E de olho no tesouro ou nos acenos do grande capital. Mais ainda, temerosos dos escândalos no Congresso envolvendo deputados e senadores tucanos e DEMocratas – braço explícito do fascismo tucano – e, principalmente, sabedores que a proporção investir um para ganhar dez hoje é muito maior, resolveram sair da toca e armar com a mídia internacional – a brasileira é ficção – todas essas jogadas torpes e canalhas, bem ao feitio tucano.

Serra tem dificuldades dentro de seu partido. Aécio Neves governador de Minas é um tresloucado, mas não rasga nota de cem e sabe do seu peso no jogo sucessório. E num dado momento a luz vermelha acendeu. Foi quando começaram a vir a tona todas as trapaças de figuras antes tidas como impolutas, caso do corrupto senador Tasso Jereissati, ou da corrupta governadora Yeda Crusius. Ou o corrupto Teotônio Vilela Filho e vai por aí afora – não existe tucano que não seja corrupto, não esteja à venda –.

A reação é no melhor estilo da principal quadrilha do crime organizado e legalizado no Brasil, o PSDB. Num primeiro momento transformaram a doença da ministra Dilma Roussef terrorismo político. Está doente, a doença é incurável, não tem condições. É que a ministra continua a subir nas pesquisas dos institutos deles mesmos, ou do esquema deles, o FIESP/DASLU, associado a Wall Street e Washington. E sua saúde está em recuperação plena.

O segundo, a CPI da PETROBRAS que cumpre dois objetivos. Acuar o governo Lula, criar-lhe toda a sorte de dificuldades e preparar o terreno para vender a idéia da privatização. Justo no momento que o Brasil se transforma num dos países com as maiores reservas petrolíferas em todo o mundo. E isso, de repente, pode transformar esse pedaço de terra com dimensões continentais aqui na América do Sul, numa nação de verdade. Livre, soberana e justa com os seus cidadãos.

O tucanato ainda tem mercadorias para oferecer. Além da PETROBRAS, têm o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Filés que o capital internacional está de olho desde o governo FHC. Faltou peito e respaldo ao ex-presidente para consumar o crime de venda do Brasil. E os resultados obtidos nos seus oito anos, do ponto de vista deles, foram ótimos. Todos ricos, empresas como a VALE e a EMBRAER privatizadas, a farra da telefonia e vai por aí afora.

Uma pesquisa feita nas eleições de 2006 mostrou que o candidato tucano, o pastel de vento Geraldo Alckimin havia perdido votos exatamente quando tocou no assunto privatizar a PETROBRAS. Decidiram falar de forma diferente agora. Uma CPI para investigar supostas irregularidades e normalizar a empresa, na visão deles. Por baixo dos panos ressuscitar a cultura da privatização.

O curioso nessa história é que o tal decreto que permite à PETROBRAS contratar obras sem licitações para facilitar e não atrasar seus projetos, é do tempo de FHC. Lá, tinha uma finalidade. Permitir a entrada mais rápida de dinheiro nos bolsos e caixas dois tucanos. Agora querem vincular a empresa ao governo atual, o tal decreto e jogar por terra um patrimônio do povo brasileiro que custou muita luta, sangue e se transformou numa das maiores empresas do mundo no setor.

Tucano não tem mãe. Por mais chocante que isso possa parecer é uma realidade. Foram criados em chocadeiras em Wall Street, em projetos financiados pelas fundações FORD e ROCKFELLER.

É por esses caminhos que José Serra pretende navegar. A canalhice ao absoluto.

Num outro aspecto o dilema do cidadão brasileiro é simples. Ou compreende essa realidade. Vale dizer, sonha e transforma o sonho no seu dia a dia, ou abre mão de um País livre, soberano e justo com seus filhos entregando-o a figuras repulsivas como Serra, Jereissati, Aécio, esse tipo de gente montado e fabricado segundo interesses dos grandes bancos, empresários e latifundiários no Brasil e fora do Brasil.

A mídia, evidente, capitaneada pelo histerismo a chip de jornalistas venais como William Bonner, Miriam Leitão, etc, etc, a FOLHA DE SÃO PAULO, VEJA, vai montar as mentiras com a intenção de repeti-las à exaustão transformando-as em “verdades”, que nem os tais cinco dedos do FHC na campanha de 1994 que se revelaram na prática ágeis no colocar dinheiro público no bolso e vender o Brasil.

Tucanos são uma degeneração genética do udenismo pré-64. Trazem em si o moralismo hipócrita da alta burguesia de São Paulo e da Barra da Tijuca. Dois símbolos internacionais no Brasil, dois territórios conquistados, à guisa de exemplo.

José Serra é um FHC de segunda categoria. Com um agravante. Um sorria enquanto enfiava a faca pelas costas, o ex-presidente. Serra não. É frio, calculista, perverso, covarde, amoral. É do tipo que vai arrancando as perninhas da formiga até que ela não possa andar mais e depois pisa em cima, massacra.

É por aí que passa a CPI da PETROBRAS. Os integrantes da comissão, os deles, são meros paus mandados e Jereissati é o comandante dessa tropa de bandidos no Congresso. Ele e Artur Virgílio.

O alvo primeiro é a PETROBRAS e o alvo intermediário é a presidência, o objetivo final é passar a escritura de venda do Brasil.

Por detrás de toda essa “indignação” fingida dos tucanos está esse jogo sórdido e sordidez em política é sinônimo de tucano.

No meio desse caminho, mais à frente, vai ter um Pedro Bial da vida chamando essa gente de “meus heróis”.

E nem falei do que o Brasil livre e soberano significa para toda a América Latina. O papel de Serra é destroçar essa perspectiva que vai se transformando em realidade em vários países como a Venezuela, o Equador, a Bolívia, o Paraguai, a Nicarágua, El Salvador, se mantém em Cuba e prospera por aqui, na Argentina, tem perspectivas no Chile e no Uruguai.

Estrago completo nos negócios das grandes máfias internacionais. É outra “tarefa” confiada a Serra e aos tucanos nesse processo todo. O desmanche geral e absoluto da integração latino-americana e da submissão, assim que nem o antigo México, hoje lixão dos EUA.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

As diferentes versões da guerra dos Palikur contra os Galibi entre os povos indígenas da Bacia do Uaçá, Oiapoque, Amapá


Os índios Palikur, um grupo Aruak, vivem às margens do Rio Urucauá, no Brasil e em diferentes localidades na Guiana Francesa. No século XVII envolveram-se em um longo conflito com os Galibi, um grupo Carib, situado mais ao norte. Os Galibi-Marworno, por sua vez, habitam uma ilha no Rio Uaçá, são os descendentes de várias etnias, essencialmente Carib e hoje falam o patois (crioulo). Também vivenciaram conflitos na região. Neste texto apresento e comparo três versões referentes a esses episódios, usados como matriz pelos indígenas para desvendar conceitos de identidade e alteridade, partes de uma construção do cosmo e de um processo histórico específicos daquela região das Guianas.


Belongs to: SciELO Brasil - Scientific Electronic Library Online

Mario Benedetti O poeta e dirigente político uruguaio despediu-se da vida neste domingo - Vanderley Caixe


O poeta e dirigente político uruguaio Mario Benedetti despediu-se da vida neste domingo. Perde a literatura, perde a humanidade, mas seu humor tranquilo e muitas vezes mordaz permanece na herança de seus escritos, expressão sensível e eloquente da consciência avançada da América Latina.
Por José Carlos Ruy

''Que a morte perca sua asquerosa e brutal pontalidade''
A literatura ficou de luto neste domingo (17): o grande poeta uruguaio Mario Benedetti deixou de viver. Ele tinha 88 anos de idade e deixa um legado de mais de 80 romances, ensarios, contos e principalmente poemas que fazem parte da mais elevada expressão do sentimento humano nesta parte do mundo e que registram a crença, como ele dizia, ''na vida e no amor, na ética e em todas essas coisas tão fora de moda''.

Mario Benedetti referiu-se a seu pai, na dedicatória do romance Primavera num espelho partido, que ele fora ''boa gente''. Os poemas de Benedetti dão ao leitor a impressão de que ele próprio podia ser definido assim, como ''boa gente''.

Militante e dirigente de esquerda (em 1971 ele foi um dos fundadores do Movimento 26 de Março, marxista leninista, expressão política do Movimento de Libertação Nacional - Tupamaros), seus escritos oscilaram sempre entre um lirismo tocante e um compromisso social permanentemente reafirmado; muitas vezes, conseguiu a habilidade de unir estas duas dimensões, a lírica e a social, em poemas como este, escrito quando Che Guevara foi morto na Bolívia:

donde estés
se es que estás
si estás llegando
será una pena que no exista Dios

mas habrá otros
claro que habrá otros
dignos de recibirte
comandante
(do poema Consternados, rabiosos, 1967)

ou

Quizá mi única noción de patria
sea esta urgencia de decir Nosotros
quizá mi única noción de patria
sea este regreso al própro desconcierto
(do poema Noción de patria)

ou

los obreros no estaban en los poemas
pero a menudo estavan en las calles
con su rojo proyecto y con su puño
sus alpargatas e su humor de lija
y su beligerancia su paz y su paciencia
sus cojones de clase
qué clase de cojones
sus ollas populares
su modestia e sy orgullo
que son casi lo mismo
(do poema Los espejos las sombras, 1976)

ou

Compañera
usted sabe
que pude contar
conmigo
no hasta dos
o hasta diez
sino contar
conmigo
(do poema Hagamos un trato)

São textos que exprimem uma experiência de vida intensa e rica, que se desdobrou em inúmeras atividades para ganhar a vida (empregado de uma oficina, taquígrafo, caixa, vendedor, contador, funcionário público, tradutor e jornalista, antes viver somente de literatura), e muitas vezes a amarga paciência do exílio. Seus poemas, disse o escritor argentino Pedro Orgambide na introdução a uma antologia, ''são o inventário de um homem de aparência simples, de gesto e voz medida, de um próximo, um 'fulano' que fala de amor'', de ''mulheres nuas, e leva às pessoas sua palavra despojada de solenidade'', perseverando em ''seu ofício de poeta que não é outra coisa senão seu ofício de viver.''

Militante desde a década de 1940 da luta pela paz, foi um incansável crítico do imperialismo dos EUA. Foi um dos fundadores e diretor, entre 1968 e 1971, do Centro de Pesquisas Literárias da Casa de las Américas, em Havana (Cuba). Em 1971, ano de fundação do Movimento 26 de Março, foi nomeado diretor do Departamento de Literatura Hispanoamericana na Faculdade de Humanidades e Ciencias da Universidade da República, de Montevidéu, cargo que manteve até 27 de Junho de 1973, quando um golpe de estado iniciou a ditadura militar no Uruguai. Em consequência, Benedetti renunciou ao cargo na Universidade. Exilou-se na Argentina, Peru e, em 1976, em Cuba. Só voltou ao Uruguai em 1983, depois do fim da ditadura.

No poema Digamos, ele escreveu

1.
Ayer fue yesterday
para buenos colonos
mas por fortuna nuestro
mañana no es tomorrow

2.
Tengo un mañana que es mio
y un mañana que es de todos
el mio acaba mañana
pero sobrevive el otro

No último domingo, o amanhã de Benedetti acabou, mas - como ele sempre soube - sobrevive em todos nós, os outros.

* José Carlos Ruy é jornalista e editor do jornal A Classe Operária.

==================================================================================================================================


El poeta del compromiso
Muere Mario Benedetti después de una larga vida de lucha contra la adversidad y en defensa de la alegría
JUAN CRUZ - Madrid - 17/05/2009

Murió Mario Benedetti. El poeta resistente, que vivió el exilio y la enfermedad (un asma pertinaz, obsesiva) le fueron rompiendo, pero él se mantuvo siempre "en defensa de la alegría". Finalmente, una agonía causada por un fallo intestinal, que hizo deprimentes sus últimos días, le rompieron del todo, y murió ayer a los 88 años, en su tierra, Montevideo. Nació en Paso de los Toros, pero esta urbe que parece un microcosmos literario fue el lugar al que volvió siempre, de todos los exilios. Era al final (y esta expresión la acuñó él) un desexiliado. Pero su alma sufrió las heridas de todos los exilios.

Su muerte se produjo semanas después de su última hospitalización por fallos multiorgánicos que al final le cegaron el humor y la vida; pero había empezado a morir mucho antes; hace tres años falleció su mujer, Luz, con la que vivió toda la vida, en la libertad y en el destierro; él creyó siempre que la enfermedad de Luz, que se olvidaba de apagar las luces de la casa, en Madrid, era una simple distracción, e incluso le compró artilugios con los que dominar las consecuencias de su sordera. El poeta del compromiso, del amor y de la alegría, sintió luego que, en efecto, esas ausencias eran debidas a un alzheimer que inundó la casa de desolación y de huida.

Se fue con ella, de nuevo, a Montevideo, y allí la cuidó hasta que finalmente le dejó del todo. Y le dejó malherido. Benedetti tuvo algunos momentos de alegría después, como cuando Hortensia Campanella, su biógrafa última, le entregó el manuscrito en el que se condensa la vida entera del escritor que nos ha dejado. Él ironizó ante tanto papel, y delante de Ariel, su fiel ayudante, dijo: "¿Tanto he hecho?"

Pero su alma estaba herida; seguía escribiendo, poemas, haikus, animado por su editor de poemas, Chus Visor; tenía la casa llena de literatura; en un tiempo él fue política, enteramente, sus poemas estaban al servicio de la rabia que le produjeron las dictaduras del sur, la suya, la uruguaya, que le persiguió a muerte, y la argentina, que fue cómplice de aquella y también quiso matarle. Mató a un amigo suyo, el líder político Zelmar Michelini, y esta muerte fue un símbolo de las muertes que hubo antes y después en la vida acosada de hombres como él. Luz fue su bastón. Y Palma y Cuba y Lima sus lugares de exilio; a los tres les guardó siempre gratitud; fue un gran defensor de la Cuba de Fidel, por eso mismo, pero jamás utilizó esa afinidad para discutir, en los últimos tiempos sobre todo, lo que en esa revolución que él quiso se fue torciendo.

Era un hombre cordial, enteramente, pero era un tímido absoluto. Los que le conocieron en España le recuerda, por ejemplo, en la Feria del Libro de Madrid, puntilloso, anotando con palotes los libros que firmaba; y le recuerdan rechazando el pescado con espinas y en general las tonterías; era un conversador tranquilo; llegaba a los sitios con su maletita marrón gastada, y dentro llevaba siempre poemas o cartas, en esos momentos en que cumplía compromisos parecía a la vez el escolar que fue y también el oficinista.

Su apariencia era la de un juez de paz, pero nunca hubo paz dentro de su alma, ni siquiera cuando se le vio feliz, con sus manos a la espalda, con su mirada desvaída por las lentillas, con su bigote largo e invariable a lo largo de una vida en la tantos se enamoraron al tiempo que recitaban sus poemas o escuchaban las canciones que hicieron con sus versos su paisano Daniel Viglietti y el catalán Joan Manuel Serrat. Con Viglietti tiene una anécdota que se parece a algunas de las que le convertían también en un escolar huidizo al que le asustaba la fama, al tiempo que le agradaba que algunos, ante sus recitales multitudinarios, le dijeran que parecía una estrella de rock.

Hubiera sido incapaz de cantar, pero un día se encontró con Viglietti en París, en un aeropuerto, y Daniel le dijo a Mario: "Estoy haciendo música para sus poemas". "Y yo estoy haciendo poemas". Entonces el poeta se quedó pensando, y añadió, riendo como reía, como para no molestar: "Tenemos que hacer algo con esta casualidad". De esa casualidad nacieron conciertos, libros; eran como dos en la carretera; cuando vimos a Viglietti en Montevideo, en el entierro de Idea Vilariño, a mediados de abril, la gran amiga generacional de Mario, el cantante nos dijo: "Y lo de Mario. Estamos tan mal, y vamos aún a lo peor".

Se apaga la voz de su compañero, pero quedan la voz de las canciones.

Montevideo fue su último sitio, y fue casi el primero. Su largo recorrido por la vida conoció una interrupción terrible, cuando los médicos le detectaron tumores que aconsejaron operación, en el Hospital XII de Octubre de Madrid. Allí le atendió, entre otros, el doctor José Toledo, que le conocía, y todo el mundo se desvivió por él como si no fuera tan solo un enfermo sino un padre, o un hermano, el hombre que había iluminado con sus versos (de amor, de política, de tierra, de aire) la vida de cualquiera. Un día, poseído por el dramatismo al que a veces lo llevó su pesimismo, el que también está en sus poemas, y en sus narraciones, Mario decidió abandonarse.

Como hubiera dicho Idea, que le precedió en la muerte, empezó a decir para qué. Detrás de esa decisión de no seguir hay algunos versos, como estos: "Me he ido quedando sin mis escogidos/ los me dieron vida/aliento/paso/ de soledad con su llamita tenue/ y el olfato para reconocer/ cuánta poesía era de madera/ y crecía en nosotros sin saberlo/ Me he quedado sin proust y sin vallejo/ sin quiroga ni onetti ni pessoa/ ni pavese ni walsh ni paco urondo/ sin eliseo diego sin alberti/ sin felisberto hernández sin neruda/ se fueron despacito en fila india".

En ese clima de desolación en el que lo pusieron la enfermedad y su porvenir Mario descuidó su aspecto, dejó de afeitarse, y alguien le dijo, una madrugada: "Así no puedes estar. Tú eres guapo, un hombre así parece enfermo. Ya no lo estás". Le bastó. Al día siguiente se rasuró del todo, se puso de limpio, y cuando este amigo le visitó otra vez y se hizo el distraído sobre su nuevo aspecto, el viejo poeta revivido le llamó la atención y le dijo:

-¿No te has fijado que hoy sí me afeité?

Era un hombre insobornable, el más comprometido de su tiempo. Su muerte deja en silencio mustio su época, su ejemplo y la raíz de sus versos. Pero los muchos que le cantan no lo dejarán, como él decía del verdadero amor, en lo oscuro.

http://www.elpais.com/articulo/cultura/poeta/compromiso/elpepucul/20090517elpepucul_6/Tes

Índios do Amapá - entre eles os Galibis - Gilberto Adamatti





Os índios amapaenses têm o privilégio de possuir todas as suas reservas demarcadas pacificamente, sem polêmica e sem invasão de garimpeiros, madeireiros e agricultores. Outro privilégio é viver melhor do que os indígenas de outras regiões do País, compara o antropólogo Antônio Pereira Neto, que chefiou a Fundação Nacional do Índio (Funai), na região.

Índios do Amapá
02/09/2008
Autor: Alipio Junior
Fonte: Amapá.net - www.amapá.net
Texto extraído de: http://pib.socioambiental.org/pt/noticias?id=60143&id_pov=71

Amapá é o primeiro estado brasileiro a ter todas as terras indígenas demarcadas. Nas duas grandes reservas, que representam 8,6% de todo o território estadual, 140.276 km² , vivem as etnias - Galibi, Karipuna, Palikur, Waiapi e Galibi Marworno.

Esses índios não vivem isolados. Recebem todo tipo de apoio governamental: da assistência saúde à orientação para melhorar a qualidade de vida através de novas alternativas econômicas. Essas sociedades indígenas recebem todo tipo de apoio governamental: da assistência saúde à orientação para melhorar a qualidade de vida através de novas alternativas econômicas. No entanto, o respeito aos índios vem em primeiro lugar. Em nenhum momento essa parceria pode interferir na cultura diferenciada das etnias. O melhor exemplo desse compromisso é o apoio dado a escola bilíngue, na qual as crianças aprendem primeiro sua língua original, condição mais importante para manter viva a tradição indígena com seus mitos, lendas, arte e costumes.

A luta dos índios para garantir a terra em que vivem e defender a sua cultura tem chamado a atenção de Ongs, governos estrangeiros com o alemão e o apoio de personalidades como Danielle Miterrand. A viúva do ex-presidente François Miterrand e presidente da Fundação France Libertés visitou o Amapá em abril de 1996. Além de oferecer apoio político, ela condenou duramente o decreto do governo federal que permite contestação no processo de demarcação de terras indígenas.

A palavra Galibi designava os índios que viviam no litoral da Guiana francesa. Hoje são encontrados no Amapá em apenas 3 aldeias. A língua original, Karib, foi substituída pelo patoá, francês creolo da Guiana e o português, falado pela maioria dos homens adultos.

Assim como os Palikur, os Galibi também escolhem o chefe da aldeia por eleição direta. Vivem da agricultura cujo principal produto é a mandioca brava, caça, pesca e comercializam o excedente. Possuem também uma pequena indústria de construção naval que produz pequenos barcos para toda a região.

O governo do Estado proporciona assistência na área, infra estrutura e mantém ainda escola bilíngue nas aldeias.
Essa sociedade vivia originalmente na Guiana Francesa e sua principal característica é o instinto guerreiro. No século XVII, lutaram muito contra os índios Palikur e os franceses.

No século XVIII, com a chegada dos jesuítas, formaram o maior grupo das missões. Quando os padres foram expulsos, eles se dispersaram.

No Brasil mora apenas um grupo, que chegou ao país em 1950. Vivem da caça e da pesca e, como fonte de recurso, comercializam produtos agrícolas.

Todas as aldeias têm escolas administradas pelo governo do Estado. Possuem também uma pequena indústria de construção naval que produz barcos para toda a região.

Próxima á reserva fica Oiapoque. Esta cidade, situada no ponto mais extremo do Brasil, é a primeira da país a eleger um prefeito índio.

A história dessa comunidade é marcada por uma constante migração. Ora ocupavam a bacia de Uaça sua área de origem, ora se mudavam para a Guiana Francesa. Só no final da década de 80, com a demarcação da reserva e a expulsão dos não-índios, é que a população começou a se fixar. Duas aldeias ocupam essa área: a Juminã, com remanescentes dos índios Karipuna e Uahá, índios Galibi-Marworno.

Os índios Karipuna se consideram católicos mas não abrem mão das festas religiosas tradicionais. O "Turé", por exemplo, tem ritos essencialmente indígenas que inclui danças e cantos na língua maruane. Comercializam produtos agrícolas como cítricos, café, inhame, banana e cana. A caça e a pesca são utlizados exclusivamente para o consumo local. A migração tem aumentado por causa do crescimento da população. No entanto, os homens ficam fora apenas por alguns períodos, enquanto as mulheres raramente retornam às aldeias.

Os Palikur têm uma miscigenação rara entre os índios. Entre 1930 e 1940, chegaram à aldeia famílias negras vindas da Guiana Francesa e seus descendentes assumem a identidade da tribo. Mesmo com esse contato, os índios mantém a tradição de se organizar em clãs formados a partir da linhagem paterna. Dessa forma, os filhos de pais não mestiços são aceitos pela comunidade mas não podem pertencer a nenhum clã.

Os Palikur estão localizados no Estado do Amapá e na Guiana Francesa, no Amapá eles habitam ao longo do rio Urukaua, situado na bacia do rio Uaca, na região do município do Oiapoque; na Guiana Francesa eles habitam em bairros nas cidades de Caiena e Saint Georges e as margens do rio Oiapoque. Dentre as tres etnias que habitam ao longo da bacia do Uacá - Galibi-Marworno, Karipuna e Palikur -, os Palikur são os únicos procedentes da própria região e também são os únicos que mantiveram sua língua original. Esta etnia é mencionada nos relatos históricos desde 1513.
Durante mais de três séculos, os povos indígenas da região do norte do Amapá mantiveram intensas trocas com os comerciantes franceses a ponto de despertar a preocupação da coroa portuguesa, que passou a exercer uma caça sem tréguas aos índios identificados como aliados franceses. Neste contexto, os Palikur, apesar de considerados "amis de francois", são das poucas etnias, das diversas que existiam na região, que conseguem sobreviver a perseguição empreendida pelos portugueses.

Atualmente, os Palikur são, em sua maioria, crentes. Foram evangelizados por missionários protestantes no final da década de 40 e por conta da religião cristã não realizam mais suas festas tradicionais, como a festa de Ture e do Tambor. Assim como os outros povos indígenas do Uaca, os Palikur vivem da caça, pesca e da comercialização da farinha nas cidades do Oiapoque, Caiena e Saint George.

Para fugir da catequização dos jesuítas os índios Waiapi, no século XVII, abandonaram sua área de origem, baixo Xingu no estado do Pará, e ocuparam o ponto mais extremo do Brasil, entre os rios Oiapoque, Jari e Amapari. Os Waiapi quase foram extintos no começo do século por causa do contato com os extrativistas como os seringueiros. Na década de 70 enfrentaram o mesmo problema com os garimpeiros que invadiram a área, a partir da recém-chegada Rodovia Perimetral Norte. Nos anos 80, os Waiapi conseguiram expulsar os invasores e, desde então, mantêm constante
vigilância nos limites de sua terra. Nesse período assumiram a faiscação de ouro aluvionar, uma atividade que eles realizam dentro do seu ciclo tradicional de atividades extrativistas e que atende a algumas de suas necessidades (armamento, tecidos, redes). Nos garimpos controlados pelos índios, não se usa mercúrio e as áreas trabalhadas são convertidas em plantações de frutíferas. Além disso, os waiapi estão na agro-silvicultura em alguns trechos das picadas da demarcação . Hoje, eles são 488, distribuídos em 12 aldeias. A área foi demarcada e homologada em 1996, numa experiência piloto do PPG7 que priorizou a participação dos índios e sua capacitação para o controle permanente desta terra. A experiência foi coordenada por uma ONG e financiada pelo governo alemão.

Cada aldeia indígena tem um padrão estético que se reproduz nos objetos utilitários como cestas, redes, adornos e armas.
Feitos com madeira, fibras, cerâmica, sementes, plumagem, dentes e ossos de animais, Alguns desses objetos são enfeitados com penas de aves ou pintados com corantes naturais extraídos de cascas de árvores ou sementes como as do urucum.

O artesanato é uma das fontes de renda dos povos indígenas do Amapá. Os Karipuna, por exemplo, fabricam colares de contas ou ossos. Os Waiapi usam desenhos mitológicos para explicar suas origens. Os Apalai do norte do Pará fazem complexos desenhos geométricos com significados conhecidos apenas pelo grupo.


terça-feira, 19 de maio de 2009

Galibi do Oiapoque - Gilberto Adamatti


Estado: AP.
População: 67
Nome
Como já se disse anteriormente, o nome Galibi era uma designação genérica utilizada pelos europeus para se referir aos povos de fala Caribe do litoral das Guianas.
Atualmente Galibi é a autodenominação do grupo que vive no rio Oiapoque e dos índios do mesmo povo que vivem na Guiana Francesa, nos rios Maroni e Mana. Os Galibi do Oiapoque designam os Galibi do Uaçá como Maroani (ou Marwôrno, Marawana).

Língua
Os Galibi mantém sua língua original, do tronco Caribe. Falam também o patoá, língua geral, utilizada nos contatos com a população regional da Guiana e com outros povos indígenas da área. Falam o português fluentemente e usam esta língua também para contatos externos, embora estes quase sempre sejam feitos em patoá.

Localização
A aldeia São José dos Galibi permanece onde foi instalada em 1950, quando o grupo chegou na área. Localiza-se na margem direita do rio Oiapoque, logo abaixo da cidade de St. Georges. Fica distante, em viagem com motor de 25 HP, cerca de 30 minutos de St. Georges. A distância até a cidade de Oiapoque é de uma hora e até Clevelândia de uma hora e meia.

A aldeia situa-se em um trecho de terra firme cercado de mata e próxima de uma pequena enseada de solo argiloso. Ocupa uma área de aproximadamente 250 por 400 metros, onde se encontram as casas, um pomar e as instalações do Posto e escola. Atualmente a aldeia é constituída de 7 casas familiais, habitadas em média por 4 a 6 pessoas.

População
Os Galibi do Oiapoque provém de uma das aldeias Galibi do rio Mana, na Guiana Francesa, de onde emigraram em 1950.

O grupo que se instalou no Brasil, compunha-se de 38 pessoas. Em 1964, aumentara para 64 pessoas. No decorrer dos primeiros 14 anos de estada no Brasil, se integraram nesta comunidade uma família Galibi do rio Mana, um índio Galibi do rio Uaçá, um índio Arawak da Guiana e um brasileiro, os dois últimos por motivo de casamento.

Em 1968, o mesmo grupo somava 68 pessoas e em 1973, 61.

A evolução da população Galibi do Oiapoque continuou, até o início dos anos 70, ligada às migrações entre o Oiapoque e o Mana, como também à entrada de estranhos e à saída de alguns jovens, da comunidade para os núcleos urbanos da área. Posteriormente, a tendência da saída dos jovens se acentuou.

Assim, atualmente, todos os filhos do líder Geraldo estão fora: 5 em Belém, um em Brasília e outra no ramal do Curipi, onde é professora. O irmão e a irmã de Geraldo, que residem na aldeia, também tem filhos fora, em Macapá. Na prática, os jovens que saíram para completar os estudos não voltaram à aldeia para morar.

Atualmente, vivem na aldeia do Oiapoque 5 famílias, num total de 23 pessoas, sendo 6 homens e 6 mulheres adultas, e 11 crianças.

Histórico do contato
A história antiga dos Galibi se encontra delineada no box "Os Galibi na Guiana Francesa". Os antepassados do atual grupo do Oiapoque viviam na Guiana Francesa, numa das aldeias do rio Mana. A migracão para o Oiapoque foi reconstituída por E. Arnaud (1966).

O grupo migrado provem da aldeia denominada Kuaxi, situada na foz do rio Mana onde, em 1941, havia uma população de aproximadamente 100 pessoas, distribuídas entre 22 famílias.

O atual grupo de São Jose dos Galibi, formado originalmente por 38 indivíduos, emigrou em agosto de 1950 para o território brasileiro, em conseqüência de dissenções internas ligadas ao xamanismo. Os dissidentes eram liderados por Geraldo Lod e empreenderam a viagem pela costa oceânica em 4 canoas e vela. "Primeiramente aportaram na cidade francesa de St. Georges. Mas logo no dia subseqüente à chegada, havendo obtido permissão do prefeito de Oiapoque, foram se estabelecer em uma gleba e margem direita do citado rio, entre os igarapés Morcego e Belle Cri" (Arnaud: 1966, 4). Permanecem até hoje nesta área, onde se instalaram há quase 30 anos; mantém relações constantes com a populacão regional, em St. Georges e Oiapoque, e também com a aldeia de negros de Saramaká na vila Tampak.

Mantêm contatos eventuais com os Galibi do Uac6. Por exemplo, deram apoio na época da demarcação da Reserva do Uac6, tendo o líder Geraldo Lod participado das assembléias indígenas do Kumarumã.

Modo de vida
Não há estudo aprofundado especificamente sobre o sistema social dos Galibi do Oiapoque. Encontram-se algumas considerações rápidas sobre os mecanismos de lideranca em Arnaud (1966). Há alguns estudos de maior f6lego, sobre aspectos da organização social dos Galibi na Guiana Francesa, de onde vieram os do Oiapoque.

O xamanismo continuava vivo ate a década de 60, sendo os pajés Galibi reputados e conhecidos entre todos os povos indígenas do Amapá, inclusive os Waiãpi do rio Amapari. Atualmente, entretanto, não há mais pajé atuante no grupo.

Com a evasão dos jovens, vários mecanismos tradicionais de reprodução da cultura se alteraram. A dança do turé -comum a todos os grupos da área Oiapoque/Uacá e tradicionalmente realizada na época da abertura das roças - é realizada atualmente no Ano Novo e na festa de São Pedro.

A subsistência provém basicamente da agricultura, os índios plantando mandioca, cará, batata, macacheira, banana, abacaxi, milho e tomate. As roças das várias famílias são abertas num mesmo lugar, a derrubada feita coletivamente e, posteriormente, são separados lotes para o plantio de cada família. Na aldeia há um grande laranjal para o consumo próprio e eventual venda.

A caça e a pesca compõem o resto da dieta alimentar, acrescidas de frutas de palmeira e outros produtos de coleta, como o cacau.

Os Galibi mantém também um pequeno rebanho de gado bovino, com 14 cabeças, doação de governo do território do Amapá. A farinha de mandioca constitui-se no principal produto comercializado sob encomenda, nas cidades de Oiapoque e Clevelândia.

O artesanato (trançados e pouca cerâmica) é feito apenas para uso do próprio grupo. do Amapa. A farinha de mandioca constitui-se no principal produto comercializado, sob encomenda, nas cidades de Oiapoque e Clevelândia.

O artesanato (trancados e pouca cerâmica) e feito apenas para use do próprio grupo.

Tutela e assistência
A aldeia São Jose dos Galibi é também sede do P. I. Galibi. A presença da FUNAI na área foi intermitente até 1978. Atualmente há um funcionário permanente, chefe do Posto, e não há atendente de enfermagem contratado. A infra-estrutura da FUNAI é composta da casa-sede, motor de luz, motor de popa, radiofonia e enfermaria.

Em 1981, a FUNAI implantou um "projeto de desenvolvimento", com roças comunitárias (de arroz, feijão e milho) a ser administrado pelos índios. A verba inicial foi de Cr$ 1.800.000,00 e a FUNAI forneceu também as sementes, os instrumentos agrícolas e mantimentos. O objetivo do projeto era promover a independência da comunidade. Avaliando o projeto, Geraldo criticou o fato dele ter vindo pronto de Brasília, sem consultar os índios. Segundo ele, esses projetos acabaram prejudicando o andamento das roças "particulares". Em 1981, o feijão apodreceu, o milho deu pouco e o arroz, cinco sacos.

A verba prevista para 1982, de Cr$ 3.200.000,00, saiu em janeiro de 1983 para melhorias na infra-estrutura do Pl. Entre todas as áreas indígenas do Oiapoque, essa foi a única a receber a verba prevista.
A FUNAI tem ainda planos de melhoria e reformas das instalações do P.I., incluindo um campo de pouso, e conclusão da canalização de água na aldeia, abertura de um poço e reforma da casa de farinha.Contudo as verbas para 82 não foram liberadas.

O líder da comunidade, Geraldo Lod, tem mantido firmes as reivindicações de autonomia diante da FUNAI local, o que implicou várias trocas de chefes de posto nos últimos anos, Ele reclama o direito de escolher e avaliar os funcionários. Além disso, não aceitou, juntamente com sua comunidade, participar do movimento de cooperativas iniciado pelo CIMI em 1975, apesar de participar de algumas assembléias de líderes em Kumarumã.

Os Serviços de Saúde entre os Galibi são desempenhados em parte pela FUNAI e em parte pela Secretaria da Saúde do território. A FUNAI remete periodicamente medicamentos e anualmente a EVS visita a aldeia. Mas foi o governo do território quem realizou, em1981, as vacinações Sabin, tríplice e antivariólica.

A doença mais freqüente que atinge o grupo é a gripe, não sendo possível detalhar o número de casos.
Não há muita malária na área, segundo informa G. Lod. A borrifação antimalárica é realizada de seis em seis meses, pela SUCAM.

A educação escolar é fornecida aos índios desde 1958, quando a Secretaria da Educação do território construiu uma escola na aldeia, mandando também professores. Um novo prédio foi construído em 1981. As crianças podem cursar nessa escola até o 2° ano primário.

Situação atual das terras
As terras ocupadas pelos Galibi, correspondendo basicamente ao território onde se instalaram em 1950 foram demarcadas recentemente e constituem a "Reserva Galibi", com uma superfície de 6.689,1928 ha, conforme portaria n° 1.369/E, de 24 de agosto de 1962, assinada pelo presidente da FUNAI. Posteriormente a demarcação foi homologada pelo decreto presidencial n° 87.845, de 22/11/1982, publicado pelo Diário Oficial de 24/11/82.

Embora o líder da comunidade Geraldo Lod faça questão de afirmar que, uma vez demarcada, essa área corresponde aos interesses dos Galibi, pode-se apurar que permanecem algumas pendências, com cinco famílias de lavradores que vivem na beira do igarapé Taparabu, dentro da reserva. No passado recente, em meados dos anos 70, o INCRA titulou as terras dos Galibi como propriedade particular em nome de Geraldo Lod. O imposto territorial a pagar, segundo Geraldo Lod, deveria ser dividido com as demais famílias de lavradores da área, o que originou desentendimentos. Em 1978, por ocasião de uma visita à área, o delegado da FUNAI na época, cel. Nogueira intercedeu junto ao INCRA e retirou a inscrição do "imóvel".

Anulada a questão a o imposto e demarcada a reserva, permanecem, entretanto, as famílias de lavradores (alguns casados com índias Karipuna) dentro da área indígena. Elas tinham prazo, dado pela Policia Federal, até o final de 82, para deixarem a área, embora Geraldo Lod aceite que duas delas permaneçam, como a de velho Gabriel, que ali vive há 50 anos.



Fonte:
- CENTRO ECUMÊNICO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO. Povos Indígenas no Brasil. São Paulo, 1983. p. 89-93.



Galibi-Marworno - outra etnia galibi - Gilberto Adamatti


Os Galibi-Marworno, habitantes das vastas savanas e campos alagados do norte do Amapá - país de aves brancas e jacarés sombrios - se dizem um povo "misturado e unido". A comida é simples e sadia: peixe, farinha e tucupi. Nas festas não pode faltar o caxiri, vinho dos índios, dos xamãs e dos espíritos karuãna. A Festa Grande é de Santa Maria, o axis-mundi é o mastro do Turé, a Cobra Grande a lenda mais querida, mas o herói mesmo é Iaicaicani.

Galibi-Marworno é uma auto-designação bastante recente, que se cristalizou principalmente na última década. Ela veio substituir em alguns contextos o termo "Galibi do Uaçá" ou, simplesmente, "do Uaçá", "Uaçauara" ou "mun Uaçá" ("gente do Uaçá", em patois). Os que assim se auto-denominam constituem um povo oriundo de populações etnicamente diversas: Aruã, Maraon, Karipuna (falantes da língua geral derivada da tupi), "Galibi" (falantes da língua geral derivada da galibi) e até não-índios.

O primeiro termo componente da auto-denominação, Galibi, decorre da aplicação desse nome, por parte da Comissão de Inspeção de Fronteiras e do Serviço de Proteção aos Índios, a toda a população do rio Uaçá. Entretanto, os Galibi-Marworno não se identificam e nem reconhecem parentesco com a população Galibi da costa da Güiana (que atualmente se designa Kaliña) e que tem um pequeno número de famílias habitando as vizinhanças do rio Uaçá: um grupo que migrou da Güiana Francesa na década de 1950 e se fixou na margem brasileira do curso inferior rio Oiapoque.

Por sua vez, o segundo termo componente da auto-denominação, Marworno, está relacionado à atuação de agências de assistência e reflete um movimento mais recente das últimas três décadas. Fazendo referência a uma das etnias ascendentes da atual população, os termos Maruane ou Maraunu começaram a ser utilizados pelos vizinhos Palikur e Karipuna na tentativa de marcar alteridade em relação às famílias Galibi-Kaliña.

No movimento das assembléias políticas e da criação da Associação dos Povos Indígenas do Oiapoque (APIO), essa diferenciação ficou mais cristalizada no termo composto Galibi-Marworno. É, ainda, uma auto-designação utilizada em contextos específicos, quando a intenção é demarcar fronteiras étnicas em situações onde definições de identidade tão categóricas fazem sentido: nas listas populacionais da Funai, nas assembléias políticas, nas eleições políticas regionais etc. Porém, em contextos mais localizados e cotidianos, onde as fronteiras identitárias não são tão precisas, os termos "do Uaçá" ou "Uaçauara" continuam sendo usados.


Língua
Atualmente a população Galibi-Marworno tem como língua materna uma variação do crioulo falado na Guiana Francesa. Esse idioma é utilizado como língua franca dos povos indígenas do Baixo Oiapoque, que reconhecem diferenças fonéticas entre aquele falado pelos Karipuna e o falado pelos Galibi-Marworno. Esse crioulo "indígena" distingue-se do crioulo "negro" da Guiana Francesa em aspectos fonéticos e lexicais que ainda não foram suficientemente estudados. O crioulo passou a prevalecer entre os Galibi-Marworno em detrimento de várias línguas faladas pelos seus antepassados. Nimuendaju, que esteve no Rio Uaçá em 1925, ali registrou mais de cem palavras na língua galibi, uma dúzia na língua aruã e apenas dois vocábulos em Maraon.

O crioulo francês se manteve com língua materna apesar dos esforços do SPI em coibir sua utilização, por aproximar essa população dos hábitos franceses, fato desfavorável ao Estado numa área de fronteiras que foi definitivamente anexada ao território brasileiro somente em 1900. A escola implantada no Uaçá em 1934 proibia a utilização do crioulo pelos alunos, fato que era punido com o uso da palmatória.

O estudo dessa variação do crioulo francês começou a ser realizado a década de 80, entre os Karipuna e Galibi-Marworno, por Francisca Picanço Montejo, linguista do CIMI, que contou com a assessoria dos linguistas Ruth Montserrat (UFRJ) e Márcio Silva (então na UNICAMP). Foi produzida uma grafia do crioulo Karipuna e Galibi-Marworno e sistematizada sua gramática. De acordo com essa grafia, o idioma é designado por "kheuol". A língua vem sendo estudada por outros pesquisadores entre os Karipuna.

Localização
A maior parte da população Galibi-Marworno vive na TI Uaçá, homologada e registrada, com 470.164 hectares, no município de Oiapoque, no norte do Estado do Amapá. O rio Uaçá, a grande referência espacial desse povo, desemboca no mesmo estuário do rio Oiapoque, que marca a fronteira entre o Brasil e a Güiana Francesa. Algumas famílias Galibi-Marworno residem na TI Juminã, com 41.601 hectares, junto ao igarapé Juminã, que deságua no Rio Oiapoque. A TI Juminã localiza-se entre as áreas indígenas Uaçá e Galibi, tendo também como limites setentrionais os rios Uaçá e Oiapoque.

População
De acordo com os censos da FUNAI - ADR Oiapoque de abril de 1998, a grande aldeia de Kumarumã, localizada no médio curso do rio Uaçá, abriga 1506 pessoas. A aldeia Tukai, nas proximidades das cabeceiras do rio Uaçá, junto ao Posto de Vigilância da FUNAI implantado no km 92 da BR-156 possui 34 habitantes. Na aldeia Laranjal (também chamada Uahá), localizada junto ao igarapé Juminã, residem 88 pessoas. Além dessas três aldeias, pode-se também somar à população Galibi-Marworno os 89 moradores de origem uaçauara da aldeia Flecha, localizada no rio Urukauá. Por residirem junto a esse rio, local de habitação dos Palikur, essas famílias são consideradas "palikur" nos censos da FUNAI, embora compartilhem da mesma ascendência dos Galibi-Marworno.

Histórico do contato

A história da população Galibi-Marwono refere-se às trajetórias de populações distintas, migrantes de antigas missões, fugitivas de aprisionamentos, que criaram redes locais de sociabilidade concomitantemente ou a partir de experiências anteriores em redes mais amplas de contato interétnico.

No início da colonização, a região poderia ser definida como "aberta" a todas as vicissitudes da história. Por exemplo, os Maraon são mencionados em relatos do século XVI como habitantes da região do Uaçá. Os Aruã migram para a região das Güianas, no século XVII, fugindo das correrias portuguesas da região do baixo Amazonas e chegam a ser escravizados pelos franceses. Na primeira metade século XVIII, os Maraon e os Aruã são reunidos nas missões jesuíticas do litoral da Güiana Francesa, juntamente com Galibi. Com a expulsão dos jesuítas da Güiana entre 1765-68, uma ofensiva portuguesa invade os antigos territórios de missões, aldeias e estabelecimentos de colonos, aprisionam a população indígena e a deportam para o Amazonas. Os Aruã deportados retornam no século seguinte e se instalam no alto Uaçá. Mitos do Galibi-Marworno atuais mencionam a passagem de caçadores de escravos e seus relatos lembram da passagem de regatões.

Após a visita do Marechal Rondon à área, na década de 1920, o Estado brasileiro decide consolidar a sua fronteira com a Guiana Francesa e colocar sob seu controle as populações indígenas do Uaçá. Data daquela época a "união" (nas palavras de um Galibi-Marworno) dos povos do Uaçá sob uma mesma administração, um aparelho estatal e militar muito presente e atuante, especialmente no lugar chamado Encruzo, criado especialmente para o controle dos índios da região. Por outro lado, ainda que por razões estratégicas de Estado, o SPI "reúne" os índios sob seu controle, reforçando a identidade indígena dos povos da região, pela sua presença e atuação. O SPI, que aí atuou de 1945 a 1967, retira da área intrusos e "estranhos", como comerciantes, crioulos, franceses e ingleses que haviam se instalado às margens dos rios para a exploração de recursos naturais, como ouro e madeira de lei, abundantes na região. Segundo um informante, estes estranhos entravam com a conivência de alguns caciques. Os índios trabalhavam para eles mas sem nenhum benefício.

Data da época do SPI a introdução de normas específicas para os índios, como a proibição de bebidas alcóolicas e uma regulamentação para os casamentos de índios com não-índios. São introduzidos novos conceitos relacionados ao trabalho e ao comércio, controlados pelo órgão indigenista. Entre os Galibi-Marwono e os Karipuna, a Escola — instituição de maior destaque e alcance — foi aresponsável pelo agrupamento populacional em aldeias maiores, pelo uso da língua portuguesa, pelo respeito aos emblemas nacionais, como o Hino Nacional e o hasteamento da bandeira. Essa instituição serve de justificativa para a aglutinação de quase todas as famílias Galibi-Marwono na aldeia de Kumarumã. Data daquela época, ainda, a implantação da fazenda militar, no Suraimon, alto Uaçá, destinada à criação de búfalos em benefício dos militares de Clevelândia do Norte.

Entre o final da década de 1960 até o fim dos anos 1980, a FUNAI e o CIMI passam a atuar na região do Uaçá, quando, de alguma forma, se reverte o quadro anterior. Passam a ter prioridade a demarcação de terras, a realização de assembléias políticas regionais e o projeto de educação diferenciada, promovendo-se a consciência de uma nova auto-valorização entre os índios do Uaçá. Destacam-se a ênfase dada à cultura e aos direitos indígenas, além do incentivo dado à língua kheoul, estimulando os índios a considerá-la, assumidamente, como língua materna. Durante cinco anos, de 1990 a 1995, o CIMI promoveu um curso pedagógico para a formação de professores indígenas. A FUNAI desativou a fazenda de búfalos, implantada pelos militares no Uaçá, e o Encruzo foi também, em parte, desativado, continuando apenas como posto indígena e local de castigo e exílio temporário para infratores, submetidos a trabalho forçado. Cabe dizer que este costume do castigo é antigo na região e antecede o SPI. Os Galibi-Marworno se lembram de caciques poderosos e temidos que o executavam. O SPI, entretanto, conferiu a esta instituição a legitimidade do Estado. Esta função penal do Encruzo foi extinta pela Assembléia dos Povos do Uaçá em janeiro de 1996.

Atividades de subsistência e comerciais
As atividades de subsistência dos Galibi-Marwono variam de acordo com as estações do ano: seca e chuvosa, a primeira entre julho e novembro e a segunda entre dezembro e junho. De acordo com a época do ano, ou com as necessidades mais imediatas, as atividades têm lugar no alto curso do rio (nas florestas percorridas para a caça e para a retirada de madeira, ou nas águas piscosas da região) ou no médio e baixo curso (espaço "aberto" das savanas, utilizado principalmente para o plantio, nos tesos em meio às terras alagáveis), bem como para a pesca.

Os trabalhos coletivos nas roças obedecem ao sistema de "convidados", os maiuhi, ou mutirões tradicionais, mas cada família vende a sua produção individualmente no comércio de Oiapoque ou às vezes Saint Georges (na margem francesa do rio Oiapoque), onde o preço é melhor mas onde a venda, por lei, deve ser diretamente ao consumidor, sem intermediários, o que é complicado para os índios. Sendo assim eles vendem os seus produtos, ou no mercado ou por encomenda.

Obedecendo a normas de preservação ambiental, foi estabelecido em assembléia, na década de 80, que o peixe e a carne de caça não seriam vendidos fora da Area Indígena. A pesca está também sujeita a períodos de restrições para proteger a desova, especialmente do pirarucu, e a caça ao jacaré é proibida. As armas para a pesca continuam a ser as tradicionais, o arco e a flecha, o arpão, a ponta e a zagaia que os homens fabricam com ferro velho batido e trabalhado no fogo. Se há restrições para a pesca e caça, não há nenhum plano para a preservação da avifauna. Os índios comem todas as espécies e já sentem a falta de algumas delas, supostamente devido a um alto consumo deste tipo de alimento.

Há vários pequenos comércios em Kumarumã, alguns também funcionando como padarias. O costume hoje é tomar de manhã café com tapioca ou pão. Outros alimentos industrializados são também mais consumidos que antigamente, mas de um modo geral o cardápio cotidiano é peixe, farinha e tucupi.

Desde a década de 30 os Galibi-Marworno produzem excedentes para a comercialização, sendo o principal produto a farinha da mandioca. Muitas vezes, a farinha serve como "moeda" de troca para a aquisição de outros produtos alimentícios, na aldeia. Não podem, por acordo interno dos Povos Indígenas do Oiapoque, vender madeira para fora, mas todos têm o direito de serrar tábuas para a construção de suas casas, canoas, pontes e também de edificações públicas como a escola, enfermaria e casa de festas. São exímios construtores de canoas, que vendem, geralmente por encomenda, em Saint Georges mas também em Oiapoque e no Cassiporé.

A fabricação das canoas, assim como a derrubada das árvores, é feita coletivamente através do sistema de "convidado", nos períodos livres de tarefas agrícolas. A madeira é retirada na região das cabeceiras do Uaçá e está ficando cada vez mais difícil o acesso à madeira adequada e o próprio transporte. Por enquanto, os índios não possuem nenhum projeto ou plano de manejo sustentável da madeira. Vendem também artesanato em quantidade insignificante: colares de sementes ou miçangas, dentes de macaco e osso de veado, cuias gravadas, arcos e flechas, formando um kit ornamental. As pontas destas flechas são muito trabalhadas, dizem os índios que são dos Banahé, um antigo povo indígena da região. Vendem este artesanato especialmente em Saint Georges aos gendarmes e aos legionários, grandes consumidores destes objetos.

O transporte das mercadorias faz-se com barcos da comunidade ou de propriedade de alguns índios. Cobra-se uma tarifa por pessoa e carga. Geralmente o barco da comunidade faz a linha a cada 15 dias passando pelo oceano, contornando a Ponta do Mosquito e entrando pelo Oiapoque. É uma viagem longa sem contar com a espera por causa da pororoca no estuário do rio Uaçá.

A vila de Kumarumã

Localiza-se numa grande ilha à margem esquerda do médio rio Uaçá. É um arruado em forma de meia lua, contornando o campo alagado. A vila cresceu muito nos últimos anos, não se restringindo unicamente ao contorno do campo, estendendo-se para o interior da ilha. Atualmente há 163 casas ocupadas em média por seis a dez pessoas. As casas estão muito próximas umas das outras e o espaço disponível para novas construções está se esgotando. Muita mata já foi destruída e o solo está dando sinais de erosão em vários pontos.

A distribuição espacial das casas na ilha se faz através de quatro "pontas". A mais antiga é a ponta do Manga ou do Capitão. No meio da ilha localiza-se a rua Vila Nova. Finalmente, a rua Ponta da Bacaba. A rua do Porto ou do Posto, também chamada antigamente de Ponta do Grupo, por causa da escola, não inclui habitações indígenas. Ali se localizam o Posto da FUNAI, a escola, a enfermaria, alojamentos de professores e a sede do CIMI. Um pouco mais próximas do centro, a igreja e o sino da comunidade e a Casa da Festa ou Casa Grande, imponente pelas suas dimensões, totalmente reconstruída pela comunidade em 1996 e inaugurada no dia 5 de agosto para a festa de Santa Maria. Atualmente este trecho se divide em três blocos que representam, na verdade, as instituições e/ou agentes externos, presentes na aldeia.

As edificações da FUNAI estão em estado precário de conservação. As escolas, novas edificações e reformas de antigas construções foram financiadas através do Convênio Governo do Amapá/APIO. O CIMI mantém, apenas, uma casinha humilde. A área comunitária, com a Igreja e a Casa de Festas, fica no centro da Vila. Este último trecho é mantido pela própria comunidade através de mutirões e "equipes de trabalho" sob a orientação de um líder. Estes líderes, chefes de famílias extensas que ocupam uma área da aldeia são também responsáveis pela arrecadação das contribuições de cada família para pagar o combustível, necessário à iluminação da aldeia e, às vezes, outros serviços.

Pode-se falar de uma tentativa de "urbanização" da vila de Kumarumã, pelo traçado de ruas e postes de iluminação elétrica. Foi construída uma grande torre para sustentar uma caixa d'água e foi implementada uma rede de tubulações para o abastecimento de água nas casas, mas até hoje não estão em funcionamento. A tendência ao crescimento é rápido, especialmente na Ponta da Bacaba onde a área construída se estende bem além do campo de pouso. Por outro lado, toda a área de mata entre a Vila Nova e a Ponta do Manga já está totalmente destruída e ocupada por novas moradias. A oferta de água potável, a falta de esgoto e a acomodação do lixo, caseiro e da farmácia, são problemas que vão demandar soluções urgentes. Do ponto de vista social surge outra preocupação, a impossibilidade de um jovem casal construir, por falta de espaço, sua casa próxima à casa da mãe/sogra, desestruturando assim a regra da residência matrilocal, uma das poucas instituições tradicionais ainda funcionando.

Para chegar à aldeia a partir do leito do rio, as canoas usam um canal, le canal bax que leva até o posto da FUNAI. Hoje duas grandes pontes de madeira passam por cima dos campos alagados no inverno, lamacentos no verão. No inverno, as canoas conseguem chegar até às margens da ilha onde se encontram as casas de farinha, ou cabê e os estaleiros individuais dos índios onde constroem suas canoas. Algumas famílias ainda usam, no verão, pontes improvisadas com troncos de miriti.

As casas são na maioria palafíticas, de plano retangular com paredes e assoalho de tábuas de madeira. Uma pequena escada permite o acesso à entrada. Há geralmente uma ou várias divisões internas, separando a sala dos quartos de dormir. Os Galibi-Marworno normalmente dormem em esteiras de junco coberta por um grande mosquiteiro, onde repousam o casal e filhos pequenos. Hoje, porém, muitos usam redes e mesmo camas. Mosquiteiros armados durante o dia indicam presença de pessoas doentes ou de uma mulher que deu à luz. A cozinha é uma área parcialmente aberta, atrás da casa, onde há um fogão de barro, às vezes um fogão à gás. Há mesas , mas geralmente usadas para empilhar coisas, a "mesa" para as refeições é posta no chão, quando a família se reúne para comer o peixe assado ou fervido acompanhado de farinha, sal e tucupi. Não há muita mobília nas casas Galibi-Marworno, mas hoje, várias possuem uma televisão e uma antena parabólica além de um prosdócimo, como dizem os índios, ou freezer, que permite preservar alimentos e gelar água e bebidas.

Sempre perto da linha da água situam-se as casas de farinha, chamada de "cabê", servindo a várias famílias nucleares e onde especialmente as mulheres passam muitas horas do dia, descascando, ralando e torrando farinha de mandioca. No cabê encontramos artefatos tradicionais como as peneiras finas e grossas, os cochos, os cestos cargueiros, os viradores de beiju, os abanos de palha, além dos grandes fornos.

Muitas famílias ainda vivem segundo o padrão tradicional: os homens após o casamento passam a viver na casa dos pais de suas esposas durante dois a três anos, tempo suficiente para o casamento se consolidar, geralmente com o nascimento de um ou dois filhos. Tempo, também, para o jovem marido reunir o material necessário para a construção de uma nova casa. Hoje, às vezes os jovens preferem construir uma casa em alvenaria, desfigurando assim, o estilo tradicional da aldeia.

A relação entre sogro e genro é tranqüila e de ajuda mútua. Nos mitos, porém, as tensões entre afins são explicitadas, evidenciando um movimento de expulsar a afinidade do cotidiano para o plano mítico. Entretanto o status de sogro tem o seu peso. Em uma sociedade onde não se fala uma língua indígena, um jovem, entretanto, extende aos irmãos do sogro o termo pelo qual chama este último: beau-père (sogro em francês).

Relações políticas
A chefia de caráter tradicional era constituída pelos chefes dos grupos locais, famílias extensas que ocupavam as ilhas do alto Uaçá. Alguns porém, eram mais prestigiados, com famílias mais numerosas. Estes conseguiam reunir os grupos locais para a festa do Turé ou de Santa Maria, quando se consumia muito caxiri. Formou-se assim uma rede de sociabilidade no alto Uaçá. Há chefes lembrados como autoritários e temidos, às vezes promovendo alianças nem sempre benéficas ao conjunto das famílias. Na época da visita do Marechal Rondon lideravam chefes respeitados, cujos descendentes ainda vivem na região do Uaçá.

Em Kaumarumã, atualmente, verifica-se um forte sentimento comunitário institucionalizado. As decisões são sempre tomadas em conjunto. O cacique é assessorado pelo vice-cacique e os conselheiros da comunidade, além do chefe de Posto que é um índio.

Quando ocorrem brigas ou casos mais graves, o transgressor pode pegar uma "faxina", modalidade de castigo introduzida pelo SPI, em lugar do cruel castigo do "tronco", que os índios do Uaçá copiaram dos negros da Güiana Francesa. Até 1996 esta faxina era severa, chegando a 30 dias ou mais de serviço, roçando tabocal nas margens do rio Uaçá, no Encruzo. Esta modalidade de castigo foi abolida durante a Assembléia de 1996. A faxina é agora realizada na aldeia, quando se trata de delitos menores. Tratando-se de agressão mais grave, como ferimentos com facão ou mesmo homicídios, os culpados são expulsos da aldeia, muitas vezes definitivamente ou entregues à justiça comum. As medidas legais internas aplicadas a infratores é uma área de pesquisa a ser ainda desenvolvida na região.

Para discutir e resolver as questões internas, o cacique, vice-cacique e conselheiros se reúnem com a comunidade após convocação. A cada ano é convocada uma assembléia interna para discutir estratégias políticas, projetos econômicos e questões internas. Por outro lado, as assembléias gerais que se realizam a cada dois anos são mais abrangentes. Para estas, os índios convidam representantes do Governo, militares, autoridades, técnicos e pessoas ligadas a ONGs, além de índios de outras regiões. Em 1991 cria-se a APIO que representa todas as etnias da região com sede e estrutura administrativa próprias, em Oiapoque, o que vai permitir maior autonomia, agilização burocrática, encaminhamento de projetos e repasse de recursos. A partir de 1994 a política partidária e a política do Estado estão mais presentes na vida dos índios que passam a depender cada vez mais do apoio do Estado do Amapá.

Os convênios firmados entre a APIO e o Governo do Estado ou a Prefeitura de Oiapoque têm permitido desenvolver vários projetos nas áreas indígenas como a construção de escolas e alojamentos de professores, reforma de enfermarias, promoção de cursos para parteiras, além do pagamento de professores, monitores, merendeiras e agentes de saúde.

O prefeito atual de Oiapoque é um índio Galibi-Marworno que se elegeu com o apoio do PSB, partido do governador dos Estado do Amapá, J. A. Capiberibe (reeleito em 1998). A deputada Janete Capiberibe também está muito presente, com viagens freqüentes às áreas, apoiando as comunidades em várias ocasiões. Nas eleições de 98, os índios das reservas do Uaçá, Juminã e Galibi do Oiapoque votaram em massa no atual governador. Por isso mesmo os índios temem que qualquer mudança no governo possa prejudicá-los, o que de fato os torna muito dependentes da "política", mesmo por falta de opções.

Com toda essa abertura, o gerenciamento tradicional tornou-se mais complicado e os caciques se dizem cansados e às vezes desgastados. Mas uma coisa é certa: em momentos de crise, os índios agem unidos e resistem com firmeza.

Mitologia
Os mitos registrados entre os Galibi-Marworno relatam e interpretam fatos históricos marcantes, sempre localizados na paisagem específica do Uaçá que, por sua vez, também é de alguma forma submetida a uma interpretação, como os rios e lagos, as montanhas e formações geológicas estranhas. Um exemplo é o mito da guerra entre os Galibi e Palikur, verdadeira metáfora fundante das relações interétnicas na região, cujo cenário se estende do alto Urucauá até o rio Maroni na Guiana Francesa, e do qual foram registradas várias versões: Palikur de Kumenê, Galibi-Marworno e Palikur de Kumarumã. Esta última é sem dúvida, a mais rica e complexa. Neste relato, o confronto entre as duas nações, que se prolongou durante décadas, encerra, por um lado, uma relação de afinidade entre inimigos, ou seja, tio materno Palikur/filho da irmã Galibi, chefes guerreiros de suas respectivas nações e, por outro lado, a relação de parentesco entre seres deste mundo e do mundo dos invisíveis, ou seja um Galibi, o primeiro de sua "nação", gerado por uma mãe Palikur, deste mundo e um pai, karuãna, invisível.

Outro exemplo é o mito do xamã Uruçu, que realmente existiu e vivia na ilha Bambu. Dizem que, perseguido e capturado pelos caçadores de escravos vindos de Caiena, consegue, em alto mar, escapar, transformando-se em cobra ou onça no fundo da água, graças à ajuda de seus karuãna e do pakará e maráca que havia levado consigo. De volta ao Uaçá, foge para o alto Tapamuru (afluente do Uaçá), pedindo a seus espíritos auxiliares, os karuãna, que interrompam o curso deste rio com enormes deslocamentos de terra, para poder ficar ao abrigo de qualquer nova investida. Este rio realmente apresenta esta característica: obstruído o seu curso médio, corre subterrâneo em seu leito.

Outro mito muito presente na cosmologia Galibi-Marwono é mito da Cobra Grande. Os Galibi-Marwono narram o mito fazendo referência aos índios Palikur. O interessante é que essa versão, de um povo com tendência matrifocal, inverte aquela dos Palikur, com descendência patrilinear. O mito faz referência à montanha Tipoca, uma elevação bastante destacada na paisagem plana do médio rio Uaçá. Ali são encontradas conchas e caramujos marítimos, provavelmente vestígios de uma época onde havia comunicação daquele terreno com o mar, fato ainda a ser investigado geologicamente.

A narrativa conta que no monte Tipoca moravam antigamente muitos Palikur, em aldeias grandes, especialmente na ponta Caraimura. Cobra Grande vivia lá com sua fêmea e filho na Ponta Tipoca. O seu "suspiro" localizava-se no lugar chamado Mamã dji lo e por esse buraco ele jogava os restos de sua comida e também saía para esse mundo. Os índios gostavam de tomar banho no lago e Cobra Grande, que só comia carne, saía pelo buraco, dirigia-se à ponta Caraimura e matava muitos Palikur que ele, a cobra-macho, considerava serem macacos. A carne humana para ele era caça, ele só comia macaco e assim dava sumiço a vários índios por dia. A fêmea não gostava e não comia carne; apenas comia frutos do mar que o marido trazia para ela. (Na versão Palikur, é a cobra-fêmea a devoradora de gente, e a cobra-macho se apresenta como vegetariano e curador).

Um dia um indiozinho de nome Iaicaicani foi até a ilha Mamã dji lo, com arco e flechas matar papagaios e tucanos, numerosos naquele lugar. De repente, cai em um buraco. Como num sonho, ele se encontra no outro mundo. Lá ele cruza com uma senhora que lhe pergunta: "O que faz aqui?" "Me perdi", responde ele. Então diz a senhora: "Vou te dar um banho, tenho receio que meu marido te mate". Depois do banho, ela o esconde debaixo de um pote. Quando chega a cobra-macho, sua mulher lhe enche a barriga de macaco e cachiri. Ele também havia trazido caranguejos e lagostas para sua mulher. Ele sentia um cheio diferente, saboroso. Sua esposa nega várias vezes que há algo diferente na casa, mas acaba confessando que é um indiozinho e pede que não o mate. Felizmente, o bicho havia comido e estava de barriga cheia. "Bem", disse o Tipoca, você vai ser como meu filho e vai brincar com o Tipoquinha".

Iaicaicani consegue escapar e retornar à sua aldeia para contar o que estava acontecendo. Então, os Palikur pedem sua ajuda para prepararem uma armadilha para matar a cobra. Iaicaicani revela que as cobras descansam sobre as pedras determinada hora do dia, e os índios planejam uma armadilha para alcançá-los nessa situação. Iacaicani pede aos seus que matem apenas o macho e não a fêmea. Os índios, porém, matam os dois. Iacaicani e Tipoquinha, que haviam ido passear, voltam porque Tipoquinha tem o privilégio de ouvir o trovão, a voz de seu pai. Ele enlouquece quando vê o que havia acontecido com os seus pais e vai embora viver no lago Marapuwera, onde mora outra cobra do mesmo nome, o seu tio paterno. Iacaicani visita os seus parentes e diz: "Eu poderia ter voltado a viver com vocês, mas vocês mataram a fêmea, sinal que vocês não me querem de volta". Ele saiu e todos choraram muito. "Eu vou para o Marapuwera, viver com o Tipoquinha". Diz a história que ele também se transformou em cobra e o seu karuanã pode ser chamado pelos pajés em sessões de curas e época do Turé. Mesmo assim, ele é considerado um pequeno herói.

Fica evidente nesse mito, assim como nos outros, a consciência dos Galibi-Marwono das condições mutantes do espaço habitado. Trata-se de uma região de confluência da bacia do rio Uaçá com o oceano aberto, região geologicamente em constante redefinição. Tais mudanças geológicas são temas para as narrativas míticas, que tratam de seres que ocupam o mesmo terreno, bastante especificado e marcado nos eventos míticos.

Pajé e Turé
Pelo que foi dito, percebe-se que o contato com os Karuãna, os espíritos auxiliares dos pajés e moradores do "outro mundo", são um aspecto importante da cosmologia Galibi-Marwono e característica de seu xamanismo. Os Karuãna não são todos iguais e desempenham funções diferentes, alguns são mais poderosos que outros e ao mesmo tempo que auxiliam são também perigosos e precisam ser controlados. Os karuãna kamará, os mais resistentes e guerreiros, nunca descem no terreiro da festa do Turé e não se sentam nos bancos, mas ficam atentos, no alto do mastro, a qualquer ataque ou indevida intromissão de espíritos de outros xamãs, inimigos ou ciumentos, prestes a encaminhar algum feitiço.

Pesquisas recentes mostraram a importância da avifauna para a cosmologia desta população. As aves estão intimamente relacionadas aos xamãs, enquanto indivíduos. Cada xamã possui um pequeno banco ornitomorfo, sobre o qual toma acento para realizar qualquer atividade que envolva o contato com os karuãna. O pajé Iok, por exemplo, guarda o banco em forma de arara vermelha que fora de sua mãe, uma reconhecida xamã em Kumarumã. Antes de morrer ela teria dito ao filho: "pega e guarda esse banco. Quando os índios fizerem um Turé, leva-o junto com você e naquela hora o meu karuãna virá te visitar".

Os bancos de aves são recobertos de desenhos, variação de dois motivos básicos: o kroari e o dãndelo, que não são apenas recursos ornamentais, mas servem para expressar uma vasta gama de significações e representações. Os dois motivos, respectivamente um losango e um zig-zag, são também expressão de uma metáfora fundante dos grupos do Uaçá, ancoradas na dicotomia: abrir-se para o exterior/fechar-se.

O Turé é considerado um ritual tradicional dos Galibi-Marwono. Ele seria normalmente realizado em outubro/novembro, época da seca e da derrubada das roças. Mas não é mais realizado atualmente. Para eles, o Turé é coisa muito séria e perigosa e deve ser realizado segundo regras bem definidas para ser motivo de alegria e não de desgraças. Os Galibi-Marworno não possuem mais um pajé atuante na aldeia. Uratê é Palikur; antigamente era sua esposa, Galibi e também xamã, que dirigia o ritual. O pajé Aniká, residente no Encruzo, um homem forte no domínio e trato com os Karuãna, não atua mais por ter se convertido à religião evangélica. Uma outra pajé vive hoje em Oiapoque e não freqüenta mais a aldeia.

Os índios contam a história de dois Galibi que se propuseram a realizar um Turé, usando o banco de um pajé falecido, mas como não haviam sido iniciados, especialmente para um relacionamento adequado com os espíritos das entidades sobrenaturais, estes chegaram confusos e insatisfeitos no espaço sagrado, não recebendo as oferendas esperadas, o que teria causado, poucos dias depois, a morte de um dos realizadores deste Turé. Esta foi a explicação dada pela não realização do ritual.

Os Galibi-Marworno ficam perplexos pela desenvoltura e freqüência com que os Karipuna realizam um Turé. De tudo isso se conclui que este ritual ainda possui um significado tradicional muito forte e presente entre a população de Kumarumã. Os Galibi afirmam, ainda, que o grande chapéu, o plumage, ornamento usado no Turé, é originalmente deles e não dos Palikur como se pretende.

Por outro lado, apesar de não exibirem abertamente o Turé, os homens adultos se reúnem durante as noites de lua cheia, no mês de outubro, em uma casa isolada no campo, domicílio do pajé Uratê, e cantam até o amanhecer, bebendo caxiri, para se alegrar com os Karuãna e agradecer as curas concedidas. Nestas ocasiões descem também os espíritos dos mortos, como o da esposa de Uratê, pajé também e que vem para sentar-se no seu banco, belíssima escultura de uma arara vermelha, cuidadosamente guardada pelos seus familiares há anos.

Sendo assim, mesmo sem xamã, o xamanismo ainda se mantém vivo. Por outro lado, muitos homens adultos praticam o potá, ou sopro, como uma forma de cura. Se os xamãs exercem as suas atividades sob a influência de espíritos da mata e da água, e de outros xamãs vivos ou mortos, a prática do potá não se faz através desses espíritos e não implica em poderes sobre os fenômenos naturais. O potá cura vários tipos de doenças, algumas delas causadas pela ave noturna kaiuiurú, que voa em sentido contrário com a barriga para cima. Usa-se para isso banhos com ervas, sopro, defumações e rezas na língua antiga ou patois.

Ritos do catolicismo popular
A religião católica, que os Galibi-Marworno dizem seguir, se faz presente através dos ritos ligados ao ciclo de vida: batismo, casamento e funeral. Os dois primeiros são celebrados pelo padre quando visita a aldeia. Os ritos funerários são mais tradicionais. O morto é velado em casa, a noite toda, acompanhado por cantos em patois e bastante animação, sendo que as pessoas comem, bebem, jogam e conversam alegremente. Algum tempo depois de enterrado, o mesmo ritual se repete, durante uma noite inteira até o amanhecer.

O calendário de festas inclui a festa de Santa Maria que começa no dia 5 de agosto e acaba no dia 17. Ela é precedida pela charité, quando uma procissão com músicos e o maître charité visitam todas as casas da aldeia para recolher uma contribuição em dinheiro ou espécie para a festa. Depois é levantado o mastro, carregado de frutas, em frente à igreja. Realizam-se ladainhas de noite e procissões com a Virgem, de tarde. Um número elevado de festeiros (eram 16 em 1996), fazem a promessa, no ano anterior, de se dedicar à realização da festa. Com os seus familiares preparam as comidas, compram as bebidas, enfeitam o salão e cuidam da ordem pública, tarefa necessária por causa de alguns excessos com bebidas. Muitas pessoas vêm de outras aldeias, do Curipi, Urucauá, Oiapoque, Cassiporé, Saint Georges e mesmo Caiena. Também participam funcionários da FUNAI e outras autoridades. Se é época de eleições, os candidatos aproveitam a ocasião para fazer sua campanha, ajudando nas despesas, o que é chamado de presente "da política". A comida é farta, não há peixe, porém, apenas carne. O baile dura três dias, sendo obrigatória a permanência no salão durante toda a noite até o amanhecer. Outras festas são as de São Benedito, na época de Natal, e as festas cívicas brasileiras.

Aspectos contemporâneos
A região do Uaçá era inicialmente "aberta" não só para a entrada de estrangeiros nas aldeias indígenas, como também para o trânsito dos índios nos espaços vizinhos. Durante muito tempo, os Galibi saiam com freqüência da área indígena para trabalhos temporários. Deslocavam-se sobretudo para Caiena, onde são empregados como trabalhadores braçais na construção civil, como garimpeiros, como carregadores ou em restaurantes. Os jovens que saíam ficavam naquela cidade por alguns meses e na sua maioria voltavam para a área indígena. Hoje, a fiscalização por parte das autoridades francesas é maior e os "ilegais" são reconduzidos ao Brasil. Os índios não recebem mais um tratamento específico, sendo considerados apenas brasileiros, entre tantos outros. Índios que permaneceram de oito a quinze anos na Güiana Francesa, tiveram que voltar porque nunca haviam se preocupado em regularizar sua situação de cidadania e trabalhista. Entretanto, os índios lá gozam de prestígio, sendo considerados bons trabalhadores e honestos.

Em Kumarumã um grande número de índios já trabalhou do "lado francês". Muitos voltaram por causa de suas mulheres, que não se adaptavam à vida longe da aldeia, ficando doentes. Aqueles que foram forçados a voltar, sentem falta do emprego, da comida, verduras, queijos e vinhos, mas acham que Kumarumã melhorou muito nos últimos anos, que a vida é pacífica entre os familiares e que há muita terra e rios piscosos, um benefício para as comunidades indígenas.

Desde 1994, com apoio do Governo do Amapá, são efetuados convênios entre o Estado do Amapá e a APIO, com repasse de recursos para a realização de projetos nas áreas de saúde, educação e infra-estrutura. Constata-se, ainda, maior participação dos índios na política partidária local, tendo se elegido um índio Galibi-Marworno ao cargo de prefeito de Oiapoque em outubro de 1996, pelo PSB.

Os índios idosos, a cada mês, deslocam-se até Oiapoque para receber a aposentadoria do Funrural, um apoio financeiro nada desprezível para uma parte da população. Muitos Galibi-Marworno vivem na cidade de Oiapoque, que tem duas ruas com os etnônimos das famílias que ali residem: a rua Karipuna e a rua Galibi. Um certo número de famílias Galibi-Marworno vive em Saint Georges, em um bairro à margem do rio Oiapoque. Outros grupos, em parte de origem Galibi-Marworno, como os do Flecha, localizam-se à margem do rio Urucauá e os da aldeia Uahá, no igarapé Juminã, no baixo Oiapoque. No km 90 da BR-156, o Posto de Vigilância Tucay transformou-se em nova aldeia com várias famílias de Kumarumã. Alguns Galibi-Marwono vivem na aldeia Manga, localizada no rio Curipi e com população Karipuna.

Os Galibi-Marwono recebem assistência de várias agências sendo que a principal, a FUNAI, está atualmente sem recursos para qualquer projeto comunitário. Ela apenas mantém os seus funcionários, que são poucos em Kumarumã, e dá apoio logístico para a remoção de doentes, às equipes de saúde da Funasa e na compra esporádica de remédios. A prefeitura de Oiapoque também repassa recursos às comunidades indígenas. Atualmente, os projetos mais significativos são elaborados pelos índios e os recursos e apoio técnico passam pelo Convênio APIO/Governo do Estado do Amapá e suas Secretarias específicas.

O CIMI, responsável por vários projetos no passado, como a implantação de cooperativas, assistência médica e escolas do kheoul, atua menos ultimamente, limitando-se às atividades religiosas e à formação de professores do kheoul em Oiapoque. Em 1998, um novo padre, de origem polonesa, estava morando em Kumarumã, aprendendo a língua e participando das atividades cotidianas, como preparo para uma futura assistência. Desde 1998, a convite do cacique Paulo Silva, vive também na aldeia o pastor Carlos e sua esposa, professora na aldeia. Celebra o culto, às vezes traz uma equipe médica para consultas rápidas, mas o seu objetivo principal é a conversão dos índios.

A assistência à saúde em Kumarumã sempre foi precária, embora conte com as equipes da Funasa e mesmo da FUNAI, além do atendimento no Hospital do Índio em Oiapoque, projeto realizado com a ONG France Libertés. Os enfermeiros nas aldeias fazem o possível, mas sem medicamentos e sem infra-estrutura adequada é difícil trabalhar. A malária é endêmica na região. Há também diabetes, pessoas com pressão alta e muitos homens com gastrite ou úlceras devido à ingestão abusiva de álcool, especialmente cachaça de má qualidade. As outras doenças são as gripes periódicas, as verminoses e diarréia, dermatoses e dores reumáticas.

Sobre o ensino escolar, a Escola Estadual Camilo Narciso, com 600 crianças matriculadas, compreende duas grandes edificações, uma nova e a outra reformada com uma grande área para a merenda escolar. Os produtos para a merenda são comprados em parte, na própria aldeia. Kumarumã. A escola é uma tradição antiga entre os Galibi-Marworno, desde a época do SPI, nos anos 40. A escola teve um papel aglutinador e transformador. Foi uma das primeiras construções de Kumarumã. Por causa da escola os Galibi abandonaram suas ilhas no alto Uaçá e decidiram se instalar em uma única aldeia. Em oposição ao patois, falado pela população indígena, na escola ensinava-se o português, língua oficial. Esta norma era rígida e todos ainda lembram a professora, Dona Doquinha, bastante severa e exigente. Foi apenas com a chegada do CIMI nos anos 70 que o patois voltou a ser valorizado e mesmo ensinado no pré-escolar e alfabetização. Também foram elaboradas cartilhas em patois.